Quem faz um blog fá-lo por gosto

quarta-feira, 23 de julho de 2014

E agora tu, filha*


Tu és a maior surpresa das nossas vidas.
Dizem que aos últimos batimentos cardíacos da  maratona que é a vida, que ao último fio de ar que segue vagoroso e trôpego, em marcha fúnebre, do pelinho à entrada da narina até ao mais longínquo bronquíolo do pulmão, surgirão, em forma de relâmpagos, os acontecimentos mais incríveis da história mais curta ou mais comprida que nos calhou na rifa e que, se não formos incautos, deixaremos algures escrita, ainda que em fragmentos idênticos a um quebra-cabeças, para memória futura.

A manhã em que eu soube que existias em mim será um clarão nessa retrospectiva burlesca da minha vida.

Perdi o chão. Faltou-me o ar. Ouvi um zumbido e o mundo começou a rodopiar como num pião atirado lá do alto com muita corda e a película do filme ficou amarelada - sempre que estou para desmaiar vejo tudo a sépia.

Foste feita na Primavera. Não sabemos bem ao certo quando; nada bate certo nesta gravidez: datas, contracepções, calendários - tudo em desvario.
A Primavera marca as nossas vidas desde o dia do ponto de exclamação. Tu não és excepção; és mais uma tatuagem daquele período feliz do ano em que tudo brota.

Demorei muito tempo a aterrar; tempo de mais a ficar feliz pela tua chegada espampanante sem convite ou aviso.
As melhores coisas acontecem sempre quando menos esperamos; a frase é batida mas é uma verdade absoluta. Não será, portanto, fácil perdoar-me por ter demorado tempo de mais a ficar feliz.
(Não faças grandes planos para a vida; ainda estragas os planos que a vida tem para ti.)

A Medicina diabolizou a quarta cesariana.
A última coisa que o simpático e sorridente médico que arrancou os teus irmãos do meu ventre me disse, nem uma dúzia de meses antes de eu regressar aterrorizada ao seu consultório, no fresquinho e pacato Jardim das Amoreiras, foi: "Eu perdi muito tempo a costurá-la (como se tivesse estado na aula de louvores a fazer ponto de cruz, seguido de ponto de pé de flor); não é para voltar a abrir (já à bruta, como se fosse uma costureirinha de vão de escada a colocar um fecho eclair ou a fazer uma bainha em cinco minutos). Há riscos enormes numa futura gravidez (com a gravidade de um fado em tom menor misturado por um DJ com a trilha de um filme de terror)"

Afinal, não é bem assim: há riscos, alguns são chatos, alguns são assim-assim. Há um desfile de complicações variadas que nos podem apanhar algures pelos nove meses desta gravidez (já vamos a mais de metade), mas à excepção das violentas náuseas e enjoos em modo de estação de serviço, aberta 24 horas por dia, nada a registar, para já, no Livro do Bebé, a não ser menos uns quilos desejáveis na balança.

Ou então, pode correr tudo bem.
Eu nem sou optimista de natureza, filha. Sou estruturalmente deprimida só que sei fingir muito bem que a vida é uma festa e que este é o fabuloso destino dos Leiria-Ralha, realizada por Baz Luhrman e com banda sonora de Yann Tiersen.
E quanto queres apostar que vai correr tudo bem? E que, em Dezembro, vou sentir o coração a explodir, assombrado, quando te colocarem pela primeira vez ao meu lado? (quando a vida se estiver a despedir de mim, vou demorar-me nesse momento em que vos vi pela primeira vez).

Contei ao mundo que vinhas na noite de Santo António.
É a noite dos amores, é a noite do menino, dos manjericos e das sardinhas assadas. É a noite da cidade em que vens nascer.
A gente não vai à igreja mas gosta dos santos. Temos prateleiras cheias de Galos de Barcelos e de santinhos do pau oco; alguns até brilham no escuro, outros têm mantos metereológicos.

O mundo acolheu e espalhou a notícia com uma alegria contagiante. Eu então respirei fundo como quem se prepara para fazer um feito heróico, ou algo tão banal como ter um filho. E fiquei, então, inundada de paz e luz. Com a bênção do santo.

Eu nem sabia que sonhava contigo, filha. Que a história trazia mais uns capítulos, num novo tomo, que nos seria apresentada de surpresa uma nova personagem principal.
Esta história é interminável.
Vem contar-nos o futuro.


*Se fores um menino, desculpa a mãe. O pai encarregar-se-á de fazer o que ele faz como ninguém: limpar gralhas, semear vírgulas, alterar o género do princípio ao fim destas linhas. Posso sempre culpar a médica que nos disse às treze semanas de gestação que eras quase de certeza uma menina; que raramente se enganava e nunca tinha dúvidas, que ela era muito boa no ofício de deslindar sombras indistintas no ecrã, como num teste psiquiátrico de Rocharch.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Aurora, a 'fadinha carrancuda'


[Foto: Raquel Brinca (www.hug.pt) - ela tem o melhor emprego do mundo]


O meu irmão Leonardo, varão primogénito e génio da família, conta muitas vezes esta história: quando eu era pequenina e a mira técnica estática e hipnótica da RTP era pontualmente interrompida para uma curta emissão com muitos interlúdios musicais e locutoras de continuidade, passava no bloco infantil, entre animações de leste do Vasco Granja, uma série que não era o Marco nem a Heidi mas parecida, que eu, seguia com afinco adicto, ansiando o desvendar da premissa aterrorizadora mas básica da narrativa, que contava a história de uma menina procurava pelo mundo inteiro pela sua desaparecida mãe. A cada pista, surgia outra, a cada porta, novo enigma, até que, muitas dezenas de episódios depois, a menina finalmente encontra a mãe. Sepultada num cemitério.

O Leonardo diz que eu chorei durante dias a fio; que tive terrores nocturnos, que me alapei à minha mãe, pedindo-lhe imortalidade durante meses e meses. Esta terá sido a minha primeira confrontação com a morte de uma mãe, mas, apesar do choque e do trauma que vai sendo recordado em jantares de família, não me lembro de nada.

O que eu me lembro é de uma série, com bonequinhos de plasticina, ou animação muito rude, que contava a história de uma princesa que não sorria por nada deste mundo. A cada episódio, que tinha menos de um minuto, pelo menos na minha lembrança, e sempre o mesmo cenário e alinhamento da acção, vários candidatos desfilavam e tentavam a sua sorte, recorrendo a todo o tipo de truques para fazê-la sorrir.

Apesar das esforçadas tentativas, a princesa continuava inexpressiva, carrancuda no seu balcãozito real.
O episódio acbava com umas cortina de veludo fechadas sobre a princesa sisuda, numa enorme frustração do rei, criatura simpática e sorridente, até que um dia, um príncipe tímido, provavelmente com poucas competências sociais como o meu,  traz um par de óculos à princesa, desvendando a todos que o seu único problema era apenas uma miopia do raio. E assim viveram felizes para todo o sempre, vestido de noiva a condizer com os óculos de fundo de garrafa, e sorrisos e gargalhadas contagiantes pela vida fora, compensando todo o tempo perdido.

A Aurora, a minha linda terceira filha, lembra-me muitas vezes esta princesa e esta série que gravei na memória da primeira infância. Ao contrário dos irmãos, ao mês de vida, a Aurora, que podia muito bem ter-se chamado Serena, ainda não sorria. Só aos anjos, enquanto dormia, sonhando com sabe-se lá o quê.

Todos nós nos atropelávamos em palhaçadas, caretas, cantilenas, danças exóticas para fazê-la sorrir, mas era e foi tudo em vão: a menina muito morena (a primeira morena da família numerosa) permanecia seráfica, com os seus olhos muito negros, atenta a tudo ao seu redor, mas sem esboçar qualquer sorriso.

Ao segundo dia de vida, ainda na Maternidade, a recuperar da terceira cesariana como quem vai fazer a manicure ou ao spa, o quarto com magotes de visitas, sob o olhar gélido de reprovação e censura da enfermeira, e a Aurora também permanecia impávida no seu berço de design, em acrílico, sem sombra de cólicas ou outros desconfortos desse acto violento que é nascer. De repente, e sem aviso, sou atacada por aquilo a que as enfermeiras mais tarde me contaram ter o nome pouco científico de 'dores tortas'. Pedi todas as drogas disponíveis, supliquei por morfina com menos graça que o Doutor House, mas deram-me Benurons. Uma pessoa é atropelada por um camião e dão-lhe benurons de oito em oito horas... É o calvário da abstinência de fármacos da amamentação...

'Como é que eu me fui meter nesta outra vez?', lembro-me eu de ter pensado, sem querer saber do prémio de consolação que a enfermeira trazia com as unidoses de paracetamol: 'Quando a mãe tem as dores, o bebé é um santo; vai ser uma santinha, aguente-se e agarre-se a isso, que já passa!'

A minha Aurora ainda hoje não sorri muito - só o António lhe arranca gargalhadas, de uma forma quase violenta, entre sustos e gritarias. E ela segue serena e segura pela vida. Impassível.


Com poucas semanas de vida, esta menina com nome de princesa Disney adormecida por um feitiço da fada despeitada por não ter sido convidada para a festa de baptizado, ganhou a alcunha 'fadinha carrancuda'.

É gabada e endeusada pelas educadoras da creche, onde ingressou com apenas cinco meses (nesta família numerosa a mãe trabalha, tem uma carreira intensa e stressante, e não é baptizada nem vai à missa), que a elegem o bebé do ano, como na revista Maria, derretendo-se pela facilidade no trato. É certo que eu a levo sempre vestida de princesa - tenho a teoria que se forem sempre bem vestidos são sempre mais bem tratados do que aqueles que vão de pijama ou fato-de-treino - e que os seus caracóis pretos, decorados por bandoletes com florinhas coloridas e em pendant com os vestidinhos pirosos ajudam à festa. Mas o magnetismo seráfico desta menina tem o que se lhe diga. Todos a rodeiam para a fazer feliz.

A 'fadinha carrancuda' é a única filha não sagitariana da prole.
Foi concebida em dia de Tempestade, a meio de Agosto e do Atlântico, na Ilha onde o Arcanjo São Miguel cavou o seu quintal na Terra. Na noite em que a Tempestade Gordon atingiu a ilha, despenteando-a violentamente , a Aurora decidiu que estava na hora de vir com a força do vento, embalada pelas ondas revoltas do mar . Ela é, porém, a antítese da tempestade. É talvez o dia seguinte; é a bonança, o dia de sol luminoso; é a esperança que a primeira luz do dia traz sempre quando bate pela janela.

A Aurora teve o epíteto de filha mais nova por muito pouco tempo. A pequenina, doce e serena Aurora (cujo único detalhe perturbador é o de gostar de dormir e brincar com um livro de Trotsky) será, não tarda, a irmã... nem sei que irmã é... talvez a do meio? Será pouco mais do que um ano e meio mais velha que a sua irmã / irmão - numa quarta cesariana de alto risco, dizem os médicos.

Estou a rezar pelas "dores tortas". Porque a Aurora roça a perfeição.




quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ai António, Deus te livre do Demónio!

[Foto: Família Numerosa]

Na aldeia em que o meu avô materno nasceu há 110 anos anos, numa casa de xisto com vista para a Serra de São Macário, a escassos quilómetros das águas termais de São Pedro do Sul, e de uma terra cheia de histórias de lobisomens e cobrantos, a sexagenária prima Maria, repete, ao meu filho António a cantilena de um exorcismo light , ainda ele tinha caracóis dourados de querubim de igreja barroca: "Ai António, Deus te livre do Demónio. E das más tentações. E do caldo sem feijões".

O 'Toninho cravo-roxo', como ela lhe chama, com uma melódica doce voz, tem propensão para a catástrofe, e ela vai cantarolando as suas lenga-lengas para espantar os maus agoiros.

Apesar de termos sido obrigados, a certa altura, nos seus primeiros passinhos, a andar com ele de rédia curta e trela nos passeios dominguieros (aturando todo o tipo de impropérios de anónimos enfurecidos que rogaram pragas e desejaram com todo o ser processos na Comissão de Protecção de Menores), apesar de não termos tido outro remédio senão fechar todos os armários com detergentes com trancas, de termos selado todas as tomadas eléctricas, apesar de já o termos impedido de se matar com uma sirene de uma ambulância de brincar, mesmo assim não conseguimos evitar que partisse os dentes da frente aos 18 meses, numas férias no Algarve, e repetidamente a cabeça, sempre no mesmo sítio, aos dois e aos quatro anos.

Mesmo assim, mesmo não tendo nascido com o gene inato de prever e evitar os perigos básicos do mundo, de tratar por tu as nódoas-negras, o António é a criatura mais leve d' A Família Numerosa.

Ele é dono de um impressionante perímetro encefálico que nos impede, desde os seus 6 meses de idade, de lhe comprar chapéus de bebé/ criança. A sua cabecinha pensadora é caracterizada por uma exuberância capilar, de fios dourados muito grossos e ásperos, que outrora foram cachos dourados macios.

É uma criança permanentemente alegre, capaz de fazer mil caretas e vozes diferentes, e ganha o dia a fazer asneiras inconsequentes, essencialmente com o objectivo de fazer rir o próximo. O António não tem dramas existenteciais; sabe rir-se das suas fragilidades - que são várias, desde a sua dificuldade de dicção de uma série de letras e sons, até uma descoordenação motora confrangedora -, e faz das suas inseguranças um trunfo cómico, armando-se em stand up comediant em palco, com uma plateia instantaneamente rendida à sua (des)graça natural.

O António é o menino da sua mãe: faz olhos de Bambi abandonado, disparando às dezenas por dia: 'Mamã, porque é que és tão lindinha?" à mínima asneira e só porque sim, fazendo com que o seu reinado, de varão entalado no meio de mulheres, permaneça intocável.

O meu actual filho do meio queria muito ter um irmão, o seu único ataque depressivo foi quando lhe demos a notícia que a Aurora era uma menina. Chorou lágrimas que pareciam repuxos e nas semanas seguintes voltaria a chorar nas mais inusitadas ocasiões e a despropósito, como nos corredores do supermercado. A birra melancólica não o impediu de ser o melhor irmão do mundo para a benjamim. Só ele lhe consegue arrancar gargalhadas daquelas em que o riso dobra, e dele nasce uma responsabilidade insólita quando lhe pedimos que tome conta da pequenina enquanto vamos tomar um duche rápido ou preparar algo para o jantar.

No início deste ano, o António fartou-se de pedir um irmão para os anos e os Deuses atenderam o seu pedido. Quando avançámos cautelosos a forte probabilidade de poder vir a ser mais uma mana, acenando logo com um novo jogo para a PSP para atenuar o desgosto, passou a torcer pela menina: quer mesmo é dar aos polegares e desligar o cérebro no pequeno ecrã do dispositivo da Sony.

Em Setembro próximo, connosco aterrorizados e a torcer o nariz mas resignados, o António perde um ano de infância e brincadeiras e vê-se vítima da maldição dos bebés de Dezembro que ingressam na escolaridade obrigatória um ano antes de todos os outros. Imagino uma caligrafia horripilante, os cadernos todos esburacados, reuniões com os professores preocupados porque não se concentra e só quer brincar. Ou então não: quem sabe se ele não nos surpreende a todos, utilizando desde logo com a professora a técnica do 'Sabes que és tão lindinha?', dando uso à sua longa pestana dourada encaracolada.

Tudo pode acontecer. Aquilo que eu sei é nada ou ninguém jamais lhe roubará a leveza.


Carolina, a diva melancólica pré-adolescente

[Foto: Carlos Augusto Stucky, nosso irmão brasileiro]

Na foto não se vêem, mas é dona de uns olhos de um pantone raro, que só se encontra nas águas calmas e quentes das Caraíbas. O rosto de boneca é enquadrado por um cabelo fininho com mil tons de loiros que uma qualquer multinacional de beleza tenta em vão desenvolver em laboratório para lançar uma nova coloração para o mercado. Apesar de não se verem os seus olhos-vitrais, este é o retrato fotográfico que melhor espelha a sua personalidade: uma diva melancólica, a entrar na adolescência, e não muito satisfeita por isso.

É a primogénita, carrega esse fardo de ter que ser o exemplo, estabelecer o benchmark, como se diz na gíria que uso quando escrevo press releases que hão-de ser notícias nos jornais de amanhã. 

Foi filha, neta, sobrinha única durante cinco anos. Ficou com tiques de vedeta desses tempos. Estragámo-la de mimos, tolerámos todos os caprichos, idolatrámos todas as suas gracinhas, e também fomos e continuamos a ser exigentes como não somos com mais nenhum dos nossos filhos.

Não é fácil ser a mais velha: cinco anos mais do que o António; dez anos acima da Aurora; aturar esta família onze anos antes deste bebé que dá pontapezitos ténues, quase imperceptíveis, enquanto escrevo estas linhas. 

É a metade loira de mim, idêntica na sensibilidade artística, na alegria excessiva ou nos arrebatadores estados melancólicos, na revolta contra toda e qualquer injustiça cometida no mundo ou na esquina da rua; temos até o mesmo tipo de mau-feitio autocentrado e o mesmo sono leve, levíssimo (nem em bebé conseguia ficar mais do que um minuto a olhar para ela a dormir; acordava logo em sobressalto).

Não se lembra da vida sem o João. Ele chegou à minha vida com um peluche do Noddy na mão — ele sabia que a minha vida eram duas já, para sempre; o rapaz é tímido mas não é parvo. O taxista da Enid Blyton foi a sua primeira e precoce manifestação de uma personalidade dada a obsessões. Para nos irmos habituando de bem cedo. 

Estranhou o João ao início, mas por pouco tempo. Éramos, tínhamos sido só nós duas numa casa muito antiga ao Marquês de Pombal; tínhamos sido sempre só as duas, mas rendeu-se de mansinho.
Dizia poucas palavras nessa altura, a sua pobre dicção assemelhava-a ainda mais a uma herdeira imigrante do Bloco de Leste comunista. Dizia muito bem «feia», palavrão com o qual agredia qualquer velhinha simpática que lhe fosse gabar a cor dos olhos ao carrinho de bebé, e era praticante de alta competição do «não». Até hoje.

Dá-se mal com mulheres; não lhes entende o ADN mesquinho, o estrogénio maldoso. Foi segregada na creche pelas outras meninas. Porque tinha olhos azuis, disseram-lhe. 

A primária foi um período muito feliz da sua vida: frequentou uma IPSS centenária e multicultural nos Anjos, ao Intendente, bairro para onde fomos morar antes de ser panfleto de propaganda de um presidente da câmara, candidato a líder do PS e a primeiro-ministro, e ali encontrou dias felizes numa turma de dez rapazes e apenas três raparigas.

Esfolou joelhos, tornou-se Maria-Rapaz e a menina da professora, das auxiliares e até das cozinheiras e, depois de ter sido cobaia dos primeiros exames da quarta classe depois da queda de Salazar, que passou com glória e distinção, foi lançada aos lobos e veio a primeira grande hecatombe na mudança para a escola pública com tiques de colégio privado, o liceu com fama de ser incubadora de todos os betinhos de Lisboa.

Houve de tudo um pouco este ano na vida da diva melancólica pré-adolescente: de uma turma de 13 para uma turma de 30. De um colégio familiar, com meninos de todas as raças, credos e faixas sociais, para uma EB2+3, com centenas e centenas de alunos, dos dez aos 18 anos de idade, em que o nosso carro, com dez anos de idade e muitas amolgadelas do primeiro ano de condução do pai (nota à navegação: nunca tirar a carta aos 35 anos e com três filhos a cargo), nos coloca numa estratosfera a roçar a vergonha.

Houve bullying refinado, ultrapassado com cicatrizes bem visíveis, houve notas a pique, concentração e brio guardados à chave para outras núpcias, e uma auto-estima reduzida a cinzas. 

A diva tem o mundo todo a seus pés só que ainda não se apercebeu. 

Aguardam-se então as cenas dos próximos capítulos.



Diana e João, ou a Lei de Coulomb

[Foto: www.ties.pt]

Dizem que o amor tem qualquer coisa de Química. Mas há uma equação física, formulada por Charles de Coulomb no século XVIII, que descreve a interacção entre partículas electricamente carregadas e explica, também, como o Universo conspirou de forma tão perfeita até nos juntar de forma magnética, às vezes quase siamesa.

Os opostos atraem-se, diz a Lei de Coulomb e a frase batida.

Vejamos; vamos por partes: eu sou morena, vivo numa batalha permanente desde que sou gente com o perímetro da minha anca, contendo em vão tudo o que como, rio muito alto, falo tão mais alto quanto rio, choro muito, choro por qualquer coisa, boa ou má, faço das gralhas criaturas reservadas, falo da boca para fora, falo o que devo e o que não devo e digo muitos palavrões, justificando o calão com a minha costela beirã (aquela que depois já deu crianças de olhos azuis). Voto à direita, apesar de ter aura e fama de sindicalista e, pior que tudo, eu e o meu umbigo padecemos do complexo centro-do-mundo.

Já ele é loiro, é magro e seco, mas dá prejuízo aos rodízios brasileiros de carne suculenta, fala pouco e muito baixinho, ri-se de forma contida, e é um perigoso esquerdalho. É a mais generosa e doce de todas as criaturas do mundo: deixa o palco todo para mim, não precisa de protagonismos, segue atrás de mim, entre a sombra e o guarda-costas, ampara-me quando dou um trambolhão na passerele ou quando, em vez de aclamação e bravos, a plateia me lança vaias e apupos.

É claro que temos muito em comum, acredito que é isso que cimenta aquela força magnética dos opostos que nos juntou. Sem modéstia alguma, somos almas-gémeas no sentido de humor, na inteligência atrevida, e na incrível tendência para defender o indefensável, lavradores latifundiários do culto de ser do contra. E eu ganho a vida essencialmente a escrever, e ele ganha a vida a rever as palavras escritas dos outros e a traduzir livros. Somos também muito bons a resolver granéis variados, burocracias várias, como heranças, impostos, a organizar condomínios e a escrever textos jurídicos para as nossas causas perdidas.

E temos muito jeito para fazer filhos. É o que sabemos fazer melhor.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Os Leiria-Ralha (!)


[Abril de 2013 - João, Diana, Aurora (inclusa), António e Carolina. Foto: www.ties.pt] 

Os Leiria-Ralha nascem de um acontecimento raro que se deu na blogosfera quando a blogosfera ainda não era negócio e o Facebook não passava de um sonho húmido de Zuckerberg.

Nascemos quando o blogger era o centro do mundo, era o que quiséssemos que ele fosse: fogueira de vaidades, alcoviteira e terreiro de engates movediços, churrasco de neuróticos, tertúlia de treinadores de todos os tipos de bancadas, ponto de encontro de gente gira, triste mas só.

Os Leiria-Ralha nascem de um jogo arriscado, uma aposta que se deve fazer com algum tento e cautela uma única vez na vida.

A parideira deste blogue pôs todas as fichas numa única casa da roleta. Apostou tudo o que tinha, com aquela força invisível e cega que destrói tudo por onde tem que passar para chegar sem atrasos ao sítio onde é suposto chegar (há quem lhe chame fé), que à visita 50.000 do seu blogue triste, sombrio e semi-clandestino, iguaria de uma elite seleccionada que o tentava guardar a todo o custo só para si, a sua vida de jornalista explorada, mãe solteira de uma criatura élfica loira de olhos azuis, a tropeçar de desaire em desaire, mudaria para sempre.

50.000 era o número com que desafiava o destino cheia de soberba messiânica, seria àquele número, perfeitamentente aleatório, que algo de extraordinário teria que acontecer: o carrossel deixaria de girar freneticamente com a música fora de tom, e a fasquia, lá no alto, seria derrubada como quem sopra um dente-de-leão em criança com medo de antever a calvice paterna.

Tudo o que se passou a seguir foi magia.

(Tem cuidado com aquilo que pedes; pode bem tornar-se realidade.)

Era a madrugada de dia 21 de Março. Se recorrerem ao Google verão que nessa madrugada um ido vereador dos Espaços Verdes mandou plantar 50.000 amores-perfeitos na Avenida, num prenúncio florido do que estava prestes a acontecer. Ele chegou à caixa dos comentários do blogue triste nesse dia, há oito calendários com gatinhos e Virgens Marias atrás. Ele chegou enquanto os jardineiros sachavam a terra dos canteiros da Avenida.

E escreveu apenas um ponto de exclamação.

Ele, revisor tipográfico, ela a ganhar a vida a escrever caracteres num jornal diário, foram unidos por um ponto de exclamação.

Esse ponto de exclamação, sinal de pontuação eminentemente literário, resume toda a nossa história: surpresa, arrebatamento, espanto (também houve raiva e dor, por vezes, claro está — os contos de fadas estão cheios de agruras trágicas)  por tudo o que fomos tecendo e construindo com menos palavras escritas pelo caminho (por vezes é preciso parar de escrever; é tempo, às vezes, de parar e viver).

Conhecemo-nos de carne e osso no Jardim da Estrela, sem regras ortográficas e gralhas a fazerem de pau-de-cabeleira, no dia 29 de Abril de 2006.

Ele trouxe um peluche do Noddy para a minha filha Carolina, então com dois anos, e eu soube, naquele instante, debaixo de uma roseira de Santa Teresinha em flor, que me acabara de sair a taluda.

Um ano depois casámos nesse mesmo jardim de Lisboa.

O António nasceu no final de 2008 e ficámos com um casalinho piroso loiro e sagitariano lá por casa, separado por cinco anos e pelos planetas Marte e Vénus. Cinco anos depoiss mais coisa menos coisa, a Aurora chegou-nos, serena e seráfica, a 1 de Maio de 2013, dia de greves e lutas, em plena intervenção da troika em Portugal.

Em vésperas de comemorarmos oito anos sobre o início desta aventura benzida com pós de perlimpimpim, em vésperas do primeiro aniversário da Aurora, os planos que a vida tem para nós decidiram abalroar aqueles que tínhamos feito para criar uma modesta família numerosa, de apenas três filhos: no final deste ano, chega-nos o nosso quarto filho, ao que tudo indica, pelas imagens a preto e branco desfocadas, uma menina, que vem com a força de uma revolução-surpresa. Passámos por todas as fases (todas elas valeriam novos pontos de exclamação): pânico, negação, terror... Depois, a seu tempo, instalou-se a alegria devida e com juros de mora.

Daqui a pouco mais de quatro meses,  faremos parte da pequena minoria de famílias com quatro ou mais filhos, num país sem crianças, devastado pela crise, desemprego, emigração.

Esta é a nossa história, aquela em que voltamos a apostar tudo.

Apertem os cintos: vai haver risos, choro, privação de sono e caos, muito caos.

Mas a viagem ainda mal começou. Não temos certezas de nada, só sabemos que vai valer a pena.