Quem faz um blog fá-lo por gosto

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mudam-se os tempos... mudam-se as mochilas do primeiro dia de aulas...

[Fixem o meu nome, parece ela dizer ao mundo]

Mudam-se os tempos mudam-se as mochilas e aquilo que lá vai dentro para o primeiro dia de aulas.

Hoje foi a vez da mais velha se estrear no sexto ano (este ano há exames nacionais outra vez...). Regresso às aulas molhado (e espero que seja como nos casamentos e que, pelo menos, abençoe todas as crianças neste novo ano lectivo que agora começa) e as mochilas dos meus filhos este ano têm menos cheirinho a novo.

Revimos na fila de trânsito interminável que, inexplicavelmente, se forma a qualquer hora da manhã ao longo da Avenida de Roma (e um percurso de dois minutos passa a demorar 15 ou mais apenas porque sim, sem qualquer explicação racional ou lógica), o que NÃO vai e NÃO pode acontecer este ano lectivo.

A lista de "nãos" que fui enumerando com a força anímica das férias a ser sugada pelas bátegas de chuva que caíam no pára-brisas (entretanto, a nossa carrinha de sete lugares, a única na qual poderemos seguir todos daqui a um par de meses entrou em negação com as partidas de mau-gosto de São Pedro e o pára-brisas deixou de funcionar) inclui:

"Não me vais trazer recados na caderneta dos professoras ou da DT; não vais arranjar sarilhos picuinhas com as tuas amigas e dramas imbecis; não me vais perder casacos, guarda-chuvas e equipamento da ginástica por puro desleixo; não me vais extraviar o cartão da escola à razão de três vezes por semana; não te vais atrever a andar com folhas do dossiê rasgadas, dobradas e escritas com uma letra garrafal inexplicável; não me vais esconder o lanche que não comeste na escrivaninha..."


E preparava-me para continuar na minha lista de nãos quando me lembrei da psicologia positiva, e tentei inverter o discurso e mudar de faixa ao mesmo tempo para não chegarmos atrasados para o primeiro dia de aulas. Respirei fundo e declarei: "Vais fazer tudo como deve ser, tenho a certeza. Este ano vai correr muito bem; vais entrar com o pé direito!"

Deixo-a à porta da escola - já não fico ali a dizer adeus e de lágrima ao canto do olho (essa lamechice acabou o ano passado; correria o risco de a envergonhar perante os pares, para mais com aquela manada de irmãos mais novos, que aos 10/ 11 anos têm sempre o condão de ser irritantes por mais adoráveis que sejam).

Pela primeira vez não tive nada a ver com a roupa do primeiro dia de aulas da minha filha mais velha. Nunca teria escolhido a tee shirt pindérica da Violetta, as calças de ganga pingonas, os ténis da Nike. Ontem à noite pediu-me para lhe fazer caracóis e foi a minha única intervenção no seu primeiro dia de aulas do sexto ano de escolaridade. Dividi o couro cabeludo em madeixas, torci-as, e enrolei-as nuns papelotes improvisados com elásticos coloridos que lhe deram um colorido afro ao visual.Acho que anda com inveja dos caracóis da Aurora, tão gabados como a cor dos seus olhos. E, por isso, dormiu com a cabeça cheia de puxinhos a noite toda - já tem idade suficiente para saber que mulher bonita não tem frio, dores nos pés e passa por alguns desconfortos abnegadamente sem queixume - e hoje tinha o desejado penteado que seria o seu uau factor do primeiro dia de aulas. Deixou-me pôr-lhe uma fita no cabelo, concordou com a sugestão. Resumo-me à minha insignificância.

A semana passada também me deu dores de crescimento. Pediu, ainda que com jeitinho, para que parasse de lhe comprar roupa de criança, com folhinhos e rendinhas; que agora teria as bebés (a pequenina inclusa continua anónima) para acalmar os meus fervores de piroseira pura. Andámos depois à caça de uma saia de tule para usar com botas da tropa rosa shock (encontrámo-la a muito bom preço, ainda em saldos, na Vertbaudet) e o mais temido momento da compra do primeiro soutien está também ao virar da esquina, mas vai ficar para mais tarde, pois o meu pobre coração de mãe de quatro não aguenta isto tudo ao mesmo tempo.

Mas este ano as compras do regresso às aulas foram mesmo muito limitadas. Não gastei mais do que vinte euros nos dois filhos em escolaridade obrigatória. A Carolina nasceu em tempos de vacas gordas, foi filha única anos a fio, e é certamente quem mais está a estranhar esta nova realidade do estica, reutiliza, poupa, passa de irmão para irmão.

O meu querido António leva para o seu primeiro ano de doze de escolaridade uma mochila e estojos usados nos anos anteriores do pré-escolar; os lápis de cor eram da irmã; os de carvão também (o que não falta lá por casa são dezenas e dezenas de lápis e canetas), novo novo só mesmo o caderno diário (o dossiê e capa do colégio também eram da irmã, assim como o fato de treino e tee shirts da farda - eles ainda não lêem, por isso, ainda tenho uns meses para retirar o bordado 'Carolina Ralha' para 'António Ralha'), os lápis de cera e a borracha.

A Carolina continua a ter privilégios de primogénita mimada e a avó materna comprou-lhe mochila e estojo novos a fazer pendant. Há um dossiê, três canetas Bic básicas, dois lápis de carvão e uma borracha novos, mas lápis de cor, canetas de feltro, esquadros, réguas, compassos, transferidores é tudo reaproveitado do ano passado. Não aderimos ainda aos livros em segunda mão (para já) e, por mais apertado que esteja o orçamento, de uma coisa não abdicamos: fazemos as compras do regresso às aulas na papelaria do bairro; é lá que encomendamos os livros escolares com os mesmos dez por cento de desconto que as gigantescas cadeias revertem em talão ou em cartão. Gastamos mais um euro ou outro na meia dúzia de coisa que comprámos novas, mas temos ali uma amiga e garantimos dois postos de trabalho.

Mudam-se os tempos, mudam-se as mochilas... vamos lá ver que mais mudanças nos vão bater à porta...




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O primeiro dia de aulas do meu rapaz

Mochila às costas, nervoso miudinho à flor da pele: 'Estou com dor de barriga, mãe!".
Não há nada que não se resolva com uma boa careta!

Senti logo ao acordar que, apesar da sua leveza do ser, aquela que o faz pairar sobre a vida com despreocupação, sorriso e covinha na bochecha permanentes, o meu loiro amanhecera nervoso, e que o regresso ao rotineiro tique-taque matinal, aquele em que eu ando de um lado para o outro como uma louca, em contra-relógio, segundos contados para dar comida aos gatos, fazer pequenos-almoços, ajudar a vestir, lavar os dentes, ajeitar os calções, saias e camisolas, desembaraçar cabelos fininhos loiros, pôr ordem a cabelos grossos também de cor dourada e enfeitar cabeleiras encaracoladas morenas - basicamente as minhas manhãs resumem-se num chorrilho de ordens - o apanhara noutra disposição menos zen do que é costume. 

Havia uma electricidade no ar e não era do miserável tempo de trovoada. Hoje o dia tinha qualquer coisa de bomba-relógio, prestes a rebentar. E ele sabia-o bem; pode parecer um totó despreocupado sempre na sua, mas intuição não lhe falta. 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, pequenote. É o teu primeiro dia de aulas." Diz-se-lhe isto e a ansiedade manifesta-se logo de imediato. Aprendeu com a irmã mais velha a roer as unhas e só de olhar para aquele sabugo até dói.

Logo pela manhã resmungou no banho (será que a fase 'Cascão' algum dia vai passar?), é uma trip de berros e choro com a qual ninguém merece começar o dia e, depois, enquanto lhe penteava a trunfa volumosa molhada, reclamou, alto e bom som, e a pedir mimo: "Mas quando é que me começam a cair os dentes?" 

(Também pede um milagre para que a cabeça lhe encolha um pouco para poder, como todos os amigos, passar pelas grades das escadas do recreio. Pobre filho, cabeçudo!)

É dura esta coisa de entrar um ano mais cedo para a escola. Desgraçadas das crianças do final de Dezembro; tardasse mais dez dias quentinho no ventre e carimbavam-lhe o passaporte para mais um ano de brincadeiras e infantilidades variadas. 

A sua revolta estomatológica é justificada. Entre os colegas anda tudo desdentado e encantado com a fada dos dentes. E há já quem tenha uma boca pequenita plantada de dentes enormes, desproporcionados, quase disformes.
Não há realmente justiça numa emancipação forçada, mas que tarda em materializar-se em queda de dentes... Então ele, que os traz partidos há tantos anos, e nem um a abanar para amostra! PObre menino de sua mãe.

Ir para a primeira classe (eu sei que agora se chama primeiro ano, mas há algo retro na 'primeira' e eu gosto do culto vintage) tem que se lhe diga, mesmo que se permaneça na mesma instituição e com quase o mesmo grupo de amigos que acompanha esta jornada de vida desde os oito meses de idade.

Em primeiro lugar há uma fronteira invisível no recreio. Agora, ele está do lado dos crescidos, território inexplorado, longe das caras que o acompanharam este tempo todo da sua primeira infância. Há caras novas também, o charme discreto do loiro terrorista das pestanas douradas, cicatriz na têmpora e dentes partidos vai ter que ser accionado rapidamente e em força para conquistar a Bárbara, que o vai acompanhar nos tempos livres nos próximos quatro anos, e sobretudo junto da Professora Elsa, que será a professora mais importante de toda a sua vida (mas ainda não lhe contei esse segredo)

Ele sabe-me nervosa também e tem gozado o prato sempre que pode. Sabe que é o meu menino de ouro, o meu único rapaz, e que a sua emancipação me dá dores de crescimento. Gozão como só ele consegue ser, junta as mãozinhas como se estivesse a rezar ao Santo António, faz os seus 'olhos de Bambi' doce - aqueles que quando me zango à séria e lhe dou uma palmada no rabo ele jura que nunca mais me fará - e imita o "Gumball", dos desenhos animados do Cartoon Network, suspirando: "Ahhhh, crescem tão depressaaaaa...."

Começou o pagode, agora não há nada a fazer, ele está a crescer e eu não posso tê-lo ao colo para sempre (até porque a barriga já vai para o sétimo mês de gravidez). 

Na semana passada, a de habituação ao lado do recreio dos crescidos, semana inteiramente dedicada a brincar, passou a ser caloiro franganote e foi, basicamente, 'praxado'.

Numa manobra básica para conquistar popularidade, ou numa tentativa de mera sobrevivência, levou a sua gigante colecção de Tazos e Invizimals,para o recreio. Ambas ficaram reduzidas a meia dúzia de cartas fatelas, rasgadas e dobradas, e Tazos riscados. "Eles precisavam das cartas para acabar a colecção", disse-me, crédulo, ou sabendo-a toda, mas fingindo que não, que não tinha sido afiambrado pelos crescidos, recebendo como troca umas migalhas de simpatia.

Sim, crescem mesmo depressa, e a partir daqui nada será como antes. 
E se, por um lado, tenho o coração encolhido, por outro, anseio pelas primeiras composições, pelas taralhoquices variadas que virão escritas - decerto - com uma caligrafia horrível de rapaz.

E ainda há uma semana era férias. 
A chuva e o regresso às aulas, ao trabalho e às rotinas enterraram esse assunto definitivamente. Suspiro.



quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Espalhem a notícia: há luz na casa do "Manga-Manga"!

Em 1948, o meu avô Oliveira regressa do Zaire, fortuna feita após décadas de trabalho árduo com vista para o maior rio e para o Porto de África, e constrói uma pequena casa na pequena aldeia onde nasceu, no Concelho de São Pedro do Sul. Com a enorme humildade com que levou toda a sua longa vida, manda embutir na fachada, junto à porta da entrada, este azulejo, como um mantra, uma lição para a vida e um recado para as gerações que se seguirão. Devemos-lhe tudo; ele é o nosso maior exemplo. Este post é sobre as férias d'A Família Numerosa na Casa do 'Manga-Manga', em São Félix, São Pedro do Sul.

Espalhem a notícia: há luz na casa do "Manga-Manga"!

Foi mais ou menos assim que o boato correu montes, espichou pelos fontanários, cirandou pelas águas frescas do Sul, do Vouga e do Paiva.

Vagueou bem cedo de madrugada pelos cafés, chegou a meio da manhã às tabernas, acompanhada por um bagaço e à boleia de uma nuvem de fumo negro do escape de uma Famel. Surgiu sem convite nas conversas banais, habitualmente acerca da meteorologia. Surpreendeu mais uns quantos à saída de um dia igual a tantos outros, de costas vergadas no lameiro, olhos postos no chão e na terra revolvida pela sachola tatuada nas palmas da mão.

Nas quintas, entre galinhas, vacas e pastos secos, cheios de cardos, cacarejou-se muito e ruminou-se mais um quanto sobre a segunda vida da casa do Senhor Oliveira do Entroncamento de São Félix. Muito preguiçosamente e ao sétimo dia, surgiu murmurada, depois de cumpridas muito religiosamente e com o sotaque colombiano do novo pároco, as Ave Marias e Padres-nossos redentores da missa do Domingo: há novamente luz na casa do “Manga Manga!”.
Ámen!

Compreende-se o entusiasmo com esta coisa da luz: a casa do “Manga-Manga”, no Entroncamento de São Félix, encruzilhada à beira da Estrada Nacional, onde os antigos ainda contam lendas sobre lobisomens e outras superstições, foi a primeira da aldeia a ter electricidade.

Em 1948, chegou àquele cruzamento um gigantesco caixote de madeira. Lá dentro estava um complexo gerador de electricidade, para o qual foi construído de propósito um anexo. Depois, fez-se luz. E mais caixotes de madeira chegaram: um frigorífico a petróleo, e um esquentador que prometia aquecer as águas e quem sabe os ânimos no gélido inverno de Lafões. E talvez seja por esta façanha pioneira que a casa do "Manga-Manga" consta do megalómano painel de azulejos que a pequena e rural freguesia de São Pedro do Sul tem à sua entrada. 

O mundo exangue, a sair da escuridão da Segunda Guerra Mundial e, quase ao mesmo tempo, o “Manga-Manga” regressava à pequenina terra que o viu nascer, no virar do século XIX para o XX, debaixo de muitos maus presságios, inúmeros agoiros e histórias tristes de miséria.

Ironicamente, o “Manga-Manga” conhecia bem de perto a natureza do mal que a Europa atravessava, devastada, numa segunda idade das trevas vivida em pleno século XX.

O “Manga-Manga” regressava agora à aldeia colada às Caldas de Lafões onde apareceu boiando uma imagem de São Pedro pelas águas do Sul, rebaptizando a terra, trazendo consigo o advento da electricidade, depois de muitas décadas de ausência. Ele chegava, triunfante e como uma atracção de circo, entre o espanto e o temor, depois de uma vida reescrita, década após década, com uma caligrafia muito bonita à beira da margem esquerda do rio Congo, e do maior e único Porto navegável de águas profundas da África Central.

Filho de um vil predador sexual que nunca ninguém ousou enfrentar, e de uma mulher muito simples e humilde que simplesmente desistiu de viver depois de lhe ter sido arrancada a pureza de forma animal num moinho, o “Manga-Manga” recusou ser vítima das circunstâncias e de uma qualquer maldição pela forma grotesca como foi gerado.

O meu avô tinha sonhos tão grandes como o rio Congo.

Se calhar eram até tão megalómanos como os do tirano rei Leopoldo da Bélgica que, de forma bárbara, se tornou dono e senhor de uma região com mais de dois milhões de quilómetros quadrados no coração da África, cometendo, impune, um dos maiores crimes contra a Humanidade da História: o genocídio de cinco milhões de congoleses, a escravidão e subjugação de um povo, o saque dos seus recursos, borracha e marfim, que tantos palácios luxuosos erigiram em Bruxelas, a ouro manchado de muito sangue.

Ao contrário do soberano da Bélgica, sanguinário sem precedentes a quem a História não fez e provavelmente nem fará o julgamento devido, amaldiçoando-o para todo o sempre, homem vil que nem sequer se dignou na sua vida de pura maldadea pôr um pé no "seu"  Congo, o “Manga-Manga” tinha um coração tão grande como os seus sonhos, tão doce como uma manga madura. “N’Tima Manga” lhe chamavam os nativos – o coração da Manga, em kikongo, o dialecto do país.

Não sei, não tive tempo de lhe perguntar que fascínio era aquele que tinha com as mangas, se era alguma referência à muito pequena cidade de Manga-Manga, na Província de Katanga, perdida lá no coração febril de África, de onde nem o Google a consegue resgatar.

No império que construiu - e que depois perdeu na independência do Congo Belga, na década de 60, tendo chegado há uns meses uma ridícula indemnização da República Democrática do Congo pela 'zairinização' do trabalho de uma vida inteira -, o meu avô plantava sempre um par de mangueiras. Nos anuários de negócios dos portugueses em África deixou-me para memória futura os seus anúncios: “Manga-Manga – Commerce Générale”. Nas arcas de madeiras exóticas africanas da casa da minha mãe estarão também estão guardadas as coloridas capulanas com o seu logótipo e aquelas duas árvores do seu fruto favorito.


“A Casa do Manga-Manga, no Entroncamento de São Félix voltou a ter luz!”

A notícia correu aos sete ventos e animou as gentes numa excitação apenas comparável ao nascimento de uma criança nas aldeias desertas. Até no Fujaco se falou disso, aldeia preservada de xisto, perdida no tempo, num outro tempo, meia dúzia de habitantes eremitados em casas frescas de pedra.

Não se falou de outra coisa durante uns tempos: a neta e os bisnetos do “Manga-Manga” voltaram à terra, ligaram as luzes, e com a ligação à rede vieram as recordações do gerador e da sua luz incandescente, da grafonola portátil, do frigorífico a petróleo, dos jardins de dálias e rosas, do mau-feitio da minha avó, do coração inesgotável do meu avô, do nascimento do meu tio Zé, e de como a cozinheira o ressuscitou, emergindo-o em água fria e água quente até àquele bebé de cinco quilos soltar à força o seu primeiro grito de vida.

Seguiram-se muitas visitas de cortesia de perfeitos desconhecidos, trazendo consigo cestos de fruta e outras coisas tão boas que a aquela terra dá a quem se lhe verga. Chegaram invariavelmente de faces rosadas, abelhudos, sem um pingo de vergonha: quiseram espreitar, saber se mantínhamos o frigorífico (pois claro que sim) e se o gerador ainda funcionava (temos ali o manual de instruções, havemos de experimentar um dia). Espantaram-se, decerto, com a simplicidade da nossa estada e do facto de não termos televisão e maples catitas.Apontámos sempre para o azulejo da fachada: “A casa quer-se pequenina para ser igual a um ninho. O amor na casa pequena anda sempre aconchegandinho.”

Sei, sem ingenuidades ou fervores românticos, que a vida da aldeia é feita de intriga baixa, de invejas comezinhas. E compreendo-o, digo-o sem qualquer rancor ou sobranceria: a vida da aldeia é de uma dureza sem precedentes e isso deixa cicatrizes no coração, não sou ninguém para o julgar.

Creio que demos muito material para aquecer o Inverno rigoroso, melhor do que o enredo da novela que há-de estrear para a semana.

Mas, acima de tudo, vi aquela gente, família e parentes que acabei de conhecer, genuinamente feliz de poder abrir uma vez mais o baú das suas memórias, reviver desventuras e tempos difíceis. Ouvi, grata, todos elogios rasgados ao homem que foi o meu avô, um herói da terra, o nosso herói.

Sei também que foi sentida a gratidão que exprimiram por aquela segunda vida dada à casa do “Manga-Manga”, suspensa no tempo, num luto prolongado, desde que ele foi a enterrar um pouco mais acima, no cemitério da terra. Com o nosso regresso, o meu avô Oliveira, o “Manga-Manga”, voltou a viver, apesar de estar sepultado há mais de duas décadas e meia. Esta é a história de um grande homem, um homem que foi importante na sua aldeia, um exemplo de superação, força de vontade, e uma inteligência apenas comparável à sua bondade.

Sim, realmente, fez-se luz, deu-se à luz qualquer coisa estas férias: o burburinho e o frenesi não foram desproporcionados.


[Sim, depois, todos, sem excepção, também quiseram sentenciar à morte os dois cedros monumentais que o “Manga-Manga” plantou à porta de casa. Faziam filinha e alinhavam argumentos para o abate das árvores que a mim me lembram as mangueiras que nunca vi se não em fotografias a preto e branco.]

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

What's in a name?

Junho de 2013 - Aurora recém-nascida e António com as suas caretas e dentes partidos (Foto: A Família Numerosa)


"What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet"
Romeu e Julieta (II, ii, 1-2) William Shakeare


Cada gravidez é uma gravidez, mas tirando a parte da supresa e do pânico iniciais, das náuseas e vómitos fora de controlo até às 16 semanas de gestação, e de pairar sempre uma sombra de um risco para a minha saúde mas, sobretudo, para a vida desta criança que tomou de empréstimo o meu corpo para dele fazer a sua primeira morada, não há como negá-lo: é a quarta vez que que passo por este turbilhão de brutais mudanças que andam num vai-vém e à velocidade da luz; são quatro vezes que passo nove meses guiados por luas e marés; são quarenta semanas (mais duas menos duas) vezes quatro.

Been there. Done that. (Este é um post bilingue)

Não é bonito de se admitir, mas não há novidades nas incontáveis sensações que podem encontrar-se descritas em qualquer exemplar dos milhões impressos d' O que se espera quando se está à espera (é a quarta vez que o leio com a avidez e a quarta vez que está à minha cabeceira, como uma Bíblia).
Trato por tu todos os desconfortos e inchaços variados com que vou tendo que lidar (o pior deles é o do nariz Savimbiano lá para o final do mês nove); conheço tim tim por tim tim diversas dores, como as lombares, azia, ciática, e as temidas contracções uterinas (que na primeira gravidez me tombaram numa cama às 24 semanas); reconheço ao mínimo sinal os super-poderes que me são atribuídos nos nove meses em que a Natureza me concede a dádiva de gerar uma vida - não tentem jamais um homem desesperado (continuo muito shakespeariana) e não se metam, muito menos, com uma mulher grávida, que é um ser assustadoramente sobrenatural -; e não me surpreendo com a intuição acutilante e certeira com que vou tomando decisões e gerindo o equilíbrio desta minha família (numerosa).

A (ben)vinda desta menina vem desequilibrar a dinâmica de género lá por casa. Até agora tínhamos filhos com géneros interpolados e geometricamente calendarizados de cinco em cinco anos: menina-menino-menina.Sabíamos que havia apenas duas hipóteses em cima da mesa, e com a mesmíssima probabilidade de poderem vir a acontecer: ou vinha o equilíbrio dos dois casalinhos de filhos pirosos, ou o mundo era mesmo das mulheres e a começar pela nossa casa.

Confirmado que não vou ter que mexer no post "E agora tu, filha', há uma carga logística mais leve pela frente - as roupinhas da Aurora estão há poucos meses lavadas, passadas e dobradas, com saquinhos de alfazema ainda fresca, em caixas de plástico bem fechadas, arrumadas na tulha do topo do roupeiro do quarto -, há a certeza também de que iremos gastar muito mais dinheiro nas próximas décadas, porque eu não vou resistir às piroseiras de vestidos, folhinhos, rendinhas, lacinhos e à tentação de vestir as mais novas de igual. Até aqui tudo bem, sem surpresas. O único problema que temos pela frente é a missão quase impossível e de gigantesca responsabilidade de escolher o nome da nossa terceira menina, do nosso quarto filho.

Não está fácil, não é mesmo nada fácil, e é uma enorme e rebuscada tarefa aquela que vamos ter pela frente, com cuidado para o cosmos se alinhar e nos revelar, em jeito de epifania, o nome próprio perfeito e a conjugação melódica com a carrada de apelidos que acoplamos sempre aos nossos filhos em memória dos seus avós.

Quando eu gosto o pai não gosta (Rosa é um nome tão bonito, porquê????); quando o pai gosta eu torço o nariz (por mais doce que seja Ângela há aquela malvada alemã fada madrasta de todos os portugueses). Quando a Carolina dá a sua opinião de primogénita eu imagino-me a viver na margem sul (Nicole não me convence de todo, lamento querida!). E quando o António, que recebeu a notícia da confirmação do sexo da irmã e ao mesmo tempo o jogo Spiderman III para a PSP com um sonoro e sentido 'Adoro Meninas!', me bate à porta do quarto, atirando o invulgar nome de Anaís ( sem eu - juro - o ter iniciado na literatura erótica), ponho-me a imaginar de sobrolho franzido a maldade dos colegas da escola e do liceu a chamarem-na de "Anais", ou mesmo da minha vizinha Anália, que o meu pai, gozão que era, passou a vida a chamar de Orália.

Na demanda shakespeariana do what's in a name descobri este blog delicioso: http://nomesportugueses.blogspot.pt/
E, de repente, tenho um post it rabiscado cheio de possibilidades e nenhuma certeza: Oriana, Anaís, Clarice, Paloma, Luzia, Lúcia, Amélia (que o pai não gosta mas eu insisto, desistindo do Rosa), Serena, Agnes, Lucinda, Melissa, Camila (e o pai a dizer que depois a chamam de 'Camela'), Ema, Cândida (e eu a tentar esquecer que é nome de fungo), Isabela, Violeta, Míriam, Carmo, Celeste, Dulce, Emília (e o Sítio do Picapau Amarelo), Glória, Hortense, Jacinta....

Que se marque o concílio para que seja revelado, com graça, delicadeza e suplèsse divina, o nome da querida Infanta.

(A Aurora tem o nome mais lindo - podem tirar-lhe o epíteto de filha mais nova, mas não lhe podem tirar isso)




quarta-feira, 6 de agosto de 2014

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Quando eu for grande quero ser...

Setembro de 2013 - a Aurora, com quatro meses, olha de esguelha, a medo, para as palhaçadas do António


Depois de toureiro, disparado só para me pôr os nervos em franja, o António ontem disse querer ser homem do lixo. Não sei se era para testar, ou para me ver a entrar numa lenta combustão espontânea, tipo banho-maria, ou se a fase de imundice, pela qual todos os meninos passam, se estendeu, agora, a um fascínio pela carga toda pronta e metida em contentores, boleias à pendura no camião mal-cheiroso pela noite fora, como um cão que teima em ir com a cabeça de fora da janela, com as beiças e a língua ao sabor do vento. Às vezes quer também ser médico do INEM e acho que não está nem aí para o Hipócrates e seu nobre juramento: é mesmo pela velocidade, pela adrenalina, pelo barulho frenético das sirenes e os efeitos psicadélicos das luzes de emergência.

Ontem, ao jantar, falámos de profissões, do futuro.
Tudo começou com mais uma minha tentativa para que arrumassem aquilo que desarrumam. 
Faltam ainda duas semanas para entrar de férias, mas a escola dos mais novos já fechou há quase dez dias e a da mais velha há mês e meio que não há nada para ninguém até Setembro. 
O João recusou traduções e revisões para estar em compasso de espera e babysitter da catraiada até irmos todos em procissão dar banho à minhoca. Acho que vai chegar lá exangue e esfrangalhado - ainda bem que se seguem três semanas de dolce fare niente e ausência de Internet e televisão.

O poder destruidor daquele trio de filhos em férias é assustador. Por menos tempo que o pai os deixe em casa, conhecendo o seu poder ciclónico de desarrumação, é diariamente um tormento - o universo tende para o caos e tudo começa ali no nosso apartamento.

Ontem cheguei a casa ao final da tarde e não havia nada sobre nada: almofadas do sofá espalhadas pelo chão, num puzzle esquizofrénico, dezenas de embalagens dos malditos Danoninhos coleccionáveis e temáticos, como pinos de bowling tombados a todo o comprimento da casa. A Aurora tinha pratinhos e talheres de plástico de brincar como num piquenique fandango, a Carolina e a maldita moda dos elásticos tipo erva daninha por todo o lado, com os gatinhos animados a comerem-nos e arriscarem uma visita dias mais tarde à urgência veterinária.

Eu, sem saber o que fazer à vida ou para o jantar, tentei ter uma conversa séria com os mais velhos:
"Filhos, não tarda seremos seis. Mais três gatos e um cão. Filhos, já pensaram na Lola - a nossa fada-do-lar uzbeque -, todos os dias a arrumar as mesmas coisas, para além de pôr a roupa a lavar, a passar a ferro, a fazer as camas... Vocês têm que ajudar a mãe e a Lola. Opá, a mãe até vos paga, como paga à Lola, mas têm que começar a ajudar; não dá mais!".

Rapidamente a Carolina quis indagar das condições salariais e contratuais da Lola. 
E, mercenária-empreendedora como é (está sempre a sacar dinheiro ao irmão, vendendo-lhe bugigangas variadas; o embaixador morcão que o Relvas arranjou há uns tempos para dar o exemplo à juventude preguiçosa ficaria orgulhoso da minha mais velha), prontificou-se logo a arrumar tudo. 
Cinco minutos depois estava tudo um brinco, e a minha alma estava parva. Afinal, não estou a criar uns incapazes; apenas um par de miúdos mimados a quem nunca foi pedido nada. 
Obviamente que os subornei à la Pavlov com reforço positivo: trazia na mala há alguns dias um jogo em enésima mão para a Playstation, para um dia perfeito de um futuro também ele mais que perfeito em que toda a gente se portasse exemplarmente.

Depois voltámos às profissões. 
A Carolina espantou-se pelo quanto a Lola e a sua mãe, Nargeeza, trabalham todos os dias, em três casas diferentes, para poderem dar uma vida melhor àqueles que ficaram naquele país da ex-União Soviética, onde muçulmanos se cruzaram com mongóis dando origem a gente feições impressionantes, olhos claros e em bico, estaturas enormes, sorrisos amarelos com muitos dentes de ouro implantados na boca e, acima de tudo, uma ética de trabalho absolutamente irrepreensível.
E aquilo comoveu-me, tal como me comovem os recados que a minha filha mais velha deixa escritos à Lola, em cirílico, usando a ajuda do Google Translate - não faço ideia o que lhe escreve; é entre elas...


A Carolina revela então que quer ser caixa de supermercado só por uns dias, para experimentar aquela coisa boa, relaxante, de passar códigos de barra sem pensar em mais nada (até a compreendo; tenho o mesmo fascínio sempre que vou a uma fábrica, ou quando estou no talho ou na peixaria e me perco com a faca afiada a fazer filetes ou a destripar um cantaril). 

Diz-me também que, na Kidzania, caixa de supermercado é uma das profissões mais concorridas do recinto onde as crianças brincam aos crescidos e as marcas fazem lavagens de cérebro em estratégias de marketing brutalmente bem feitas. O Belmiro pode, portanto, ficar descansado: não há bebés e crianças que cheguem para renovar geraçãoes neste país, mas as que foram paridas têm desde já um fascínio pela registadora do supermercado, pelo cheiro das notas e do vil metal que apenas lhes passará pelas mãos por escassas fracçõess de segundos em horas e horas intermináveis de horários selvagens por turnos. 
Pelo sim pelo não temos que passar a ir às caixas self service para ver se isto lhe passa...

Sei bem que ela quer ser cantora. 
Outrora eu também quis ter o mesmo destino, mas foram-me cortadas as asas: "Podes sempre cantar no duche e nos tempos livres, mas tiras um curso". 
Costumo dizer que o meu pai, pintor boémio, irresponsável, arruinou todas as possibilidades de um seu filho ter uma carreira artística. O seu mau exemplo caiu-nos sempre em jeito de ameaça: "E queres ser como o teu pai?"

 (E a verdade é que, por mais atribulada e imperfeita que fosse a nossa relação, feita de arrufos e distâncias, eu sempre quis, eu apenas quis a sua aprovação e validação a vida inteira)

A minha querida cunhada mais nova, a Joana, diz, fascinada com os meus distintos e variados talentos: 'Podias ter sido qualquer coisa; é impressionante!'. E eu, no gozo, remato sempre: 'E, no entanto, perdi-me, e não fui nada!". 

Percebo bem o que ela quer dizer, que é elogio e não um lamento, como fazia o meu avô ao meu pai, pelas grandes expectativas goradas, pelo destino grandioso que não se cumpriu. Com tanto jeito, para tanta coisa, eu poderia ter tido a carreira que quisesse (menos para a Matemática, tudo menos matemática!). Mas não fui o que queria ser, aquilo que sempre me fez mais feliz, que me era tão fácil de executar que não poderia nunca ser um trabalho - até parecia mal!

Hoje em dia um curso superior nada vale: o centro de emprego está cheio de gente jovem a ver a vida por um canudo, muito lá ao fundo, num emprego que não é mais do que uma miragem numa travessia pelo deserto. Os call centers e as caixas de supermercado também estão cheios de malta licenciada.
Portanto, se a Carolina quiser ser cantora pode ser cantora à vontade, com o pleno e total apoio da família. 
Se quiser caixa de supermercado, ainda que por uns dias, também não há mal nenhum; não nos caem os parentes à lama.

Ò António, e que tal canalizador, filho? O que achas? Ou electricista?

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Quem faz um filho fá-lo porquê?


Ontem fomos capa da Notícias Magazine.
'Detonámos' o photomaton improvisado numa salinha de reuniões do edifício do DN.
Caretas e mais caretas (o António estava com um à-vontade quase sobrenatural, mudando de pose e expressão facial/ corporal a cada disparo), gargalhadas que fizeram doer a barriga (e até já havia piolhos nas cabeças dos putos e nós ali, todos juntinhos, de encontro a uma parede, mesmo a pedi-las) e, no final, o António já queria que a jornalista - instantanemeamente baptizada de 'tia' (tão betos estes meus filhos...) - fosse viver cá para casa, com os seus dois filhos, cedendo para o efeito o quarto dos seus pais (antevê-se um regabofe de amigos no nosso T3+1 daqui a uns anos, com esta facilidade social da peste loira).

Nesta família numerosa não há timidezes fotográficas, porque a vida é demasiado curta para aparecermos de trombas, ou com vergonha da papada do pescoço (a Carolina ficou descontente a páginas-tantas por não ter soltado o cabelo). Aqui estamos nós, para a posteridade, sem tirar nem pôr: rimos alto, roçamos diariamente o caos, a nossa vida é uma montanha-russa.

[É claro que a Aurora, manteve a compostura - nem outra coisa se esperava da minha (ainda) pequenina]

Caretas à parte, o assunto é muito sério.
Temos três filhos. O quarto vai a meio da sua viagem e encontro marcado para aquele que será o primeiro açoite da vida no traseiro.

Disse isto na entrevista, mas não passou, muitas outras histórias, menos cor-de-rosa, tiveram que ser contadas na reportagem: sentimo-nos ridículos por ser endeusados, por nos colocarem o epíteto de 'corajosos', por termos a módica quantidade de quatro filhos.
Parece-me sempre ridículo, despropositado, desproporcionado o espanto e o deslumbramento. Ao João, que tem cinco irmãos e sete tios, ainda mais.
Mas desde quando quatro é ter muitos filhos?
A partir do momento em que temos o dobro  de filhos da média nacional é, de facto, preocupante.
Questiono-me muito sobre o porquê deste deserto de crianças no país. Há, obviamente, situações limite e com a taxa de desemprego jovem nos píncaros onde se mantém será difícil inverter urgentemente a pirâmide demográfica - aquelas coisas que estudávamos no ciclo a Geografia e achávamos que não iam servir para nada explodem-nos assim, na cara, já adultos.
Mas olho ao meu redor, para os meus amigos e para os meus colegas, e a explicação é outra: há estabilidade, há emprego, e eu não tenho o direito de criticar seja quem for das suas escolhas ou opções, mas a explicação é outra no mundo por onde me passeio diariamente.

Abdicámos e abdicamos de muitas coisas para erguer esta família?
Claro que sim!
Só na mensalidade das creches dos pequenos era um city break pela Europa a dois. Imagino-nos românticos, de mãos dadas, ao pôr do sol, por Paris; aos saldos, em Londres, pela Oxford Street, a mandar moedas de cêntimo, e a pedir desejos idiotas, enquanto nos lambuzamos com gelados, na Fontana de Trevi, em Roma...

Mas mudávamos alguma coisa? Não!
A casa está sempre desarrumada, brinquedos que nascem de geração espontânea, tralha por todo o lado, os gatos arranham o sofá barato e o cão às vezes faz xixi à entrada da casa, estragando os bonitos tacos de pinho do hall. Não há gelados italianos, mas os da Olá são porreiros também. Não mudávamos mesmo nada. As viagens ficarão para quando esta malta estiver crescidinha, e aí vamos recuperar o tempo perdido (nem que seja de autocaravana em regime hippie)


Fazemos alguns malabarismos?
Sim!
A ginástica não é o meu forte (nem dos meus filhos, tadinhos, tão desengonçados), mas o pai sabe fazer girar três bolas ao ar e especializámo-nos noutras atracções circenses mais mundanas: jantamos menos vezes fora (e quando o fazemos é num tasco), não vamos de férias para hotéis, ou vivendas alugadas com piscinas, mas temos casas de família nas beiras e nos Açores. Não temos cartões de crédito, abdicámos do seguro de saúde (lálálá, e agora estou grávida e tenho uma cesariana para pagar se me quiser dar ao luxo de ter mais conforto e o meu médico à frente da marquesa), tudo lá em casa é em segunda mão (do carrinho de bebé à máquina do café; da carrinha de sete lugares ao vestido deslumbrante da bebé, comprado por 0,50 cêntimos nos saldos da Humana For People do Intendente), mas pinto o cabelo de três em três semanas no salão (70 por cento de mais de 60 centímetros de cabelo branco assim obrigam). E Aurora usa fraldas caras, da Dodot; há coisas em que, por enquanto, ainda não precisamos de abdicar.

Falta-nos alguma coisa?
Não!
Temos quatro filhos porque temos a sorte de ter bons empregos, com flexibilidade, e uma família que nos acode logo se algo falha, ou à mínima ameaça.

Temos muita sorte?
Sim!
Nascemos com o cú virado para a lua.

Fizemos estes filhos por gosto. Somos uns felizardos. Não é um acto de bravura; é todos os dias um acto de amor.

[Reportagem aqui: http://www.noticiasmagazine.pt/2014/quem-faz-um-filho-fa-lo-porque-2/]