Quem faz um blog fá-lo por gosto

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Terrible Twos



Upside down. O querubim moreno endoidou. Foto: Ties

Não estava à espera de sair da maternidade com uma adorável e cor-de-rosinha recém-nascida ao colo, primeiro apanhar um frio do caraças que enregelou todos os ossos do esqueleto e depois só o da queixada, quando o temido momento da factura do aquecedor em cada assoalhada chegou, rodar a chave na fechadura, as luzes da árvore de Natal branca e encarnada a piscar como que dizendo ‘bem-vindos a casa’ e, do outro lado, lar querido e doce lar, ho ho ho, joy to the world, e ter à minha espera não uma mas duas adolescentes: uma com 11 anos e a outra com 19 meses.

Não tive direito a aviso prévio, pombo-correio, mensagem na garrafa ou mesmo pedra da calçada a voar pela janela a dentro – não houve curso de formação, nem pude treinar uma ou duas vezes. Agora sei-o, era uma bomba-relógio, uma panela de pressão, mas eu não ouvi o tic-tac nem a chiadeira, andava num outro mundo, com o centro gravitacional alterado por um barrigão de nove meses, e embriagada por um mundo de folhinhos, rendinhas e cueiros com cheiro a alfazema.

Rebentou-me esta granada nas mãos ao mesmo tempo que fazia malabarismos com fraldas, cólicas, fissuras nos mamilos, mastites e privações de sono. Tenho duas adolescentes em casa: uma com 11 anos e a outra hoje com 23 meses.

De repente, não (re)conheço as minhas meninas. 

Não fazemos mais pose: somos as terrible twos (e a foto recusa-se a rodar, é karmico). Foto: A Família Numerosa.

Neste momento, aliás, a mulher mais previsível desta casa é, seguramente, a pequena Isaura (comigo incluída – também eu me metamorfoseei numa outra coisa nos últimos meses; as hormonas em cocktail Molotof que em vez de explodir deu o efeito de ter tropeçado para dentro de um caldeirão de Xanax com cheirinho a bebé). Sei de cor as manhas e os caprichos da pequenina: a bebé Isaura funciona numa espécie de sistema binário muito simples: fome, xixi, desconforto, dor, rabujice. E tudo, mas mesmo tudo, se resolve com uma mama. É fácil; é mesmo muito fácil… E a minha mãe insiste na lenga-lenga que cai em saco roto, como há três filhos atrás: ‘quando eles forem mais velhos e tiverem um problema, o que é que fazes? Dás-lhes uma bola de Berlim? Fazes-lhes cozido à portuguesa?’Pois, mãezinha, lamento, infelizmente não funciona: já tentei encher o bandulho às duas adolescentes cá de casa e caiu tudo em saco roto.

Socorro, mãe! É uma adolescente aqui ao meu lado! Foto: A Família Numerosa

A mais nova está de greve de fome até mesmo antes de a irmã nascer. O pouco que come vai preferencialmente para os hidratos de carbono, com preferência para o arroz. Somos pais permissivos (isso ou não queremos – é mais não aguentamos - gritaria): se não quer não come, nunca ninguém morreu à fome com um prato cheio de comida à frente e o conduto deve-lhe vir de algum lado, pois continua uma matulona maciça.

Já a adolescente mais velha, a que antecipou a puberdade um bom par de anos face aos meus cálculos e melhores expectativas, é o terror dos buffets onde as crianças até aos 12 anos só pagam metade: os preferidos das famílias numerosas de filhos pequenos. A moça dá prejuízo à casa – daria prejuízo mesmo que pagasse a dose de adulto. Tudo nela germina à velocidade de uma Primavera a mamar esteróides ao almoço ao jantar e à ceia – até o mau-feitio, ou sobretudo ele, a par com o tamanho do nariz –, mas quem me dera que a medida da anca da minha mais velha (a começar a puxar perigosamente ao meu lado) fosse o único ou o maior problema com que tivéssemos a enfrentar nos próximos tempos.

Melancolia. Coisas de Adolescentes. Foto: A Família Numerosa.
Nesta casa vivem-se tempos de mudança.
Sabíamos isso desde que a bebé-milagre decidiu que tinha que vir parar a este agregado barulhento. Estávamos preparados – ou pelo menos achámos que sim: eu fiz muitos excel’s e outros planos maléficos e metafísicos – para as mudanças da visita da cegonha.

Mais uma vez, tempo perdido, para quê perder tempo a planear seja o que for? A bebé é um amor e nós temos o arcaboiço de quem já está a lidar com um recém-nascido pela quarta vez. Mas, surpresa!!! Toma lá duas adolescentes irrascíveis e leva ao forno para ver o que sai. E, por enquanto, ainda cheira a esturro…

As primeiras três semanas de vida da Isaura foram críticas para a minha adolescente de ano e meio e de cachos de caracóis e olhos negros. Pontaria das pontarias a família cresceu e essa adição de amor e coisas fofas coincidiu com a chamada ‘adolescência do bebé’ – os terrible two’s. Ou despoletou-a. Tanto faz. Deal with it!

Já ando neste ofício de criar filhos há mais de uma década, mas, talvez porque a paciência é outra aos vinte anos, nunca me dei conta de tal fase nos meus primeiros filhos. Ou então lia menos. E não havia Facebook e grupos de mães em frenesi de partilha ao segundo.

Greve de fome. Tudo começou suave discretamente com a greve de fome. E porque uma greve anda sempre a par de um barulhento protesto e manifestação houve gritos (e muitas lágrimas, ai tantas lágrimas). A vizinha do lado, octogenária bisavó, veio aflita perguntar-me o que se passava: ‘Não se ouve a bebé; só se houve a Aurora a chorar e a gritar… Está tudo bem?’

Não. Não estava tudo bem. E foi o suficiente para me esfrangalhar os nervos, acabadinha de parir. Fartei-me de chorar também. Um choro hormonal, mas de lágrimas gordas e desesperadas.

E como uma greve e uma manifestação não se fazem sem palavras de ordem, a minha terrível Aurora – outrora um ser celestial, entre o querubim seráfico e a perfeição de boneca de porcelana de edição limitada  – começou a falar. A falar tudo feito papagaio moreno de bico que já nada tem de sereno.

Visto à distância foi uma espécie de duelo:  ‘Ai vens para casa com um bebé cabeludo com ares de feto engelhado? Então toma lá, que eu estou cada vez mais linda a cada dia que passa e agora, ainda por cima, falo e cuspo trapalhonices fofas que derretem toda a família!’. Sem pudor assumo: ela ganhou esse round. Ninguém resiste à voz de bagaço meia belfa da menina. Dá vontade de lhe trincar as bochechas.

Mas não ficou por aqui. Como é da praxe, não é raro o registo de altercações nas greves, nas manifestações e nos protestos. E a Aurora está nesta luta de corpo e alma. ‘Ai o bebé arrotou e estão todos deliciados com o cheiro a requeijão azedo? Então espera, vou trepar a esta cadeira e atirar-me daqui para baixo. Ups, abri o lábio? Ups, isto está a doer! Paiiiiiiiiii!!!!’
Sim, pai! Eu deixei de existir na equação dos seus afectos – a Aurora está magoada e não é com o bebé; é comigo.

A mão que embala a pequena adolescente. Não é a minha. Foto: A Família Numerosa.
O pai agora é chamado para tudo, ela arrasta-lhe a asa e agarra-se-lhe às calças com aderência que lembra um anúncio da minha infância que envolvia cientistas colados ao tecto.

São inseparáveis; a Aurora passou a ser Electra, antecipando alguns anos o que reza a literatura sobre o assunto: o pai dá a comida, dá o banho, muda a fralda, adormece, consola, dá mimo, o pai brinca, o pai veste, o pai leva à escola e, coitado, é o pai quem vai sonâmbulo, pelas quatro da matina, hora em que o passarinho começa a fazer os seus primeiros gargarejos, sonhando com suculentas minhocas, e que passou a ser o primeiro momento de drama e birra do meu querido papagaio-gralha.

O pai vai paciente buscá-la à cama, solta baixinho um ‘shiu, não acorda o bebé’, e seguem juntos para o sofá, onde dormem tortos e tapados com uma matilha de três gatos solidários com a desgraça madrugadora que assolou aquela casa, até que, um bom par de horas depois, me levanto eu, dou corda à caixinha mágica que é esta família, e começa tudo a girar com a precisão de um relógio suíço em que cada minuto é tão frenético quanto precioso e eterno.

Nos primeiros momentos do dia é-me concedido um vislumbre da vida antes de a Isaura chegar, e volto a dar colo à bebé que foi forçada a crescer antes do tempo. Às primeiras horas da manhã, ou não se chamasse ela Aurora, ela concede que me adora e que também sente a minha falta. Vem com os caracóis ripados pelas almofadas, um despenteado volumoso que lhe tapa os olhos, tropeça desajeitada para cima de mim, e ficamos abraçadas uns cinco minutos, um abraço forte e beijos dorminhocos. Dura pouco tempo, mas eu agradeço a esmola.

Com sete pedras na mão e sem direito a nenhuma migalha de doçura. A minha adolescente de onze anos evita há muito todo o contacto físico que seja sinónimo de demonstração de afecto. Dar beijo de até já em frente à porta do liceu, por exemplo, é o mesmo que ter lepra. ‘Menos, mamã, menos…’ (ainda me chama mamã, já não é mau).


Me, myself and I. Foto: A Família Numerosa
A arrogância e soberba estão tão assanhadas como os pontos negros no nariz. A casa passou a ter portas fechadas – coisa nunca antes vista e que me implica com o sistema nervoso muito dado a um feng shui de aqui ninguém tem nada a esconder.

‘Preciso da minha privacidade!’, atirou outro dia, de dentro de um quarto imundo e desarrumado. De manhã, outra estreia: filas de espera para a casa-de-banho. A miss teen demora-se, novamente de porta fechada, há todo um ritual de beleza e de treino de poses ao espelho, apesar de as escolhas de roupa da sua lavra deixarem muito a desejar. Lembro-me que a mãe também me deixou desfilar com sapatos de verniz quando eu tinha 11 anos e que experimentar o mau gosto me fez, mais tarde, ter bom gosto, por antítese. E por isso encolho os ombros e já nem me dou ao trabalho de tentar direccionar a escolha do vestuário para o que acho que a favorecerá. Tudo funciona por psicologia invertida.

E depois há o raio do telemóvel que a avó lhe deu no Natal em reconhecimento das suas notas a pique e ausência de qualquer método de estudo e concentração – os avós têm comportamentos bizarros, razões que a razão não consegue descortinar.

Todas as conversas são sobre novos modelos, novas app’s, novos tarifários, qual é a password do wifi, o candy crush e o my boo, as selifies e, de quando a quando, algum mito urbano que envolva o aparelhómetro.

Quase todas as discussões são sobre este novo apêndice do corpo da minha primogénita, todos os castigos implicam-no invariavelmente, e tudo é sobre o dito. Não sei como ainda não voou pela janela em momentos de autênticos braços-de-ferro à minha paciência, ou como não o desfiz com um martelo no dia em que gritou, desesperada, quando lho confisquei por uma qualquer má criação: ‘eu não posso viver sem ele!!!!’  Já estive mais longe…

Sim, tenho a certeza, tenho uma cellfish em casa: eu, o meu umbigo, o meu telemóvel e mais nada. E a certeza que a procissão ainda está no adro. 

Eu faço pendant com a estátua e com o grafitti. Foto: A Família Numerosa
Entalado entre as minhas terrible twos, de onze anos e 23 meses, fica o rapaz-sanduíche por quem não dávamos nada e que, sem nos apercebermos, já lê, já escreve e teve muito boas notas, mesmo mantendo o seu registo de bobo da corte e no meio deste universo feminino em erupção.

Mas isso é para outra história…

quarta-feira, 25 de março de 2015

A Felicidade é uma caixinha mágica...

Em prime time, na caixinha mágica, na passada sexta-feira.

´Mãe, estamos na têvê'. Foto: A Família Numerosa.

Os meus filhos são a via verde para a minha, para a nossa felicidade. (andamos nisto juntos; somos bem mais do que a soma das partes). Os meus filhos são também certificados de aforro, poupanças com juros altíssimos, são depósitos a muito longo prazo de gargalhadas e corações cheios, a transbordar, sem penalizações por movimentações antecipadas.

Metáforas financeiras à parte - nestas o Banco de Portugal não mete o bedelho -, a verdade é que a felicidade, cá em casa, não tem nada a ver com dinheiro. Longe disso. O ditado popular diz que atrás de um filho vem o pão, mas nem só de pão vive o homem. E os meus filhos são um jackpot diário e eu não estou interessada em poupar, esbanjo tudo, como uma excêntrica, e tento dar ao próximo um pouco desta fortuna bem-aventurada.

Não chegámos a este ponto de onde se vê tudo com mais clareza e serenidade decifrando códigos misteriosos, resolvendo quebra-cabeças tortuosos, não seguimos mapas do tesouro. Aconteceu-nos. A felicidade é uma espécie de bola de neve; tem sido assim: uma avalanche.

Ela entranha-se. E há uma grande pitada de sorte cá em casa. A felicidade é, aliás, a melhor amiga da sorte - encontram-se geralmente à esquina da vida, no momento exacto, nem mais nem menos um segundo, nem mais nem menos um passinho à frente ou atrás. A nossa história está cheia de felizes acasos, o nosso percurso está minado de felicidade - e nós mortinhos para cairmos uma vez mais nesse poço dos milagres.

Mas nem sempre foi assim, e mais cedo ou mais tarde todos andamos, ou todos andámos para aqui às aranhas, a apalpar às cegas e aos tombos o terreno acidentado desta bola perdida no Universo, a procurar o lugar que nos pertence por direito, na esperança que isso nos traga um sentido e para que a vida não seja um mero virar as folhas do calendário.

Ser feliz a uma segunda-feira, de madrugada, sem saber o que é sono profundo há quatro meses? Sim, é possível! Foto: A Família Numerosa

Não há uma escala de felicidade, não é uma prova, não há vencedores ou vencidos, e é claro que há dias mais ou menos felizes (é não sejamos ingénuos; há dias tristes e são esses que fazem da felicidade uma sobremesa gulosa, que se pode comer fora de horas, a qualquer hora, aliás).

Digo-vos um segredo: eu sou daquelas que vê o copo meio vazio. Eu sou daquelas que canta os blues e também o fado. Sou daquelas que tem uma ruga entre as sobrancelhas desde miúda, porque franzir o sobrolho de constante preocupação. Sou daquelas que convictamente acredita que viemos programados para chorar.

A Isaura demorou muito a sorrir, a sorrir deliberadamente. Dois meses para aprender a sorrir, o dobro dos seus estarolas irmãos. Na altura, eu escrevi assim, no meu Facebook, com uma foto do seu primeiro sorriso (ou segundo, vá.. eu não ando sempre com o telemóvel à banda, só quase sempre):



Quase dois meses para sorrir. Sorrir a sério, sem ser aos anjos, a dormir, ou com os gases, para os mais cépticos desta coisa das criaturas aladas que protegem o menino e o borracho.


A felicidade dá trabalho. Nascemos e assim que somos cegados pela claridade da vida que ali se inicia choramos. Vimos programados para chorar... Em plenos pulmões, com as goelas, sem lagrimas até. 
Dois meses para aprender a sorrir. 

A felicidade dá trabalho, filha, mas depois aprende-se o ofício e entranha-se como uma teia fina à nossa pele, como um ninho e também como uma armadilha fatal. Sorri sempre minha filha. 
Ainda é só o começo.

Não só sou eu que a prego, não sou só eu que professo esta religião da Felicidade - a ONU marcou o dia 20 de Março como o Dia Internacional da Felicidade e nós fomos, em canal aberto, em prime time para todo o mundo lusófono, dizer o que nos faz felizes (e diz a crítica que nos saímos muito melhor que o gurú do auto-conhecimento e do Querido Mudei a Casa).

Não há receitas escritas num Pantagruel de felicidade, não há pronto a vestir nesta coisa de ser feliz: o que funciona comigo pode não funcionar com o meu vizinho do lado. Cá em casa a felicidade é barulhenta e desarrumada - ai que desarrumada estava a nossa casa -, mas se eu, neurótica da arrumação, cheguei lá, toca a experimentar fazer mais do que nos/ vos faz felizes.

Façam o favor de ser felizes.

terça-feira, 24 de março de 2015

'As mães são as mais altas coisas que os filhos criam' - Herberto Hélder

'As mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos'. A minha mãe está em todo este blog. Ela é a mais alta coisa que eu criei. Foto: Manuel Oliveira 


No sorriso louco das mães batem as leves 
gotas de chuva. Nas amadas 
caras loucas batem e batem 
os dedos amarelos das candeias. 
Que balouçam. Que são puras. 
Gotas e candeias puras. E as mães 
aproximam-se soprando os dedos frios. 
Seu corpo move-se 
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões 
e órgãos mergulhados, 
e as calmas mães intrínsecas sentam-se 
nas cabeças filiais. 
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado 
vendo tudo, 
e queimando as imagens, alimentando as imagens 
enquanto o amor é cada vez mais forte. 
E bate-lhes nas caras, o amor leve. 
O amor feroz. 
E as mães são cada vez mais belas. 
Pensam os filhos que elas levitam. 
Flores violentas batem nas suas pálpebras. 
Elas respiram ao alto e em baixo. São 
silenciosas. 
E a sua cara está no meio das gotas particulares 
da chuva, 
em volta das candeias. No contínuo 
escorrer dos filhos. 
As mães são as mais altas coisas 
que os filhos criam, porque se colocam 
na combustão dos filhos, porque 
os filhos estão como invasores dentes-de-leão 
no terreno das mães. 
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos, 
e atiram-se, através deles, como jactos 
para fora da terra. 
E os filhos mergulham em escafandros no interior 
de muitas águas, 
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos 
e na agudeza de toda a sua vida. 
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa, 
e através dele a mãe mexe aqui e ali, 
nas chávenas e nos garfos. 
E através da mãe o filho pensa 
que nenhuma morte é possível e as águas 
estão ligadas entre si 
por meio da mão dele que toca a cara louca 
da mãe que toca a mão pressentida do filho. 
E por dentro do amor, até somente ser possível 
amar tudo, 
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor. 

Herberto Hélder, excerto do poema «Fonte», publicado em A Colher na Boca, 1961


Herberto Helder no incrível Projecto "Os Poetas"

sábado, 21 de março de 2015

O primeiro dia do resto da nossa vida

Tu e eu. Foto: A Família Numerosa.


Há nove anos um ponto de exclamação mudou toda a minha vida. Uma sinalefa semeada à visita 50.000 do meu blogue sombrio.
Ele era revisor tipográfico e pouco depois de o conhecer deixei-lhe este pedido, uma espécie de oração dos aflitos:

Revê a minha vida toda.
Suprime parágrafos inteiros se for preciso, elimina delírios que não acrescentam nada à história, semeia pontos finais que eu não tenho nenhuns em stock já não sei há quanto tempo, passa o cortador de vírgulas pelos campos floridos da minha história, põe-me os pontos nos ii, assinala a caneta encarnada, com pontos de exclamação, a mania inexplicável e analfabeta que tenho de escrever “trancinhas” com cedilha (e eu sei que gostas de reticências: na última página, na última frase, colado à última palavra, tens autorização da escritora para fazer uma orgia de três pontos colados uns aos outros e não vou queixar-me à editora, agrada-me a ideia de a história ficar em suspenso, de não acabar nunca, de ser interminável)

Dorme com este livro à cabeceira, não o revejas com pressas, não aguarda publicação, não vai nunca descansar a lombada nos escaparates das livrarias, nem será autografado numa qualquer edição da Feira do Livro – revê bem, porque só há uma edição, de autor, e tem capa de couro, como tu gostas, centenas e centenas de folhas cosidas umas às outras com linha branca, foi impresso em papel de 75 gramas por metro quadrado numa tipografia velhinha e farrusca da Mouraria, foi um homem sábio de olhos azuis, cabelos crespos muito brancos, gengivas cor-de-rosa e bata cinzenta pintalgada de negro, quem montou as letras de chumbo, com amor, num tabuleiro, e depois as forçou a abraçarem-se às folhas num beijo quente, e fez isso porque eu o mandei, porque eu quero que este livro possa ser lido com os olhos, quando há luz das lâmpadas ou do sol, ou pelo tacto, com as cabeças dos dedos, quando a noite cai e os dias começam.


E ele acedeu.
Com calma, com infinita paciência, com devoção e num acto de fé, sem quaisquer garantias mas com a força de todas as certezas, ele reviu tudo, como lhe pedi: passou o pente fino e deixou preso aos dentes e depois pela malha fina do coador, os despojos de dias tão tristes que vivi sem ele.

Esta é a nossa história.
Eu escrevo-a e nós vivemo-la cada dia tão intensamente que parece que nos conhecemos há bem mais do que apenas nove anos; talvez seja mais há nove séculos, sinto-o assim, um amor que vem lá de longe, de muito longe.
Ele dá-me lenha para a fogueira dos próximos capítulos e foi ele quem me ensinou a escrever num blogue cheio de luz e não de sombras e becos sem saída.
Não foram precisas novas letras, inventar outros sinais de pontuação. Se é entre escrever e viver eu prefiro viver.
Mas, passados nove anos - quem diria? - eu consigo viver e escrever.

!


Para quem não acredita em coincidências. 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dia do Pai

A menina do seu pai. Ele vai-te proteger de tudo, filha. Para sempre. Foto: Ties

Vivi muitos Dias do Pai com o incómodo de quem anda como uma pedrita minúscula dentro do sapato, gravilha que não impede ninguém de caminhar a passos largos, mas que implica um ligeiro coxeio, primeiro coisa pequena e depois um crescendo que lateja cada vez mais, que não mata mas mói.

Lembro-me da primeira vez que disse ‘eu não tenho pai’, com vergonha e a voz afogada em lágrimas e soluços. Não era um segredo, era um assunto em que simplesmente não se tocava, para a vida se obrigar a continuar sem mais delongas. Mas agora eu estava na escola, saíra debaixo da saia da minha mãe e colo das minhas avós. O mundo abria-se e a redoma perfeita em que me tinham colocado por amor estilhaçou-se chegado o mês de Março e eu sem ter a quem entregar o cinzeiro de pasta de papel (que coisa tão politicamente incorrecta nos dias de hoje) que secava no pátio de uma escola do Estado Novo.

Esse momento rachou-me o coração; sinto até a fissura, como uma velha cicatriz de guerra, que caminha ao meu lado, como uma muleta odiada, há coisa de trinta anos. Até porque não era verdade o que eu disse. Era apenas mais simples explicá-lo assim e evitar conversas e outro tipo de comiserações.

Eu tive um pai. Tive o pai que ele conseguiu ser e isso incluiu falhas grosseiras e injustificáveis, ausências prolongadas e presenças intermitentes, uma boa dose de mágoas de parte a parte e uma pitada de crises existenciais quando chegou a idade do armário e eu tinha problemas que chegavam para atulhar um walk in closet, mas deixei tudo enfiado em sacos pretos do lixo, na esperança que o contentor fosse levado para bem longe pela madrugada fora.

Tive o pai que tinha que ter tido. E hoje não guardo ressentimento algum. Devo-lhe muito apesar da sua ausências, ou se calhar até por causa dela.

Há coisas de que não pude fugir, coisas da tradição e da genética: herdei-lhe um apelido maluco, para começar, e o tom de pele escuro. Mas depois trago-o entranhado em tudo o que faço, em tudo o que sou, de uma forma por vezes sobrenatural: na sensibilidade extrema que me enche de nódoas negras, no amor pelo belo e pelas artes, no refinado sentido de humor e na gargalhada estrondosa que, regra geral, faz sorrir também quem a ouve, no asco a injustiças, na protecção aos mais fracos, no achar que sou sempre o centro do mundo, e também na coxa grossa.

O meu pai errou muito. Mas sei que me amou, que me amava muito também, do seu jeito estranho, mas amava. Era a menina do meu pai. E hoje sou mãe e sei que não é fácil, que às vezes parece ser demais para aguentar. Não tento dourar a pílula e justificar o injustificável, mas há muito que perdoei. Não tenho qualquer revolta, nem nenhum travo a amargor: as coisas são como são e esta couraça que se grudou em mim como uma segunda pele, assenta-me como uma luva macia de pelica.

É que, perdoem o clichê, eu tirei esta vida para ser feliz. E isso dá trabalho, dá muito mais trabalho do que ser miserável, um pobre diabo curvado por queixas e azudemes do que poderia ter sido e não foi. Por vezes, ser feliz, ou continuar para lá a caminhar a passos largos, obriga a umas difíceis digestões de batráquios que encontramos em charcos para onde fomos parar depois de nos desviarmos de trilhos sombrios, cheios de silvas, que nos tentam travar a longa caminhada. E eu já digeri os difíceis Dias do Pai que fingia ignorar ou que rasgava do calendário.

Fiz as pazes há muito com o Dia do Pai, o Dia do Padrasto, como sempre fiz notar com cinismo – São José era o Padrasto e ser padrasto é um dos maiores actos de amor incondicional. Aí não há nenhuma genética a puxar os cordelinhos. Presencio-o esse amor abnegado e paciente desde que conheci o João e ele me aceitou tal como eu era, com tantas virtudes como defeitos e com uma filha loira de olhos azuis atrás.

'Pai à vista!' Foto: Ties
Soube, aliás, que teria que lutar por este amor com quando, um par de dias depois de nos conhecermos, há quase nove anos, adoeci com uma febre inexplicável (o amor dará febre e vómitos?) e quando acordei, estremunhada, de madrugada, preocupada porque não tinha mudado a fralda ou dado o leite à minha filha, ele respondeu, da assoalhada ao lado, uma cozinha muito velha com o chão em xadrez carmim e bege, que tinha tratado dela muitas horas antes.

Hoje os meus filhos hão-de trazer desenhos, canecas, aventais, bases para os copos do melhor pai do mundo. O doce, presente, sensato e bonito pai (e padrasto também) dos meus filhos. É por ele que eu fiz as pazes com o Dia do Pai. Ele é o melhor pai que podia ser e, mesmo assim, não se resigna e vai mais além todos os dias.

Pazes feitas, siga para bingo, mas este ano o Dia do Pai dói-nos.

A vida, a nossa vida, não é feita em cinquenta sombras de rosa. Há fotografias de bebés, há filhos loiros e morenos, há reportagens na televisão e na imprensa com relatos idílicos, posts cheios de sol e luz celestial, há sorrisos e gargalhadas, famílias enormes e barulhentas em piqueniques fandangos e desarrumados no Jardim da Estrela, o nosso jardim de sempre e para sempre. Este é o retrato perfeito, sem mácula e também sem photoshop, que guardamos com toda a força do ser na moldura dourada da nossa memória. 

´'O meu pai é o melhor do mundo!!!' Foto: Ties
Depois há o que fica atrás da lente, que não ousamos escrever: a vida real, crua, tal como ela é. E há momentos em que a vida é insuportavelmente cruel. Porque, aconteça o que acontecer, ela continua. Nem uma alegria inebriante, nem a tristeza de uma perda irreparável a paralisam sequer por segundos.

Ela lá vai, segue segura. Ela assim continua, desde que de há três semanas para cá, perdi o meu pai ruivo, um pai que adoptei e que me adoptou, a quem roubei um apelido e o sonho de poder vir a ter um filho ruivo.


Durante o mês de Fevereiro, com a Isaura tão pequenina sempre ao meu lado, acompanhei, sobretudo com as minhas irmãs-cunhadas Rita e Joana, a última batalha do meu sogro António, numa guerra desigual contra um cancro batoteiro e devastador, que ele travou, olhos nos olhos, com uma incrível dignidade e com uma impressionante vontade de viver sempre mais um dia.

'O avô vai de barco Pirata para o céu com chapéu com uma flor. Eu vou lá atrás a mandar bolas de canhão'. Foto: A Família Numerosa.

Em jeito de confidência, ou em jeito de acto de contrição, não sei bem, disse-me, a olhar embevecido para a sua barulhenta família, que soprava as velas do segundo aniversário da sua adorada neta Alice: ‘Eu fiz tanta asneira na vida, mas no final estão todos bem; ficou tudo bem’.

Senti um arrepio a percorrer-me o corpo como a chicotada de um esticão eléctrico porque senti o meu próprio pai a sussurrar-me confidências através das palavras do meu sogro.

Tudo assim continuará, essa é a nossa promessa.
E esse é também o vosso legado, Pais.


Mensagem dos anjos e aviso muito sério à porta do velório do meu sogro. Foto: A Família Numerosa.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Farrusca, the babysitter kitten

Não é só o Cenoura que é adorável com a pequena Isaura, parece dizer-nos a Farrusca. Foto: A Família Numerosa
Este é um post proibido a asmáticos. Este é também um post cheio de frio e cheio de ternura. Reza o mito urbano que os posts com gatinhos fazem furor na Internet. Os de bebés também têm algum sucesso, quanto sei.
Acho que vou rebentar a escala. Uma vez mais.

terça-feira, 17 de março de 2015

O Professor de Marketing -- isto não é um post comercial (mas estou babada com o convite da La Redoute)

Qual o segredo para ter uma família feliz? Andamos há muito a dizer que não há segredos ou fórmulas mágicas. Um dia de cada vez, bondade, sensatez e sermos fiéis a nós próprios. Coisas boas acontecerão. FOTO: A Família Numerosa.

Na minha primeira aula da faculdade, o adorável professor de Marketing (cujo nome não me recordo, que vergonha!) deu início às hostilidades, perguntando a cada um dos cerca de cem alunos que ali estavam alinhados cheios de sonhos e expectativas, bichos-carpinteiros e nervoso miudinho pela grande jornada que estava prestes a começar, por que raio ali estavam todos, com vista para a segunda circular, com ganas de aprender aquele ofício oculto da Publicidade e do Marketing.


Foi uma espécie de quebrar de gelo, de momento zero da vida académica depois das estúpidas praxes em que não pus os pés. Entre o terror, a timidez, a nervoseira, a gabarolice, os erros de casting e a total indiferença, um a um os companheiros daquela viagem, por enquanto perfeitos desconhecidos, mas cheios de boas intenções, simpatia e cadernos a cheirar a novo, revelaram-se o melhor que podiam ou sabiam ao responder àquela pergunta tão simples. E entre as frases feitas que o adorável professor de Marketing adorava (e usava amiúde como muletas do seu eloquente discurso aos pupilos), estava aquela de que só se tem uma tentativa para criar uma boa primeira impressão.

Alguns não tinham simplesmente o condão da oratória, outros responderam por monossílabos entredentes, um grupo de alunos foi politicamente correcto, houve naturalmente uma percentagem de lunáticos inconsequentes, coisa própria da idade, houve uns parvinhos, e dois ou três arrepiaram-nos e sacaram até palmas dos seus pares. Montou-se um circo. Ou uma feira de vaidades.

Sei que fiz uma espécie de brilharete quando chegou a minha vez, mesmo que tenha a perfeita noção, desde sempre, que sou muito melhor a escrever do que a falar, mesmo que a escrever pareça que estou a falar (confuso, não é?). Não consigo replicar o que debitei muito articuladamente, mas foi qualquer coisa assim, ou pelo menos assim o gravei efabulado na memória:

Eu fui para Publicidade e Marketing porque era o compromisso entre ter uma profissão e ser artista – e ter uma profissão era condição obrigatória para os filhos do artista boémio, que pelo seu (mau) exemplo destruiu qualquer hipótese de a sua descendência seguir as passadas de génio vagabundo do seu progenitor sem arriscar o degredo da desilusão de uma família inteira por mais um talento desperdiçado.

Fui para Publicidade e Marketing porque podia fazer uma série de outras coisas - e em todas seria boa, razoável, ou pelo menos acima da linha do sofrível –, mas escolhi a Publicidade porque gosto de fazer coisas bonitas, porque sou filha de um pintor e sei fazer bonecos, porque sonhava escrever poesia num slogan, mudar a vida de alguém com um copy bem esgalhado. Fui para Publicidade porque sou vaidosa, centrada e megalómana e é claro que fantasiava com a minha obra espalhada na rua, num outdoor que provocasse epifanias a condutores bloqueados no inferno do pára-arranca do trânsito, ou entrando em casa de todos, sem pedir licença, à hora do jantar, no bloco publicitário do telejornal ou da novela.

Fui para Publicidade e Marketing porque me atraía, sempre me atraiu, entender a psique dos consumidores naquele instante quase inconsciente que é o processo de decisão de uma compra – eu sempre quis ser mosca, entender o mundo todo a toda a hora.

Fui para Publicidade e Marketing também porque há marcas que trespassam a minha vida toda – mesmo antes de chegar à adolescência e morrer de desgosto por a minha mãe se recusar a comprar-me uns All Stars ou umas calças de ganga da Chevignon.

A La Redoute é uma dessas marcas: uma marca que entra cá em casa há quase três décadas, quando a venda por catálogo era vista com desconfiança e estava reservada a uma espécie de sociedade secreta, uma elite de destemidos que preferia arriscar uma troca ou devolução a uma procissão de lojas para a menina, para o menino, para o bebé, para a mãe, pai e avós. Nessa altura também não havia Internet e os computadores – por acaso havia um lá em casa, mas sei que éramos caso raro – tinham floppy disks e MS-DOS, pelo que compras à distância de um clique era apenas uma miragem, tipo ficção científica.

A chegada de um catálogo da LaRedoute a nossa casa era (é ainda) uma emoção descontrolada. Estranhamente, o meu avô Ralha era talvez o maior entusiasta, organizando a encomenda (creio que pagando-a também) e instigando os fervores consumistas da sua tribo e com uma especial predilecção por adquirir sapateiras para o seu roupeiro.

Sentávamo-nos à mesa redonda com o calhamaço (os primeiros catálogos para o mercado português eram pequenitos, como um teste de mercado), dobravam-se os cantinhos das páginas onde tínhamos morrido de amores por uma peça de roupa ou uma qualquer utilidade para o lar, e anotavam-se com muito cuidado as referências e preços na folha enviada para o efeito. Depois metia-se tudo no envelope RSF e vinha finalmente a espera e o crescendo de antecipação até à visita do carteiro que nunca bateu duas vezes, nem tão-pouco chegou entre as nove as dez cá no bairro de Alvalade.

Esta família era (e é) tão boa cliente da marca francesa que se instalou em Portugal, na cidade em que D. Dinis mandou plantar um pinhal, que até nos faziam chegar a casa os catálogos franceses, uma montra de produtos extraordinários e exclusivos à nossa disposição. Aí o ritual da compra incluía ver o câmbio do franco e treinar a matemática. A entrega era, naturalmente, um pouco mais demorada, mas valia a pena.

Devo à La Redoute o meu primeiro Babyliss e a loucura de uma pequenina máquina de costura que coseu grande parte dos retalhos da minha infância. O primeiro power suit que comprei, já estagiária jornalista, curiosamente a escrever sobre Publicidade e Marketing também veio do mítico catálogo. Entrevistei Luciano Benetton com ele no Chiado há tantos anos que até me dá vergonha de dizer. Há também umas sandálias que bateram muita manifestação da CGTP, quando o meu percurso de jornalista derivou para o jornalismo económico, e que morreram depois de uma greve geral algures no Chiado. E podia continuar, com a roupa de grávida, os conjuntos de recém-nascido do enxoval de cada um dos meus filhos, ou o carrinho das compras de oito rodas que galga escadas e buracos da calçada, e que a minha mãe utiliza de há uns vinte anos a esta parte…

É por isso quase comovente receber neste blogue um email da La Redoute a apresentar-me a sua nova colecção de Primavera para os miúdos. O Professor de Marketing se me visse hoje caía-lhe o queixo de espanto; soubesse ele o que eu já andei a fazer neste mundo das marcas, apesar de nunca ter feito aquele anúncio imaginado, que arrebataria todos os rugidos dos Leões em Cannes.

Somos velhas amigas, apetece-me isso à La Redoute, imaginando-lhe o sotaque parisiense: crescemos juntas, do envelope RSF para o número azul do call center, da operadora de telemarketing para a loja online, do catálogo em papel que adoro e vou sempre adorar para o prático window shopping no monitor do meu PC.

Fui para Publicidade e Marketing também por causa de marcas assim, que me lembram pessoas simpáticas, que evoluem e crescem comigo, e que sinto que vão estar sempre por aqui por este estranho mundo sempre em mudança.
Por isso, tirem o cavalinho da chuva se pensam que este é um post comercial. É o meu destino de marqueteira a cumprir-se. É um louvor público a uma marca que faz parte da história que vou contando por aqui e por ali.

Talvez seja também a minha primeira tentativa de ser um blogue de moda. Vamos ver se me safo.
Vou vestir os meus filhos de Primavera – e escolhi o dia perfeito. Talvez se opere um milagre tipo ‘dança da chuva’ ao contrário, e o astro-rei volte às nossas vidas, levando para longe o frio e a chuva.

Escolhi quatro looks da colecção da La Redoute, que até ao final do mês de Março oferece com descontos até aos 40 por cento e a preços muito simpáticos. 

Ora vejam lá se as manas quase-gémeas-com-19-meses-de-diferença, Aurora e Isaura, vão ficar de se comer, em pendant, com este conjunto intemporal de três peças (€29,99) :



A Carolina proibiu-me de comprar rendas e folhos, mas já estou a vê-la a ensaiar, no espelho da casa de banho, muitos milhares de selfies com beicinho bico de pato, com este vestido (€12,99), e em biquinhos dos pés com estas sabrinas de diva popstar (€13,99).
   

E porque o rapaz cá de casa provoca gargalhadas onde quer que vá, com a sua personalidade doce de doidivanas, a minha escolha para o António está nos antípodas das pirosas.Optei por umas vibrantes bermudas de muchacho louco (€14,99), que vou (des)combinar de forma feérica com tee-shirt de canídeo bem-posto (€7,49). Priceless!



Enquanto espero o carteiro e visualizo a sessão fotográfica que vou fazer, num relvado pontilhado de papoilas, margaças e pascoinhas (as imagens, essas privilegiadas, que nasceram em berço de ouro e valem mais do que mil palavras), vou continuar a pensar no professor de Marketing, para onde a vida ainda me há-de levar, e agradecer à La Redoute por ler este blog, por nos acarinhar e, sobretudo por ajudar a chamar a Primavera.

NR: O nome do professor era Madeira Correia. Como me pude esquecer? Dêem-me desconto (na roupa e não só): são quatro epidurais e muitos anos sem dormir as horas que devia. Obrigada, Professor!