Quem faz um blog fá-lo por gosto

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Espalhem a notícia: há luz na casa do "Manga-Manga"!

Em 1948, o meu avô Oliveira regressa do Zaire, fortuna feita após décadas de trabalho árduo com vista para o maior rio e para o Porto de África, e constrói uma pequena casa na pequena aldeia onde nasceu, no Concelho de São Pedro do Sul. Com a enorme humildade com que levou toda a sua longa vida, manda embutir na fachada, junto à porta da entrada, este azulejo, como um mantra, uma lição para a vida e um recado para as gerações que se seguirão. Devemos-lhe tudo; ele é o nosso maior exemplo. Este post é sobre as férias d'A Família Numerosa na Casa do 'Manga-Manga', em São Félix, São Pedro do Sul.

Espalhem a notícia: há luz na casa do "Manga-Manga"!

Foi mais ou menos assim que o boato correu montes, espichou pelos fontanários, cirandou pelas águas frescas do Sul, do Vouga e do Paiva.

Vagueou bem cedo de madrugada pelos cafés, chegou a meio da manhã às tabernas, acompanhada por um bagaço e à boleia de uma nuvem de fumo negro do escape de uma Famel. Surgiu sem convite nas conversas banais, habitualmente acerca da meteorologia. Surpreendeu mais uns quantos à saída de um dia igual a tantos outros, de costas vergadas no lameiro, olhos postos no chão e na terra revolvida pela sachola tatuada nas palmas da mão.

Nas quintas, entre galinhas, vacas e pastos secos, cheios de cardos, cacarejou-se muito e ruminou-se mais um quanto sobre a segunda vida da casa do Senhor Oliveira do Entroncamento de São Félix. Muito preguiçosamente e ao sétimo dia, surgiu murmurada, depois de cumpridas muito religiosamente e com o sotaque colombiano do novo pároco, as Ave Marias e Padres-nossos redentores da missa do Domingo: há novamente luz na casa do “Manga Manga!”.
Ámen!

Compreende-se o entusiasmo com esta coisa da luz: a casa do “Manga-Manga”, no Entroncamento de São Félix, encruzilhada à beira da Estrada Nacional, onde os antigos ainda contam lendas sobre lobisomens e outras superstições, foi a primeira da aldeia a ter electricidade.

Em 1948, chegou àquele cruzamento um gigantesco caixote de madeira. Lá dentro estava um complexo gerador de electricidade, para o qual foi construído de propósito um anexo. Depois, fez-se luz. E mais caixotes de madeira chegaram: um frigorífico a petróleo, e um esquentador que prometia aquecer as águas e quem sabe os ânimos no gélido inverno de Lafões. E talvez seja por esta façanha pioneira que a casa do "Manga-Manga" consta do megalómano painel de azulejos que a pequena e rural freguesia de São Pedro do Sul tem à sua entrada. 

O mundo exangue, a sair da escuridão da Segunda Guerra Mundial e, quase ao mesmo tempo, o “Manga-Manga” regressava à pequenina terra que o viu nascer, no virar do século XIX para o XX, debaixo de muitos maus presságios, inúmeros agoiros e histórias tristes de miséria.

Ironicamente, o “Manga-Manga” conhecia bem de perto a natureza do mal que a Europa atravessava, devastada, numa segunda idade das trevas vivida em pleno século XX.

O “Manga-Manga” regressava agora à aldeia colada às Caldas de Lafões onde apareceu boiando uma imagem de São Pedro pelas águas do Sul, rebaptizando a terra, trazendo consigo o advento da electricidade, depois de muitas décadas de ausência. Ele chegava, triunfante e como uma atracção de circo, entre o espanto e o temor, depois de uma vida reescrita, década após década, com uma caligrafia muito bonita à beira da margem esquerda do rio Congo, e do maior e único Porto navegável de águas profundas da África Central.

Filho de um vil predador sexual que nunca ninguém ousou enfrentar, e de uma mulher muito simples e humilde que simplesmente desistiu de viver depois de lhe ter sido arrancada a pureza de forma animal num moinho, o “Manga-Manga” recusou ser vítima das circunstâncias e de uma qualquer maldição pela forma grotesca como foi gerado.

O meu avô tinha sonhos tão grandes como o rio Congo.

Se calhar eram até tão megalómanos como os do tirano rei Leopoldo da Bélgica que, de forma bárbara, se tornou dono e senhor de uma região com mais de dois milhões de quilómetros quadrados no coração da África, cometendo, impune, um dos maiores crimes contra a Humanidade da História: o genocídio de cinco milhões de congoleses, a escravidão e subjugação de um povo, o saque dos seus recursos, borracha e marfim, que tantos palácios luxuosos erigiram em Bruxelas, a ouro manchado de muito sangue.

Ao contrário do soberano da Bélgica, sanguinário sem precedentes a quem a História não fez e provavelmente nem fará o julgamento devido, amaldiçoando-o para todo o sempre, homem vil que nem sequer se dignou na sua vida de pura maldadea pôr um pé no "seu"  Congo, o “Manga-Manga” tinha um coração tão grande como os seus sonhos, tão doce como uma manga madura. “N’Tima Manga” lhe chamavam os nativos – o coração da Manga, em kikongo, o dialecto do país.

Não sei, não tive tempo de lhe perguntar que fascínio era aquele que tinha com as mangas, se era alguma referência à muito pequena cidade de Manga-Manga, na Província de Katanga, perdida lá no coração febril de África, de onde nem o Google a consegue resgatar.

No império que construiu - e que depois perdeu na independência do Congo Belga, na década de 60, tendo chegado há uns meses uma ridícula indemnização da República Democrática do Congo pela 'zairinização' do trabalho de uma vida inteira -, o meu avô plantava sempre um par de mangueiras. Nos anuários de negócios dos portugueses em África deixou-me para memória futura os seus anúncios: “Manga-Manga – Commerce Générale”. Nas arcas de madeiras exóticas africanas da casa da minha mãe estarão também estão guardadas as coloridas capulanas com o seu logótipo e aquelas duas árvores do seu fruto favorito.


“A Casa do Manga-Manga, no Entroncamento de São Félix voltou a ter luz!”

A notícia correu aos sete ventos e animou as gentes numa excitação apenas comparável ao nascimento de uma criança nas aldeias desertas. Até no Fujaco se falou disso, aldeia preservada de xisto, perdida no tempo, num outro tempo, meia dúzia de habitantes eremitados em casas frescas de pedra.

Não se falou de outra coisa durante uns tempos: a neta e os bisnetos do “Manga-Manga” voltaram à terra, ligaram as luzes, e com a ligação à rede vieram as recordações do gerador e da sua luz incandescente, da grafonola portátil, do frigorífico a petróleo, dos jardins de dálias e rosas, do mau-feitio da minha avó, do coração inesgotável do meu avô, do nascimento do meu tio Zé, e de como a cozinheira o ressuscitou, emergindo-o em água fria e água quente até àquele bebé de cinco quilos soltar à força o seu primeiro grito de vida.

Seguiram-se muitas visitas de cortesia de perfeitos desconhecidos, trazendo consigo cestos de fruta e outras coisas tão boas que a aquela terra dá a quem se lhe verga. Chegaram invariavelmente de faces rosadas, abelhudos, sem um pingo de vergonha: quiseram espreitar, saber se mantínhamos o frigorífico (pois claro que sim) e se o gerador ainda funcionava (temos ali o manual de instruções, havemos de experimentar um dia). Espantaram-se, decerto, com a simplicidade da nossa estada e do facto de não termos televisão e maples catitas.Apontámos sempre para o azulejo da fachada: “A casa quer-se pequenina para ser igual a um ninho. O amor na casa pequena anda sempre aconchegandinho.”

Sei, sem ingenuidades ou fervores românticos, que a vida da aldeia é feita de intriga baixa, de invejas comezinhas. E compreendo-o, digo-o sem qualquer rancor ou sobranceria: a vida da aldeia é de uma dureza sem precedentes e isso deixa cicatrizes no coração, não sou ninguém para o julgar.

Creio que demos muito material para aquecer o Inverno rigoroso, melhor do que o enredo da novela que há-de estrear para a semana.

Mas, acima de tudo, vi aquela gente, família e parentes que acabei de conhecer, genuinamente feliz de poder abrir uma vez mais o baú das suas memórias, reviver desventuras e tempos difíceis. Ouvi, grata, todos elogios rasgados ao homem que foi o meu avô, um herói da terra, o nosso herói.

Sei também que foi sentida a gratidão que exprimiram por aquela segunda vida dada à casa do “Manga-Manga”, suspensa no tempo, num luto prolongado, desde que ele foi a enterrar um pouco mais acima, no cemitério da terra. Com o nosso regresso, o meu avô Oliveira, o “Manga-Manga”, voltou a viver, apesar de estar sepultado há mais de duas décadas e meia. Esta é a história de um grande homem, um homem que foi importante na sua aldeia, um exemplo de superação, força de vontade, e uma inteligência apenas comparável à sua bondade.

Sim, realmente, fez-se luz, deu-se à luz qualquer coisa estas férias: o burburinho e o frenesi não foram desproporcionados.


[Sim, depois, todos, sem excepção, também quiseram sentenciar à morte os dois cedros monumentais que o “Manga-Manga” plantou à porta de casa. Faziam filinha e alinhavam argumentos para o abate das árvores que a mim me lembram as mangueiras que nunca vi se não em fotografias a preto e branco.]

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

What's in a name?

Junho de 2013 - Aurora recém-nascida e António com as suas caretas e dentes partidos (Foto: A Família Numerosa)


"What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet"
Romeu e Julieta (II, ii, 1-2) William Shakeare


Cada gravidez é uma gravidez, mas tirando a parte da supresa e do pânico iniciais, das náuseas e vómitos fora de controlo até às 16 semanas de gestação, e de pairar sempre uma sombra de um risco para a minha saúde mas, sobretudo, para a vida desta criança que tomou de empréstimo o meu corpo para dele fazer a sua primeira morada, não há como negá-lo: é a quarta vez que que passo por este turbilhão de brutais mudanças que andam num vai-vém e à velocidade da luz; são quatro vezes que passo nove meses guiados por luas e marés; são quarenta semanas (mais duas menos duas) vezes quatro.

Been there. Done that. (Este é um post bilingue)

Não é bonito de se admitir, mas não há novidades nas incontáveis sensações que podem encontrar-se descritas em qualquer exemplar dos milhões impressos d' O que se espera quando se está à espera (é a quarta vez que o leio com a avidez e a quarta vez que está à minha cabeceira, como uma Bíblia).
Trato por tu todos os desconfortos e inchaços variados com que vou tendo que lidar (o pior deles é o do nariz Savimbiano lá para o final do mês nove); conheço tim tim por tim tim diversas dores, como as lombares, azia, ciática, e as temidas contracções uterinas (que na primeira gravidez me tombaram numa cama às 24 semanas); reconheço ao mínimo sinal os super-poderes que me são atribuídos nos nove meses em que a Natureza me concede a dádiva de gerar uma vida - não tentem jamais um homem desesperado (continuo muito shakespeariana) e não se metam, muito menos, com uma mulher grávida, que é um ser assustadoramente sobrenatural -; e não me surpreendo com a intuição acutilante e certeira com que vou tomando decisões e gerindo o equilíbrio desta minha família (numerosa).

A (ben)vinda desta menina vem desequilibrar a dinâmica de género lá por casa. Até agora tínhamos filhos com géneros interpolados e geometricamente calendarizados de cinco em cinco anos: menina-menino-menina.Sabíamos que havia apenas duas hipóteses em cima da mesa, e com a mesmíssima probabilidade de poderem vir a acontecer: ou vinha o equilíbrio dos dois casalinhos de filhos pirosos, ou o mundo era mesmo das mulheres e a começar pela nossa casa.

Confirmado que não vou ter que mexer no post "E agora tu, filha', há uma carga logística mais leve pela frente - as roupinhas da Aurora estão há poucos meses lavadas, passadas e dobradas, com saquinhos de alfazema ainda fresca, em caixas de plástico bem fechadas, arrumadas na tulha do topo do roupeiro do quarto -, há a certeza também de que iremos gastar muito mais dinheiro nas próximas décadas, porque eu não vou resistir às piroseiras de vestidos, folhinhos, rendinhas, lacinhos e à tentação de vestir as mais novas de igual. Até aqui tudo bem, sem surpresas. O único problema que temos pela frente é a missão quase impossível e de gigantesca responsabilidade de escolher o nome da nossa terceira menina, do nosso quarto filho.

Não está fácil, não é mesmo nada fácil, e é uma enorme e rebuscada tarefa aquela que vamos ter pela frente, com cuidado para o cosmos se alinhar e nos revelar, em jeito de epifania, o nome próprio perfeito e a conjugação melódica com a carrada de apelidos que acoplamos sempre aos nossos filhos em memória dos seus avós.

Quando eu gosto o pai não gosta (Rosa é um nome tão bonito, porquê????); quando o pai gosta eu torço o nariz (por mais doce que seja Ângela há aquela malvada alemã fada madrasta de todos os portugueses). Quando a Carolina dá a sua opinião de primogénita eu imagino-me a viver na margem sul (Nicole não me convence de todo, lamento querida!). E quando o António, que recebeu a notícia da confirmação do sexo da irmã e ao mesmo tempo o jogo Spiderman III para a PSP com um sonoro e sentido 'Adoro Meninas!', me bate à porta do quarto, atirando o invulgar nome de Anaís ( sem eu - juro - o ter iniciado na literatura erótica), ponho-me a imaginar de sobrolho franzido a maldade dos colegas da escola e do liceu a chamarem-na de "Anais", ou mesmo da minha vizinha Anália, que o meu pai, gozão que era, passou a vida a chamar de Orália.

Na demanda shakespeariana do what's in a name descobri este blog delicioso: http://nomesportugueses.blogspot.pt/
E, de repente, tenho um post it rabiscado cheio de possibilidades e nenhuma certeza: Oriana, Anaís, Clarice, Paloma, Luzia, Lúcia, Amélia (que o pai não gosta mas eu insisto, desistindo do Rosa), Serena, Agnes, Lucinda, Melissa, Camila (e o pai a dizer que depois a chamam de 'Camela'), Ema, Cândida (e eu a tentar esquecer que é nome de fungo), Isabela, Violeta, Míriam, Carmo, Celeste, Dulce, Emília (e o Sítio do Picapau Amarelo), Glória, Hortense, Jacinta....

Que se marque o concílio para que seja revelado, com graça, delicadeza e suplèsse divina, o nome da querida Infanta.

(A Aurora tem o nome mais lindo - podem tirar-lhe o epíteto de filha mais nova, mas não lhe podem tirar isso)




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Quando eu for grande quero ser...

Setembro de 2013 - a Aurora, com quatro meses, olha de esguelha, a medo, para as palhaçadas do António


Depois de toureiro, disparado só para me pôr os nervos em franja, o António ontem disse querer ser homem do lixo. Não sei se era para testar, ou para me ver a entrar numa lenta combustão espontânea, tipo banho-maria, ou se a fase de imundice, pela qual todos os meninos passam, se estendeu, agora, a um fascínio pela carga toda pronta e metida em contentores, boleias à pendura no camião mal-cheiroso pela noite fora, como um cão que teima em ir com a cabeça de fora da janela, com as beiças e a língua ao sabor do vento. Às vezes quer também ser médico do INEM e acho que não está nem aí para o Hipócrates e seu nobre juramento: é mesmo pela velocidade, pela adrenalina, pelo barulho frenético das sirenes e os efeitos psicadélicos das luzes de emergência.

Ontem, ao jantar, falámos de profissões, do futuro.
Tudo começou com mais uma minha tentativa para que arrumassem aquilo que desarrumam. 
Faltam ainda duas semanas para entrar de férias, mas a escola dos mais novos já fechou há quase dez dias e a da mais velha há mês e meio que não há nada para ninguém até Setembro. 
O João recusou traduções e revisões para estar em compasso de espera e babysitter da catraiada até irmos todos em procissão dar banho à minhoca. Acho que vai chegar lá exangue e esfrangalhado - ainda bem que se seguem três semanas de dolce fare niente e ausência de Internet e televisão.

O poder destruidor daquele trio de filhos em férias é assustador. Por menos tempo que o pai os deixe em casa, conhecendo o seu poder ciclónico de desarrumação, é diariamente um tormento - o universo tende para o caos e tudo começa ali no nosso apartamento.

Ontem cheguei a casa ao final da tarde e não havia nada sobre nada: almofadas do sofá espalhadas pelo chão, num puzzle esquizofrénico, dezenas de embalagens dos malditos Danoninhos coleccionáveis e temáticos, como pinos de bowling tombados a todo o comprimento da casa. A Aurora tinha pratinhos e talheres de plástico de brincar como num piquenique fandango, a Carolina e a maldita moda dos elásticos tipo erva daninha por todo o lado, com os gatinhos animados a comerem-nos e arriscarem uma visita dias mais tarde à urgência veterinária.

Eu, sem saber o que fazer à vida ou para o jantar, tentei ter uma conversa séria com os mais velhos:
"Filhos, não tarda seremos seis. Mais três gatos e um cão. Filhos, já pensaram na Lola - a nossa fada-do-lar uzbeque -, todos os dias a arrumar as mesmas coisas, para além de pôr a roupa a lavar, a passar a ferro, a fazer as camas... Vocês têm que ajudar a mãe e a Lola. Opá, a mãe até vos paga, como paga à Lola, mas têm que começar a ajudar; não dá mais!".

Rapidamente a Carolina quis indagar das condições salariais e contratuais da Lola. 
E, mercenária-empreendedora como é (está sempre a sacar dinheiro ao irmão, vendendo-lhe bugigangas variadas; o embaixador morcão que o Relvas arranjou há uns tempos para dar o exemplo à juventude preguiçosa ficaria orgulhoso da minha mais velha), prontificou-se logo a arrumar tudo. 
Cinco minutos depois estava tudo um brinco, e a minha alma estava parva. Afinal, não estou a criar uns incapazes; apenas um par de miúdos mimados a quem nunca foi pedido nada. 
Obviamente que os subornei à la Pavlov com reforço positivo: trazia na mala há alguns dias um jogo em enésima mão para a Playstation, para um dia perfeito de um futuro também ele mais que perfeito em que toda a gente se portasse exemplarmente.

Depois voltámos às profissões. 
A Carolina espantou-se pelo quanto a Lola e a sua mãe, Nargeeza, trabalham todos os dias, em três casas diferentes, para poderem dar uma vida melhor àqueles que ficaram naquele país da ex-União Soviética, onde muçulmanos se cruzaram com mongóis dando origem a gente feições impressionantes, olhos claros e em bico, estaturas enormes, sorrisos amarelos com muitos dentes de ouro implantados na boca e, acima de tudo, uma ética de trabalho absolutamente irrepreensível.
E aquilo comoveu-me, tal como me comovem os recados que a minha filha mais velha deixa escritos à Lola, em cirílico, usando a ajuda do Google Translate - não faço ideia o que lhe escreve; é entre elas...


A Carolina revela então que quer ser caixa de supermercado só por uns dias, para experimentar aquela coisa boa, relaxante, de passar códigos de barra sem pensar em mais nada (até a compreendo; tenho o mesmo fascínio sempre que vou a uma fábrica, ou quando estou no talho ou na peixaria e me perco com a faca afiada a fazer filetes ou a destripar um cantaril). 

Diz-me também que, na Kidzania, caixa de supermercado é uma das profissões mais concorridas do recinto onde as crianças brincam aos crescidos e as marcas fazem lavagens de cérebro em estratégias de marketing brutalmente bem feitas. O Belmiro pode, portanto, ficar descansado: não há bebés e crianças que cheguem para renovar geraçãoes neste país, mas as que foram paridas têm desde já um fascínio pela registadora do supermercado, pelo cheiro das notas e do vil metal que apenas lhes passará pelas mãos por escassas fracçõess de segundos em horas e horas intermináveis de horários selvagens por turnos. 
Pelo sim pelo não temos que passar a ir às caixas self service para ver se isto lhe passa...

Sei bem que ela quer ser cantora. 
Outrora eu também quis ter o mesmo destino, mas foram-me cortadas as asas: "Podes sempre cantar no duche e nos tempos livres, mas tiras um curso". 
Costumo dizer que o meu pai, pintor boémio, irresponsável, arruinou todas as possibilidades de um seu filho ter uma carreira artística. O seu mau exemplo caiu-nos sempre em jeito de ameaça: "E queres ser como o teu pai?"

 (E a verdade é que, por mais atribulada e imperfeita que fosse a nossa relação, feita de arrufos e distâncias, eu sempre quis, eu apenas quis a sua aprovação e validação a vida inteira)

A minha querida cunhada mais nova, a Joana, diz, fascinada com os meus distintos e variados talentos: 'Podias ter sido qualquer coisa; é impressionante!'. E eu, no gozo, remato sempre: 'E, no entanto, perdi-me, e não fui nada!". 

Percebo bem o que ela quer dizer, que é elogio e não um lamento, como fazia o meu avô ao meu pai, pelas grandes expectativas goradas, pelo destino grandioso que não se cumpriu. Com tanto jeito, para tanta coisa, eu poderia ter tido a carreira que quisesse (menos para a Matemática, tudo menos matemática!). Mas não fui o que queria ser, aquilo que sempre me fez mais feliz, que me era tão fácil de executar que não poderia nunca ser um trabalho - até parecia mal!

Hoje em dia um curso superior nada vale: o centro de emprego está cheio de gente jovem a ver a vida por um canudo, muito lá ao fundo, num emprego que não é mais do que uma miragem numa travessia pelo deserto. Os call centers e as caixas de supermercado também estão cheios de malta licenciada.
Portanto, se a Carolina quiser ser cantora pode ser cantora à vontade, com o pleno e total apoio da família. 
Se quiser caixa de supermercado, ainda que por uns dias, também não há mal nenhum; não nos caem os parentes à lama.

Ò António, e que tal canalizador, filho? O que achas? Ou electricista?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quem faz um filho fá-lo porquê?


Ontem fomos capa da Notícias Magazine.
'Detonámos' o photomaton improvisado numa salinha de reuniões do edifício do DN.
Caretas e mais caretas (o António estava com um à-vontade quase sobrenatural, mudando de pose e expressão facial/ corporal a cada disparo), gargalhadas que fizeram doer a barriga (e até já havia piolhos nas cabeças dos putos e nós ali, todos juntinhos, de encontro a uma parede, mesmo a pedi-las) e, no final, o António já queria que a jornalista - instantanemeamente baptizada de 'tia' (tão betos estes meus filhos...) - fosse viver cá para casa, com os seus dois filhos, cedendo para o efeito o quarto dos seus pais (antevê-se um regabofe de amigos no nosso T3+1 daqui a uns anos, com esta facilidade social da peste loira).

Nesta família numerosa não há timidezes fotográficas, porque a vida é demasiado curta para aparecermos de trombas, ou com vergonha da papada do pescoço (a Carolina ficou descontente a páginas-tantas por não ter soltado o cabelo). Aqui estamos nós, para a posteridade, sem tirar nem pôr: rimos alto, roçamos diariamente o caos, a nossa vida é uma montanha-russa.

[É claro que a Aurora, manteve a compostura - nem outra coisa se esperava da minha (ainda) pequenina]

Caretas à parte, o assunto é muito sério.
Temos três filhos. O quarto vai a meio da sua viagem e encontro marcado para aquele que será o primeiro açoite da vida no traseiro.

Disse isto na entrevista, mas não passou, muitas outras histórias, menos cor-de-rosa, tiveram que ser contadas na reportagem: sentimo-nos ridículos por ser endeusados, por nos colocarem o epíteto de 'corajosos', por termos a módica quantidade de quatro filhos.
Parece-me sempre ridículo, despropositado, desproporcionado o espanto e o deslumbramento. Ao João, que tem cinco irmãos e sete tios, ainda mais.
Mas desde quando quatro é ter muitos filhos?
A partir do momento em que temos o dobro  de filhos da média nacional é, de facto, preocupante.
Questiono-me muito sobre o porquê deste deserto de crianças no país. Há, obviamente, situações limite e com a taxa de desemprego jovem nos píncaros onde se mantém será difícil inverter urgentemente a pirâmide demográfica - aquelas coisas que estudávamos no ciclo a Geografia e achávamos que não iam servir para nada explodem-nos assim, na cara, já adultos.
Mas olho ao meu redor, para os meus amigos e para os meus colegas, e a explicação é outra: há estabilidade, há emprego, e eu não tenho o direito de criticar seja quem for das suas escolhas ou opções, mas a explicação é outra no mundo por onde me passeio diariamente.

Abdicámos e abdicamos de muitas coisas para erguer esta família?
Claro que sim!
Só na mensalidade das creches dos pequenos era um city break pela Europa a dois. Imagino-nos românticos, de mãos dadas, ao pôr do sol, por Paris; aos saldos, em Londres, pela Oxford Street, a mandar moedas de cêntimo, e a pedir desejos idiotas, enquanto nos lambuzamos com gelados, na Fontana de Trevi, em Roma...

Mas mudávamos alguma coisa? Não!
A casa está sempre desarrumada, brinquedos que nascem de geração espontânea, tralha por todo o lado, os gatos arranham o sofá barato e o cão às vezes faz xixi à entrada da casa, estragando os bonitos tacos de pinho do hall. Não há gelados italianos, mas os da Olá são porreiros também. Não mudávamos mesmo nada. As viagens ficarão para quando esta malta estiver crescidinha, e aí vamos recuperar o tempo perdido (nem que seja de autocaravana em regime hippie)


Fazemos alguns malabarismos?
Sim!
A ginástica não é o meu forte (nem dos meus filhos, tadinhos, tão desengonçados), mas o pai sabe fazer girar três bolas ao ar e especializámo-nos noutras atracções circenses mais mundanas: jantamos menos vezes fora (e quando o fazemos é num tasco), não vamos de férias para hotéis, ou vivendas alugadas com piscinas, mas temos casas de família nas beiras e nos Açores. Não temos cartões de crédito, abdicámos do seguro de saúde (lálálá, e agora estou grávida e tenho uma cesariana para pagar se me quiser dar ao luxo de ter mais conforto e o meu médico à frente da marquesa), tudo lá em casa é em segunda mão (do carrinho de bebé à máquina do café; da carrinha de sete lugares ao vestido deslumbrante da bebé, comprado por 0,50 cêntimos nos saldos da Humana For People do Intendente), mas pinto o cabelo de três em três semanas no salão (70 por cento de mais de 60 centímetros de cabelo branco assim obrigam). E Aurora usa fraldas caras, da Dodot; há coisas em que, por enquanto, ainda não precisamos de abdicar.

Falta-nos alguma coisa?
Não!
Temos quatro filhos porque temos a sorte de ter bons empregos, com flexibilidade, e uma família que nos acode logo se algo falha, ou à mínima ameaça.

Temos muita sorte?
Sim!
Nascemos com o cú virado para a lua.

Fizemos estes filhos por gosto. Somos uns felizardos. Não é um acto de bravura; é todos os dias um acto de amor.

[Reportagem aqui: http://www.noticiasmagazine.pt/2014/quem-faz-um-filho-fa-lo-porque-2/]



terça-feira, 29 de julho de 2014

Retrato de família - Parabéns a você

22 de Julho de 2014 - Portinho da Arrábida - 36 anos de vida. A vida sorri (a Aurora é claro que não, fadinha carrancuda!)
Vi-me obrigada a gostar de fazer anos a partir do momento em que a minha filha mais velha deixou as fraldas e começou a achar juntar mais do que monossílabos. Foi-me imposta pela prole uma satisfação forçada pelo facto de estar a envelhecer. Faça-se a festa, sempre fui bem mandada: obrigo-me a abraçar o universo, a atender telefonemas, a responder a sms e a todas as coisas tão simpáticas que, uma vez por ano, (ao menos que seja uma vez ao ano) dizem e escrevem sobre mim.

Nem sempre foi assim, este sorriso amarelo no dia de anos, o maxilar dorido de tanto sorrir forçada.

Tenho recordações de aniversários faustosos e felizes: tardes à beira da piscina do meu avô Ralha, com cheiro intenso da praga de chagas que descia a encosta de uma casa que agora é mais ou menos assombrada, Barbies embrulhadas na inversa proporção ao número de amigos presentes - o karma de quem faz anos fora do ano lectivo durante as longas férias de Verão. 

Mais tarde vieram os jantares no Hua Sheng, chinês nas traseiras da Avenida de Roma que agora é um buffet duvidoso que aderiu à moda do sushi manhoso, mas que, durante dezenas de anos, foi a Meca sagrada da nossa família, local de peregrinação obrigatório a cada primavera comemorada. Foi ali que aprendi o que era uma 'família feliz' e me deliciei com o conceito mais do que com o prato concretamente, que não é grande coisa. Foi ali que bebi Casal Garcia pela primeira vez, onde dei provas de ter uma memória de paquiderme, ao decorar a grande maioria dos números dos pratos da ementa. Foi também ali, que o meu pacto vegetariano da adolescência era quebrado, no dia de aniversário, para comer carne de vaca com molho de ostras. Foi lá que, levei namorados e amigos, achando que já era mulher feita e que a vida era feita de jantares fora e gente gira com pauzinhos e chop suey.

Adiante.
Depois veio o tempo em que passei a ignorar os aniversários, numa negação que até me chegou a fazer mal à saúde: anginas, enxaquecas, dores menstruais - tudo desculpas para não soprar as velas, ou para soprá-las apenas à frente daqueles que gostam de mim com todas as taras e manias, com mais ou menos cabelo branco, com rugas de rir e de chorar.

Tudo isso mudou: agora o meu aniversário tem que ser uma megaprodução para as minhas crianças (e ai de mim que me esqueça do bolo de aniversário; não vale um queque ou um pastel de nata e de preferência tem que haver estrelinhas, não basta o soprar de velas!). 

Entrei por isso em pânico quando, logo pela manhã, os planos da mega festança infantil do meu 36º aniversário começaram a ir por água abaixo: o gato Pi, o patriarca lá de casa, com personalidade altiva e independente, apresentava toda uma linguagem corporal felina estranha. 

Quando consegui pegar-lhe e o pendurei pelas patas da frente franzi o sobrolho de preocupação - é façanha inédita conseguir pegar-lhe sem colocar em causa a integridade física. Segundos depois, com o gato pendurado pelas patas, numa pose sem pingo de dignidade, soprei-lhe a barriga e o nariz (como se faz estupidamente aos bebés quando se engasgam) e, ao invés de ficar totalmente esgatanhada, como os veterinários incautos que lhe tentavam salvar a vida quando o envenenei ao trocar o remédio das pulgas dos gatos pelo do cão, o bicho permaneceu estático e imóvel. E eu soube que o meu instinto estava correcto. Algo de muito errado se passava ali.

Enfia o animal na gaiola (geralmente temos que preparar ardilosas armadilhas, mas que não demorou mais do que uns segundos, tal era a prostração do felino) e vamos de charola, sem demoras para o veterinário mais próximo. 
A consulta foi rápida, duas injecções de antibióticos de largo espectro, análises excelentes, é só uma febre.

Gato em casa, sopas e descanso que a gente já volta, e voltamos ao plano inicial: dia de arromba pela frente, noblesse oblige.
Um dia de arromba não pode ser passado na praia de sempre. Baldes, bolas, bóias, chapéus de sol, toalhas, águas, fraldas, protectores de ecrã total, mudas de roupa, lanches e já estou cansada antes de meter a primeira e fazer-me à outra margem. Aleatoriamente decido que o destino é a Arrábida: há mais de uma década que não ia visitar a fábrica de betão da Secil e o Portinho. 

Não tenho direito a mau-feitio no meu dia de anos, por isso foi com sorriso na cara e covinha na bochecha que enfrentei o estacionamento selvagem, o corropio entre banhistas, as medições a regra e esquadro para encontrar um bocadinho para montar a 'barraca' milimetricamente ao lado de um grupo de professores que descomprimiam cheios de óleo de coco após terem feito o temivel exame do Crato.

A água está fria e os calhaus à beira mar matam-me (porque não fui para a Costa?), porque tenho pés de princesa (outro dia, um teste idiota do Facebook deu que seria a Princesa e a Ervilha num conto de fadas e a minha sensibilidade podológica às pedrinhas roladas faz-me concordar com o quizz que só fiz porque entrei em modo silly season).

Dormitei uns instantes, fiquei sem bateria no telefone (perdendo todas as chamadas de felicitações), rebolei na areia com as crianças quando a praia começou a ficar deserta, comprei gelados em barda na barraquita de praia, e senti pontapés com pézinhos de lã no meu ventre, tudo naquele cenário paradisíaco, tudo no meu dia de anos.

Ao fim da tarde a luz estava perfeita e caos assenta-nos sempre tão bem, é tão fotogénico... A Nikon Reflex foi programada para disparar sozinha, o enquadramento testado em cima de um tripé improvisado num saco da Ikea cheio de tralhas e quilos de areia que foram à boleia de Setúbal para Lisboa.

Todas as máquinas fotográficas deviam vir com um extra nestas fotos temporizadas, registando todos os momentos caóticos imediatamente antes da foto perfeita que vai parar ao álbum: o António saiu do enquadramento, a Carolina à frente da irmã mais nova, querendo para si toda a largura da foto, o João quase não chegava a tempo depois de carregar no botão. 

Houve berros, caras zangadas, o António teve que ser amarrado à força pelo braço do pai mas, no final, todos disseram queijo e ficaram irrepreensíveis para a posteridade.

E não é assim que a vida é sempre? No final tudo acaba bem. Este é o nosso álbum de memórias. Perfeito porque é absolutamente imperfeito e feito de coisas simples, quase banais.


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Divas, turbantes e piolhos


A consulta de obstetrícia das 20 semanas, marcada para o final do dia para não atrapalhar os sempre inevitavelmente complicados dias de trabalho, atrasou mais de duas horas.

A prole numerosa ficou amontoada num consultório lindo, com as paredes forradas com vinis de pormenores da flora autóctone dos Açores. Já seríamos demasiados num consultório normal, quanto mais ali, no Jardim das Amoreiras, numa casinha pequenina onde dá vontade de brincar com as bonecas.

Durante a longa espera, os putos devoraram quase todos os biscoitinhos graciosamente oferecidos aos pacientes, rabiscaram desenhos na mesita disponibilizada para o efeito, sem não antes resmungarem a sua insatifação pelos lápis que não estarem afiados e pela qualidade duvidosa das canetas de feltro,  cansaram-se rapidamente de ver o Panda Biggs, numa tentativa gorada da recepcionista de os entreter, às duas horas de espera partiram um vaso de plantas e queimaram o resto dos minutos a desarrumar todos os pafletos e revistas disponíveis.

Já muito depois da hora do jantar, lá entramos para a consulta. Entrei com o António, sabendo que era obviamente uma má ideia, mas numa compensação de menino da mamã que muito provavelmente vai ter que levar com mais uma mulher lá em casa.

Seguiram-se as rotinas habituais, que o entediaram de morte: mede a tensão arterial repetidamente como quem joga ao 'melhor de três' (o médico não acredita na minha teoria que sempre que o vejo a minha tensão aumenta inexplicavelmente), marcha lenta até à balança electrónica, torcendo sempre o nariz e semi-cerrando os olhos com o que ali vem (às 20 semanas ainda estou 400 gramas mais magra do que antes de engravidar, apesar de ter engordado este mês dois quilos), e ecografia para saber onde pára a placenta do meu bebé - um dos maiores riscos desta quarta cesariana, praticamente seguida à terceira.

A placenta continua no sítio errado, com a inserção muito baixa, a tapar totalmente o colo do útero. Não vale a pena, porém, sofrer por antecipação: até às 24 semanas não há placentas prévias, por isso, é seguir a vida como se nada fosse. Depois, a vergonha e o constrangimento que passo a cada ecografia, apesar de médico algum, daqueles que me segue nesta vigiadíssima gravidez, me dizer seja o que for. Mas eu sei perfeitamente que a camada de gordura que acumulo na barriga dificulta tudo e que o esforço para obter as imagens pretendidas do bebé é enorme, e obriga a enterrar o ecógrafo com uma força enorme por entre as banhas fofinhas.

Andámos ali uns dez minutos à procura da confirmação do género do benjamim d'A Família Numerosa.
Na sua impaciência, o António dizia ao médico para o 'deixar jogar' também - referindo-se ao ecógrafo, como se o comando de uma consola de videojogos se tratasse. Perna traçada, mãos à frente, um corropio naquele ventre de um lado para o outro e, no final, o vaticínio de sempre: 'é quase de certeza uma menina, mas..."

E o António danado, a resmungar, vendo a vida a andar para trás com mais um adiamento: 'Ainda não é hoje que vamos comprar um jogo novo para a Playstation, pois não?'. 'Não, filho. Fica para daqui a duas semanas. Mas olha que ainda pode ser um menino!', disse eu teatralmente, sem acreditar em nada do que estava a sair pela boca fora, e semeando uma esperança tola e vã na criança.

Saímos dali fora de horas e na pequenina sala de espera duas grávidas muito grávidas ainda em compasso de espera. A noite seria longa naquelas bandas. Mas há um coração de um bebé num CTG, que decorre numa sala contígua e que embala todos os presentes. E, por isso, ninguém refila. É isto que se chama o estado de graça.

Seguimos na carripana velha esganados de fome e levo-nos direitinhos, sem poder supor, para o sítio errado. No pacato centro comercial do Campo Pequeno vai decorrer uma sangrenta tourada. Manifestações, bichas para o estacionamento, aficcionados e defensores dos animais em lados opostos das barricadas. Sou invadida por um instantâneo enjoo em resposta ao horror sangrento que já deve estar prestes a começar na arena, e altero os planos numa fracção de segundo sob protesto do António que queria comer um hamburguer no 'Berbequim' (leia-se Burguer King'): vamos só comprar uma sopa ao supermercado e qualquer coisa que se aqueça rápido para o jantar.

Chego a casa nauseada e ainda me zango com o António por ele se armar em parvo e ousar partilhar que quer ir à tourada. 
'Correr com os touros', diz ele com voz meiga.
Pronto, ao menos não quer fazer mal ao bicho. Porém, o alívio dura pouco (já basta o que basta e o que me preocupa o quanto ele gosta de matar formigas): a possibilidade de o antever forcado, apesar de fazer algum sentido na sua propensão cósmica para o desaire e atracção para as actividades extremamente perigosas, faz-me tremer o olho esquerdo e eriça-me a pele.

Sai tudo do carro em filinha indiana e azar dos azares outra vez: elevador avariado. Lá vamos em combóio, alinhados, na escalada de sete andares. Sacos de compras e bebés inclusos e exclusos pelas escadas acima.
A cada andar uma alegria esquizofrénica de quem vive num prédio onde há um parente próximo a cada patamar: no segundo a avó Magui, no terceiro o tio-avô Zé, no quarto o tio Leonardo, no quinto o tio-avô Manuel, no sexto os 'tios' David e Inês, depois nós, e por cima ainda o primo Pedro e a Tia Milucha. Babysitters e gente para desenrascar um ovo ou uma chávena de açúcar não nos falta!

Aquece a sopa e o jantar, vamos a banhos rápidos e a um corropio de mochilas para o último dia de praia da colónia de férias, que arrancará bem cedo, daí a pouco mais do que uma dezena de horas. Suspiros e algum cansaço. Mas o espectáculo tem que continuar; é assim todos os dias.

Para emprestar algum glamour a um dia alucinado, e também para ganhar ânimo, decido enfiar literalmente a carapuça. Vou ao quarto e tiro da gaveta o presente de anos que a minha mãe me deu, oncretizando um antigo sonho de consumo de uma menina que sempre teve queda para diva: um turbante como os das actrizes dos filmes de Hollywood dos anos 50.

Já com o António dentro da banheira, abro a gaveta do lavatório, passo pelos lábios o baton escarlate que nunca tenho coragem de usar, e decido que vou brincar às donas-de-casa-grávidas-deslumbrante-digna-de-contracenarem-com-o-Don-Draper-no-Mad-Men. E é aí que disparo a selfie com olhar matador e sobrancelha despenteada mas levantada; vai para o Facebook. Agradeço à minha mãe o divónico presente.

A minha mãe o meu irmão Leonardo são os únicos que me dão presentes de anos e Natal. E eu agradeço que assim seja. A casa é pequena de mais para as tralhas já acumuladas e vivem dez seres vivos num t4, se contabilizarmos os inclusos e os irracionais, com dois pares de patas e bigodes simpáticos.

De repente, a meio do momento de fervor hedonista, o António diz, da banheira: 'Lava-me outra vez a cabeça, para me tirar as comichões'. E eu, nem precisava de estar de turbante na cabeça, como uma cigana vidente, para que a bola de cristal me transmitisse que algo de errado se passava naquele naco de prosa. 'Lava-me outra vez a cabeça?' 'Mau...Como é que é? Diz lá isso outra vez?'

Não sei como nunca tivemos a Comissão de Protecção de Menores à porta de casa com os gritos lancinantes que ele solta a cada lavagem de cabeça: 'NA CABEÇA NÃOOOO!!!!' Imagino sempre a vizinha octogenária petrificada, na sua casinha muito arrumadinha e com cheirinho a velha, a tentar visualizar mentalmente a súplica do pirralho para que não lhe batamos na cabeça... E com a mania da perseguição que trago atrelada, acho sempre que ela me lança uns olhares estranhos e de reprovação sempre que nos encontramos no patamar. A hora do banho é  um espectáculo pouco dignificante que já prometemos e ameaçámos que ainda vamos filmar para depois o humilhar em serões em família na presença da namorada.

A abundância capilar do nosso filho lembra um casaco ensebado - parece que nem a água do chuveiro lá penetra. É um trabalho árduo lavar-lhe a cabeça. Impossível de o pentear ou tentar contrariar os muitos remoinhos, a dispararem cabelos em todas as direcções, do cucuruto até à testa. Era essa a justificação que dávamos sempre que nos perguntavam o segredo do garoto. Semana após semana, avisos à porta da escola 'os nossos amigos estão de volta' (em 'amigos' leia-se 'piolhos'), e a pergunta: 'como se esquiva ele, dono daquela exuberância de cabelos grossos e dourados à piolhada?' 'Os piolhos têm medo. Esta cabeleira é uma selva!, respondia eu.

Dez anos e dois terços depois de ter sido mãe e nunca vi um piolho na vida. Confesso que me gabei do feito. Os meus meninos são de oiro, quais piolhos quais carapuças!

Enfiei os dedos pelo cabelo molhado do petiz, como se fosse um pente fino a desenhar um risco pelas melenas e, por entre o bonito tom de unhas da Risqueé 'pantalona de chita' (ó meu Deus, não pintava as unhas há um ano e vai-me acontecer isto!), comecei a ver bichos a sirandar.

Vertigem, tudo sépia, zumbidos, inspira, expira - esta vai para o livro do bebé: cinco anos, sete meses e quatro dias:  'holocausto de piolhos num corropio acima e abaixo pela cabeça do menino', escreverei quando tiver tempo. Internet e telefone comigo: 'Serão mesmo piolhos?; Os piolhos não são pretos, os dele são brancos!? São tão pequenitos, mais parecem pulgas... Não, não são piolhos... Achas que são???'

Neste momento, já toda a gente se coçava. Até quem apenas leu o post que coloquei em jeito de desabafo e pânico na rede social. (E até a este parágrafo, conseguiram não coçar a cabecinha? Sim? Então e agora? Não sentem um comicho impossível de resistir? E como está essa pulsação? Ligeiramente acelerada, aposto!)

Com vontade de desmaiar, mas agarrando-me à mãe gorila que há em mim, catei o miúdo de turbante na cabeça. O macaquinho, humilhado, ficou quietinho. Ou isso ou adorou o cafuné.
De repente, no meio de um impressionante talento inato para o extermínio deste parasita, a cabecita a rebobinar 'espera aí: o puto dormiu ontem na minha cama...'. O João ajuda à festa: 'ele ontem andou com o teu turbante na cabeça...'

Ainda com várias dezenas de bichos na cabeça, mas com todos os bichos carpinteiros intactos, o António adormeceu lá pela meia noite.
A custo, o João Pestana veio visitar-me também. Mas dormi de touca de natação enfiada. Acordei com o cabelo em desalinho e com a pele da testa repuxada (se calhar inventei um novo lifting).

Bem cedo de manhã já tinha um Master em Piolhos, tinha tido formação sobre pentes eléctricos de extermínio e de DDTs de toda a espécie para a bicharada.
A professora, pelas oito da manhã, antes de seguir para o último dia de praia, passa-me mais um precioso dado sobre a morfologia do parasita que entrou de rompante na minha vida, andava eu de turbante de diva dos anos 50 na cabeça: a sua capacidade camaleónica de mudar de cor (os loiros têm, de facto, piolhos clarinhos: que amor!).

Sinto-me num episódio do National Geographic.
Acabo de escrever esta linha e liga a minha mãe. Os 'amigos' também já estão a passear no cabelo fininho da mais nova.

Bom fim-de-semana!