Quem faz um blog fá-lo por gosto

terça-feira, 4 de novembro de 2014

À espera de Isaura

Photomaton dentro do útero. Maravilhoso mundo novo powered by Ecox4d

A conversa paralisou-me momentaneamente.

Gaguejei e tive que pigarrear para aclarar a voz e recuperar o tino às cordas vocais, que bambolearam de fraqueza como quem vai ter um chilique. Sou capaz de jurar que fiquei com epiderme de galináceo, causada por um tremor de frio inexplicável num dia de Outono com 30 graus. E soubesse eu onde pára o meu comprimido estômago, espartilhado por um útero T4, teria sentido traças a trincarem-me as entranhas com satisfação.

Pela primeira vez nesta gravidez levei um bofetão da realidade e de um quadro menos cor-de-rosa.

Sabia, desde o meu ar de pânico a olhar para uma tirinha de plástico branco, com duas riscas cor-de-rosa verticais que me indicavam a presença da hormona beta HCG no meu primeiro xixi da manhã, que esta era uma gravidez de risco: o mito da cesariana número quatro, a imprudência de engravidar nem dez meses depois do bebé número três ter sido arrancado da barriga através de um bisturi num hospital finório de Lisboa, fizeram-me entrar num túnel de terror de onde só, muitas semanas mais tarde, consegui sair à base de estatísticas e estudos sobre os reais riscos associados a múltiplos partos por cesariana.

Mas, até agora, à parte esse primeiro capítulo traumático e os enjoos épicos até ao quarto mês de gestação, que tenho para mim que foram uma espécie de castigo por não ter abraçado esta gravidez logo desde o primeiro momento, optando por uma espécie de uma atitude de negação passiva-agressiva de assobiar para o lado a ver se passa, senti que ganhara super-poderes com esta menina e com os nossos dois corações a baterem em uníssono numa cumplicidade nunca antes sentida.

Certo é que tenho a pele da cara idêntica à de uma adolescente com as hormonas em total desvario, mas esse é o único senão de uma gravidez sem azia, sem inchaços, sem hipertensão, sem diabetes, sem dor ciática, e com um ganho de peso, às 34 semanas de gestação, de apenas 3,5 quilos.

Esta é a gravidez mais próxima do tão falado 'estado de graça'. E eu posso até dizer à bruta que odeio estar grávida - lamento a honestidade gritante mas é verdade -, que odeio o carrossel da flutuação de humores, do sono e do cansaço perfeitamente merecidos de quem está a gerar uma vida, do centro de gravidade totalmente alterado a cada dia que passa, das constantes provações e privações durante nove meses, mas a verdade é que sinto já uma melancolia tremenda de saber que esta viagem acaba daqui a pouco e que nunca mais se repetirá na minha vida.

Por isso, quando o médico muito moreno e de sorriso muito doce, que arrancou os meus filhos dentro de mim, me disse que as coisas estavam a evoluir menos bem, que a minha placenta estava no sítio errado e onde não poderia continuar a estar, sem o sobressalto constante e eminente de um trabalho de parto prematuro, eu fiquei estarrecida.

Sinto que esta é uma filha invencível, protegida por várias fadas-madrinhas, que a guiarão sempre para o resto da sua vida. É uma menina que quis vir com toda a força do mundo, revirando o nosso ao contrário, numa supresa e espantos que apenas quem já presenciou algo muito forte e luminoso como um milagre pode entender.

Apesar de já ter aceite a possibilidade de a poder vir a conhecer um pouco mais cedo do que estava inicialmente previsto - previsto por quem? mas alguma coisa foi prevista nesta gravidez? - acredito então que tudo correrá pelo melhor. Que poderei até fazer as piadolas de ter tantos filhos (três!) a nascerem no último mês do ano, o do Natal.

Estou, portanto, quietinha.
À espera de Isaura.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

As manhãs

Quando eu crescer vou fazer campanhas para o Calvin Klein. Não são só as miúdas que rebentam a escala nesta casa.
Foto: Pai João
As rotinas já estão domesticadas, mas ainda não estão devidamente amestradas como se assistíssemos despreocupadamente a uma coreografia de natação sincronizada, sem pensar no esforço e trabalho que aquele bailado todo deve ter dado a preparar.

Apesar de já termos mandado às calendas uma folha do calendário desde que o ano lectivo nos escanacarou a porta, deixando tudo em pantanas, a máquina ainda não está devidamente afinada. Mas para lá caminha.

O dia começa cedo. Começaria sempre cedo, de qualquer forma, mas a minha bexiga de grávida está sincronizada com o passarinho que começa a cantar às quatro da madrugada. O Outono chegou de mansinho e sem com ele trazer o cair das folhas ou, pelo menos, a paleta de ocres e amarelos com que pinta o quadro da realidade. O passarinho talvez esteja feliz por isso; talvez seja essa a sua inspiração matinal, ainda o raiar do dia vem tão longe. Sinto, porém, a mais melancólica de todas as estações do ano a instalar-se através da alteração de comportamento dos meus gatos: a forma como se alapam à molhada indistinta de pelos e bigodes, aos pés da cama, grita toda ela Outono.

O passarinho canta, eu levanto-me, são quatro ou cinco passos até à casa-de-banho, e o Verão já cá não mora: não tropeço em gatos solidários com a bexiga alheia - deixam-se estar quentinhos como botijas ronronantes e dali não saem, dali ninguém os tira.

Duas horas e picos depois toca o telefone; escolhi uma melodiazita que me lembra percussões africanas. Era o mais sereno que se podia encontrar do cardápio de alternativas que me apresentava o Window Phone para despertar (no Blackberry tinha um gongo chinês para acordar mais zen).

Hei-de deixá-lo tocar a lenga-lenga mais duas vezes, mas apenas duas: à terceira é hora de fazer uma impressionante rotação de uma barriga que desafia todas as leis da gravidade e acender a luz da cabeceira. O pássaro das quatro da matina já não se ouve; deve ter enchido a barriga de minhocas e agora anda por outros voos.

O trio felino desta vez acompanha-me sincronizado até à casa-de-banho. Mas não o faz abnegadamente. Amor desinteressado é coisa de cão e esse dorme debaixo da cama até a meio da manhã - noutra vida foi jornalista.

A Farrusca e a Manga miam desalmadamente atrás de mim; o Pi põe-se em duas patas e dá-me turras nos joelhos. O anúncio blábláblá Whiskas saquetas impõe-se. Os gatos são os primeiros a reclamar a minha atenção matinal. E o meu cérebro começa a aquecer no momento em que divido duas saquetas por três gamelas, transformando-me numa calculadora e balança humanas.

Gamelas no chão.
Próximo!

Toda manhã é cronometrada com precisão de relógio suíço.
Levanto-me. Dou comida aos gatos. Acordo a Carolina.
Antes de entrar nesta idade da arca da velha (o armário é a peça de mobiliário que se segue) bastava abrir a luz e dizer 'bom dia filha' para que instantaneamente se levantasse, hirta como uma tábua, e com os fusíveis em piloto automático. Agora tudo mudou e, se calhar, também já é à terceira que a consigo despertar; não sei: hei-de estar mais atenta para ver se também é sensível à força fatalista deste número.

Volto à cozinha. Por esta altura a pequena Farrusca já está a dar conta das gamelas dos seus companheiros. Eles cedem-lhe o respasto sem refilar, como qualquer pai faz a um filho, mas por vezes eu chateio-me com a voracidade da amostra de gata que nos calhou na rifa e ponho o gato Pi, que está velhote, a comer à parte, e em paz longe da alimária da gatinha bebé.

Preparo o pequeno-almoço à filha mais velha. São umas bombas de chocolate em forma de pirâmide, de marca branca. Ela é tão profundamente adicta ao produto em causa que nunca tenho forças para enfrentar uma tempestade de privação de açúcar refinado logo às primeiras horas da manhã, sugerindo um menu alternativo. Isso fica para um dia destes; há demasiadas mudanças a ocorrer na sua vida de pré-aborrescente, a semana passada comprámos um soutien, por isso, nem pensar mudar-lhe agora os cereais do pequeno-almoço!

Há-de passar na SIC Notícias o trânsito na VCI e mais tarde a meteorologia, entre notícias mais ou menos importantes.

Tic-Tac-Tic-Tac, o espectáculo tem que continuar (ou é uma bomba-relógio em contagem decrescente?)

Há trabalho de casa obrigatório na véspera: roupas escolhidas a dedo (a piorseira e o pendant obrigatórios funcionam muito melhor no dia anterior), alinhadas aos pés da cama, à espera que corpinhos quentinhos e preguiçosos mergulhem para dentro delas.

Ainda não atingi a perfeição de deixar a mesa preparada para o pequeno-almoço. Um dia hei-de lá chegar. Ou talvez não. Sem pressões. Já há demasiadas pressões e no início do dia eu ainda tenho certezas que sou uma mulher-maravilha que deixa o seu Homem Aranha dormir mais um bocadinho o seu sono de beleza.

O António é o menino que se segue na perfeita linha de montagem desta família. Sento-me na cama ao seu lado, dispo-o e visto-o a dormir. Os homens cá de casa têm sono pesado. Pode cair o Carmo e depois a Trindade que eles continuam angelicais, colados à almofada sem resmungos, apenas desmaiados e inertes.

A certa altura tenho que o chocalhar. E enchê-lo de beijos. Ele há-de dizer alguma coisa muito melosa, como eu sou a mais linda, ou como me ama. Casa-de-banho com ele, o copo de leite e o Manhazitos já estão na mesa à sua espera e sei que, depois de lavar a cara e fazer xixi, vai mudar das notícias para o Cartoon Network, ainda que saiba que não o pode fazer.

O pai é o terceiro a acordar. O tamanho da minha barriga de oito meses não me permite alcançar a minha filha na sua cama de grades fixa. É ao pai, acabadinho de se levantar, que entrego a tarefa de preparar a benjamim deliciosa, uma bonequinha de porcelana morena.

A Aurora tem um acordar doce e feliz. Sigo aquele momento de profunda intimidade entre pai e filha à distância, da cozinha, enquanto chocalho o pó da papa láctea com um garfo e a alquimia acontece transformando leite numa argamassa a que me é difícil resistir. Enche-me a alma ouvi-los de longe. Mas talvez esteja na hora de dar o primeiro berro do dia, porque a Carolina ainda não se calçou, ou o António ainda não tocou no copo do leite.

Ultimamente há uma nova fase da manhã e que dá pelo nome finório de pediculose ou, se preferirem, pelo nome foleiro e preconceituoso de "piolhos". Passo as três cabecinhas a pente fino. Literalmente a pente fino. A expressão ganhou uma nova dimensão para mim.

Hoje, passadas umas boas três semanas de ausência, vamos voltar ao ataque. Acabaram-se todas as vias do diálogo; isto é uma declaração de guerra. Logo à noite vou fumigar preventivamente com champôs caríssimos e com cheiro a talco. Um dia declararei extinta esta raça que teimosamente teima em reaparecer. Espero que sim. Que não seja como o raio das baratas que vivem na Bimby (finórias de um raio).

Entretanto já estamos atrasados.

Mochilas às costas, casacos, bibes e brinquedos da praxe pendurados nos braços. A Carolina vai esquecer-se do cartão da escola e da luz do quarto acesa. Vai ser um corropio até alinhar tudo e todos no elevador. Cá em baixo há que  encaixar crianças em cadeirinhas e apertar cintos. Dispor depois toda a parefernália que acompanha a comitiva no pouco espaço que resta do minimonovolume que há uma década para cá nos acompanha para todo o lado com algumas marcas do tempo e da azelhice de um marido que tirou a carta aos 35 anos. São as suas rugas. Ou as suas dores de crescimento. Calha-nos a todos.

O motor arranca. Marcha-atrás, e depois a primeira a fundo porque a subida é bastante íngreme. Vários atalhos e caminhos secretos se o trânsito estiver inexplicavelmente compacto na Avenida de Roma.

Às nove da manhã está tudo despachado e eu regresso a casa (ou, geralmente, ao trabalho). Suspiro. Tomo um café e como um pão com manteiga.
Vem aí o resto do dia, mas este momento de regozijo pela tarefa cumprida ninguém mo tira.

Daqui a quatro semanas a rotina muda de novo e drasticamente. E este relato será como uma memória longínqua... Como nos tempos em que a minha mãe me acordava, ligando-me pelas 10h00, e a manhã começava lá para o meio-dia numa redacção de um jornal diário...

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

As "músicas-madrinhas" dos meus filhos

Perco muito tempo das nove luas que o meu ventre conta agora, pacientemente, pela quarta vez, a interpretar sinais praticamente invisíveis à vista mais desatatenta, a farejar o ar como um cão perdigueiro à procura de um rasto praticamente indelével, a guiar-me por um qualquer campo magnético que faz girar a terra e que, mais cedo ou mais tarde, me leva direitinha à música que foi feita à medida de cada um dos meus filhos.
Foi assim que cheguei ao fado de Carolina, do Chico Buarque, vaticinando que a minha primogénita traria nela e nos seus olhos azuis todas as dores e também todo o amor do mundo. (e eu serei sempre a voz que lhe diz que o mundo anda lá fora e que ela o poderá ter a seus pés se abrir a janela).



Rodrigo Leão e Ryuichi Sakamoto foram a minha companhia e do António nas longas viagens até Belém, quando a vida me atirou para um museu de arte moderna e contemporânea, no rescaldo daquela que foi a maior perda da minha vida: um filho que não vi nascer.
E foi ao som de um piano sereno, que me lembrava as águas calmas da piscina da minha infância, onde tantas vezes lavei a alma sob o olhar atento de uma lua mentirosa, que consegui sarar a enorme ferida que trazia aberta, e protegi e abracei o António meses a fio, em modo contínuo, repeat one, pelas ruas de Lisboa, na certeza que tudo correria então pelo melhor.
O Tejo ora do meu lado esquerdo, ora do meu lado direito, a furar engarrafamentos como quem fura a cobertura de chantili de um bolo de aniversário, camionetas de turistas asiáticos com poderosas máquinas fotográficas digitais do outro lado do vidro, enquadrados pelo som de uma canção de embalar que fez do meu rapaz a criatura mais leve do mundo e desta família.


A Aurora foi a luz brilhante que clareou tudo como um relâmpago que nos acordou de repente, que nos pôs no trilho certo, como um aviso à navegação que nos sobressalta porque só assim é possível retomar as rédeas do destino.
Ela cobriu as nossas vidas como um manto branco que espantou o medo do escuro, um temor infantil que trazíamos entranhado na pele, por todo o lado, despojados de grandes esperanças, deixados levar por um país trespassado por um resgate cruel, paralisado por uma crise selvagem. 
Ela é a luz das nossas vidas; ela é a possibilidade de tudo o que queiramos para futuro - e é por este seu condão que a sua "canção-madrinha" é Daylight and the Sun, de Antony and the Johnsons.


A Isaura esteve muitos meses sem nome, demasiados, ou talvez precisamente a conta certa para chegarmos à escolha de um nome que não agrada a todos mas que é a mais abençoada (quase consigo ver a minha avó a sorrir-lhe, sentada no seu cadeirão de couro, a rebentar de orgulho pela mulher que sou apesar dos desaires para os quais fui arrastada e tantos outros para onde me meti deliberadamente e sabendo bem ao que ia). 
Há muito, porém, que lhe escolhi a música. Tudo o que eu desejo para a minha filha-milagre, para a minha filha linda, bem-amada, está na canção "Menina da Lua", do compositor mineiro Renato Motha, aqui interpretada por Maria Rita. 



segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Fumo branco! Habemus nomen!

A Aurora quer-vos contar um segredo: o sofrimento de ter uma irmã anónima acabou. Sim, acabou! A partir de hoje, não vamos mais ficar encabelados, deprimidos, corados e, sobretudo, mudos, quando, a torto e a direito, esquina sim, esquina não, todo e qualquer ser humano que se depara com a proeminente barriga pergunta, natural e inocentemente : 'E como se vai chamar o bebé?'

A minha irmã mais nova vai chamar-se Isaura.

(Como a minha bisavó paterna que, um dia, lá pelos anos 30 do século passado, pouco tempo antes de se apaixonar por um rapaz com um apelido esquisito nos corredores da Faculdade de Farmácia, picou o olho numa roseira de uma quinta senhorial do Barreiro, para onde ia ver os golfinhos a saltar felizes pelo Tejo. Mas isso há-de ser para outra história.)

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Ontem à noite...

Não quero ir à escola. Eu tenho uma doenxa!!!

As noites têm sido chorosas, por tudo e por nada diz que nunca mais me faz olhos de bambi se não lhe fizer as vontades todas. Amua, choraminga, pede colo e mimo. Ontem à noite, lágrimas gordas, agarrado a um peluche da irmã mais nova:

- Mãe, amanhã não quero ir para o primeiro ano!!!
- Filho, mas porquê, meu anjo? Vais aprender as letras, a contar até a um milhão...

Com voz de falsete, e sotaque de ogre Shreck:

- É que eu tenho uma doenxa!!!


(ai)

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mudam-se os tempos... mudam-se as mochilas do primeiro dia de aulas...

[Fixem o meu nome, parece ela dizer ao mundo]

Mudam-se os tempos mudam-se as mochilas e aquilo que lá vai dentro para o primeiro dia de aulas.

Hoje foi a vez da mais velha se estrear no sexto ano (este ano há exames nacionais outra vez...). Regresso às aulas molhado (e espero que seja como nos casamentos e que, pelo menos, abençoe todas as crianças neste novo ano lectivo que agora começa) e as mochilas dos meus filhos este ano têm menos cheirinho a novo.

Revimos na fila de trânsito interminável que, inexplicavelmente, se forma a qualquer hora da manhã ao longo da Avenida de Roma (e um percurso de dois minutos passa a demorar 15 ou mais apenas porque sim, sem qualquer explicação racional ou lógica), o que NÃO vai e NÃO pode acontecer este ano lectivo.

A lista de "nãos" que fui enumerando com a força anímica das férias a ser sugada pelas bátegas de chuva que caíam no pára-brisas (entretanto, a nossa carrinha de sete lugares, a única na qual poderemos seguir todos daqui a um par de meses entrou em negação com as partidas de mau-gosto de São Pedro e o pára-brisas deixou de funcionar) inclui:

"Não me vais trazer recados na caderneta dos professoras ou da DT; não vais arranjar sarilhos picuinhas com as tuas amigas e dramas imbecis; não me vais perder casacos, guarda-chuvas e equipamento da ginástica por puro desleixo; não me vais extraviar o cartão da escola à razão de três vezes por semana; não te vais atrever a andar com folhas do dossiê rasgadas, dobradas e escritas com uma letra garrafal inexplicável; não me vais esconder o lanche que não comeste na escrivaninha..."


E preparava-me para continuar na minha lista de nãos quando me lembrei da psicologia positiva, e tentei inverter o discurso e mudar de faixa ao mesmo tempo para não chegarmos atrasados para o primeiro dia de aulas. Respirei fundo e declarei: "Vais fazer tudo como deve ser, tenho a certeza. Este ano vai correr muito bem; vais entrar com o pé direito!"

Deixo-a à porta da escola - já não fico ali a dizer adeus e de lágrima ao canto do olho (essa lamechice acabou o ano passado; correria o risco de a envergonhar perante os pares, para mais com aquela manada de irmãos mais novos, que aos 10/ 11 anos têm sempre o condão de ser irritantes por mais adoráveis que sejam).

Pela primeira vez não tive nada a ver com a roupa do primeiro dia de aulas da minha filha mais velha. Nunca teria escolhido a tee shirt pindérica da Violetta, as calças de ganga pingonas, os ténis da Nike. Ontem à noite pediu-me para lhe fazer caracóis e foi a minha única intervenção no seu primeiro dia de aulas do sexto ano de escolaridade. Dividi o couro cabeludo em madeixas, torci-as, e enrolei-as nuns papelotes improvisados com elásticos coloridos que lhe deram um colorido afro ao visual.Acho que anda com inveja dos caracóis da Aurora, tão gabados como a cor dos seus olhos. E, por isso, dormiu com a cabeça cheia de puxinhos a noite toda - já tem idade suficiente para saber que mulher bonita não tem frio, dores nos pés e passa por alguns desconfortos abnegadamente sem queixume - e hoje tinha o desejado penteado que seria o seu uau factor do primeiro dia de aulas. Deixou-me pôr-lhe uma fita no cabelo, concordou com a sugestão. Resumo-me à minha insignificância.

A semana passada também me deu dores de crescimento. Pediu, ainda que com jeitinho, para que parasse de lhe comprar roupa de criança, com folhinhos e rendinhas; que agora teria as bebés (a pequenina inclusa continua anónima) para acalmar os meus fervores de piroseira pura. Andámos depois à caça de uma saia de tule para usar com botas da tropa rosa shock (encontrámo-la a muito bom preço, ainda em saldos, na Vertbaudet) e o mais temido momento da compra do primeiro soutien está também ao virar da esquina, mas vai ficar para mais tarde, pois o meu pobre coração de mãe de quatro não aguenta isto tudo ao mesmo tempo.

Mas este ano as compras do regresso às aulas foram mesmo muito limitadas. Não gastei mais do que vinte euros nos dois filhos em escolaridade obrigatória. A Carolina nasceu em tempos de vacas gordas, foi filha única anos a fio, e é certamente quem mais está a estranhar esta nova realidade do estica, reutiliza, poupa, passa de irmão para irmão.

O meu querido António leva para o seu primeiro ano de doze de escolaridade uma mochila e estojos usados nos anos anteriores do pré-escolar; os lápis de cor eram da irmã; os de carvão também (o que não falta lá por casa são dezenas e dezenas de lápis e canetas), novo novo só mesmo o caderno diário (o dossiê e capa do colégio também eram da irmã, assim como o fato de treino e tee shirts da farda - eles ainda não lêem, por isso, ainda tenho uns meses para retirar o bordado 'Carolina Ralha' para 'António Ralha'), os lápis de cera e a borracha.

A Carolina continua a ter privilégios de primogénita mimada e a avó materna comprou-lhe mochila e estojo novos a fazer pendant. Há um dossiê, três canetas Bic básicas, dois lápis de carvão e uma borracha novos, mas lápis de cor, canetas de feltro, esquadros, réguas, compassos, transferidores é tudo reaproveitado do ano passado. Não aderimos ainda aos livros em segunda mão (para já) e, por mais apertado que esteja o orçamento, de uma coisa não abdicamos: fazemos as compras do regresso às aulas na papelaria do bairro; é lá que encomendamos os livros escolares com os mesmos dez por cento de desconto que as gigantescas cadeias revertem em talão ou em cartão. Gastamos mais um euro ou outro na meia dúzia de coisa que comprámos novas, mas temos ali uma amiga e garantimos dois postos de trabalho.

Mudam-se os tempos, mudam-se as mochilas... vamos lá ver que mais mudanças nos vão bater à porta...




segunda-feira, 15 de setembro de 2014

O primeiro dia de aulas do meu rapaz

Mochila às costas, nervoso miudinho à flor da pele: 'Estou com dor de barriga, mãe!".
Não há nada que não se resolva com uma boa careta!

Senti logo ao acordar que, apesar da sua leveza do ser, aquela que o faz pairar sobre a vida com despreocupação, sorriso e covinha na bochecha permanentes, o meu loiro amanhecera nervoso, e que o regresso ao rotineiro tique-taque matinal, aquele em que eu ando de um lado para o outro como uma louca, em contra-relógio, segundos contados para dar comida aos gatos, fazer pequenos-almoços, ajudar a vestir, lavar os dentes, ajeitar os calções, saias e camisolas, desembaraçar cabelos fininhos loiros, pôr ordem a cabelos grossos também de cor dourada e enfeitar cabeleiras encaracoladas morenas - basicamente as minhas manhãs resumem-se num chorrilho de ordens - o apanhara noutra disposição menos zen do que é costume. 

Havia uma electricidade no ar e não era do miserável tempo de trovoada. Hoje o dia tinha qualquer coisa de bomba-relógio, prestes a rebentar. E ele sabia-o bem; pode parecer um totó despreocupado sempre na sua, mas intuição não lhe falta. 

"Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, pequenote. É o teu primeiro dia de aulas." Diz-se-lhe isto e a ansiedade manifesta-se logo de imediato. Aprendeu com a irmã mais velha a roer as unhas e só de olhar para aquele sabugo até dói.

Logo pela manhã resmungou no banho (será que a fase 'Cascão' algum dia vai passar?), é uma trip de berros e choro com a qual ninguém merece começar o dia e, depois, enquanto lhe penteava a trunfa volumosa molhada, reclamou, alto e bom som, e a pedir mimo: "Mas quando é que me começam a cair os dentes?" 

(Também pede um milagre para que a cabeça lhe encolha um pouco para poder, como todos os amigos, passar pelas grades das escadas do recreio. Pobre filho, cabeçudo!)

É dura esta coisa de entrar um ano mais cedo para a escola. Desgraçadas das crianças do final de Dezembro; tardasse mais dez dias quentinho no ventre e carimbavam-lhe o passaporte para mais um ano de brincadeiras e infantilidades variadas. 

A sua revolta estomatológica é justificada. Entre os colegas anda tudo desdentado e encantado com a fada dos dentes. E há já quem tenha uma boca pequenita plantada de dentes enormes, desproporcionados, quase disformes.
Não há realmente justiça numa emancipação forçada, mas que tarda em materializar-se em queda de dentes... Então ele, que os traz partidos há tantos anos, e nem um a abanar para amostra! PObre menino de sua mãe.

Ir para a primeira classe (eu sei que agora se chama primeiro ano, mas há algo retro na 'primeira' e eu gosto do culto vintage) tem que se lhe diga, mesmo que se permaneça na mesma instituição e com quase o mesmo grupo de amigos que acompanha esta jornada de vida desde os oito meses de idade.

Em primeiro lugar há uma fronteira invisível no recreio. Agora, ele está do lado dos crescidos, território inexplorado, longe das caras que o acompanharam este tempo todo da sua primeira infância. Há caras novas também, o charme discreto do loiro terrorista das pestanas douradas, cicatriz na têmpora e dentes partidos vai ter que ser accionado rapidamente e em força para conquistar a Bárbara, que o vai acompanhar nos tempos livres nos próximos quatro anos, e sobretudo junto da Professora Elsa, que será a professora mais importante de toda a sua vida (mas ainda não lhe contei esse segredo)

Ele sabe-me nervosa também e tem gozado o prato sempre que pode. Sabe que é o meu menino de ouro, o meu único rapaz, e que a sua emancipação me dá dores de crescimento. Gozão como só ele consegue ser, junta as mãozinhas como se estivesse a rezar ao Santo António, faz os seus 'olhos de Bambi' doce - aqueles que quando me zango à séria e lhe dou uma palmada no rabo ele jura que nunca mais me fará - e imita o "Gumball", dos desenhos animados do Cartoon Network, suspirando: "Ahhhh, crescem tão depressaaaaa...."

Começou o pagode, agora não há nada a fazer, ele está a crescer e eu não posso tê-lo ao colo para sempre (até porque a barriga já vai para o sétimo mês de gravidez). 

Na semana passada, a de habituação ao lado do recreio dos crescidos, semana inteiramente dedicada a brincar, passou a ser caloiro franganote e foi, basicamente, 'praxado'.

Numa manobra básica para conquistar popularidade, ou numa tentativa de mera sobrevivência, levou a sua gigante colecção de Tazos e Invizimals,para o recreio. Ambas ficaram reduzidas a meia dúzia de cartas fatelas, rasgadas e dobradas, e Tazos riscados. "Eles precisavam das cartas para acabar a colecção", disse-me, crédulo, ou sabendo-a toda, mas fingindo que não, que não tinha sido afiambrado pelos crescidos, recebendo como troca umas migalhas de simpatia.

Sim, crescem mesmo depressa, e a partir daqui nada será como antes. 
E se, por um lado, tenho o coração encolhido, por outro, anseio pelas primeiras composições, pelas taralhoquices variadas que virão escritas - decerto - com uma caligrafia horrível de rapaz.

E ainda há uma semana era férias. 
A chuva e o regresso às aulas, ao trabalho e às rotinas enterraram esse assunto definitivamente. Suspiro.