Quem faz um blog fá-lo por gosto

sexta-feira, 8 de maio de 2015

A filha 'Test Drive'


Mãe, faz o test drive à vontade, que eu tenho o cinto de segurança apertado. FOTO: A Família Numerosa.

A Carolina é a minha filha 'test drive'.

A brilhante analogia não é minha: eu queixava-me da água na barba que ela, inexplicavelmente, me começara a dar de há um ano para cá, à conversa com uma amiga que levou com um rosário de ais só por ter tido a má sorte de me perguntar como estavam as coisas com a mais velha:

‘Ai, o que me haveria de calhar, ai que adolescência tão longa, ai, que ninguém merece, ai, logo agora quando eu ando para aqui num difícil equilibrismo em cima da corda bamba, a fazer acrobacias circenses com um bebé no colo, uma recém-nascida pendurada na mama e um puto charila com défice de concentração para acalmar e apoiar na complexa missão de aprender a ler e a escrever...’

E a minha amiga-guru Raquel Brinca alertou-me do alto da sua sabedoria serena: 'Cuidado, vai com calma, ela é a tua filha 'test drive''.

Junho de 2014 - A Carolina faz o 'test drive' de pegar ao colo na irmã Aurora. Saiu-se muito bem. Foto: A Família Numerosa
Franzi o sobrolho e, passado um segundo ou dois, abanei a cabeça para cima e para baixo em sinal afirmativo.
Depois comecei a gingar o pescoço para um lado e para o outro, em negação, cheiinha de culpa: ando aqui preocupada com os filhos-sanduíche, os entalados e nem parei para fazer essa óbvia reflexão. É com o filho mais velho que testamos tudo; é com a Carolina que pomos à prova que tipo de pais estamos e queremos ser. E, por vezes, mudamos de estratégia abruptamente, travamos a fundo, guinamos o volante, inversão de marcha, tracção às quatro rodas. E quando a viagem não nos leva ao destino que esperávamos, e pomos em causa o que achávamos serem verdades absolutas da parentalidade, lá está o filho 'test drive' no banco de trás, como um 'crash test dummy'.

Andamos aos apalpões, às cegas, a jogar ao quarto escuro com os filhos. É divertido, claro que é; é viciante o abismo de seguir em frente sem ter bem a certeza do que se encontrará no segundo a seguir: prego a fundo e depois venha o teste dos travões.

Mas às vezes atropelamos, amassamos, mandamos uma cotovelada ou um encontrão ao filho 'test drive'. Sem querer, sem maldade: são mesmo assim as regras do jogo. E o primeiro filho é o que sai com mais nódoas negras. Não há sistema de segurança que nos valha. No banco da frente ou no banco de trás: vamos testando tudo, ligando os faróis, tocando a buzina, vamo-nos habituando a conduzir os filhos. 

Andamos nisto sem mapa ou bussola. Com o filho mais velho é sempre uma primeira vez e vamos pela intuição. Navegar é preciso, mesmo que às vezes seja à deriva. à tentativa e ao erro.

Depois acontece o triste espectáculo de engatarmos a mesma mudança e cairmos no ridículo. Damos uma de saudosistas. Na verdade, nem é isso: estamos tão à rasca, sem saber o que fazer, para que lado virar o leme, que encarnamos os nossos pais (eles são o nosso maior exemplo, mesmo que o psicoterapeuta os culpe por todos os danos colaterais do seu amor).

E então, e sempre por oposição, sacamos da nossa infância, douramos a pílula e temos alucinações colectivas – que outra explicação se pode dar para justificar como éramos uns santinhos, meninas e meninos obedientes e cheias de respeito pelos mais velhos?

Enunciamos chorrilhos de lamúrias que jurámos nunca pronunciar: de como era difícil a vida, que não comíamos bolachas todos os dias, que a televisão só começava ao final da tarde e dava uns desenhos animados marados, que comíamos fígado e mão de vaca, ah e geralmente também nos dá para dizer que só tínhamos um par de sapatos.

Mãe, a avó disse-me que nunca comeste mão de vaca na vida! Foto: A Família Numerosa

A minha filha ‘test drive’ é uma boa miúda, e eu tenho que ir com calma, relaxar; a pressão nunca fez bem a ninguém a não ser à panela quando coze leguminosas, e que eu saiba, até mesmo a panela explode de vez em quando, entornando o caldo em proporções nunca antes imaginadas.

São só onze anos de idade, a vida toda à espera, e está bem que é a primeira vez a haver negativas nesta casa, a haver mentiras descaradas e com a perna mais curta que a minha, a haver portas fechadas, pudores e segredinho. Mas nada disso é o suficiente para vaticinar um futuro sombrio, um cadastro eterno a perseguir a filha 'test drive': são infracções ridículas face ao que ainda está para vir, face ao que todos nós, pais, fizemos, se formos a desembaciar bem a parede de vidro da memória.

Ela tem muitos primeiros. Mas só nos lembramos dos maus com o filho 'test drive' quando a amiga nos pergunta: 'como vai a mais velha?'. Primeiras vezes que foram só dela e também nossos, que ela nos entregou sem lhe termos pedido nada. Lembras-te? Foram dela os primeiros cincos nas pautas dos exames nacionais, a melhor aluna da escola, foram dela as primeiras lágrimas de orgulho, a pele a eriçar, quando ela começou a cantar com voz de anjo em frente a toda uma escola, sem lhe tremer a voz ou sem fechar os olhos de medo.

A excelência às vezes chateia, às vezes revolta, queremos ser iguais, deixar de sobressair. 
Eu sei bem, filha, como é, desculpa se só cobro nada mais do que a perfeição. Ao contrário do que eu te disse outro dia ao jantar não tem mal nenhum deixar cair o extra de extraordinário e ser vulgar, normalzinho, nem que seja só para perceber que não há nada tão bom como ser o primeiro.


E tu serás sempre a primeira (mesmo que estejas a meio de uma tabela, serás sempre a primeira). Isso ninguém, mas mesmo ninguém te tira, minha primeira filha.


segunda-feira, 4 de maio de 2015

Socorro, a minha filha tem um blog!*

'Continuas chamando-me assim: bebé!!!' [Ups, a mãe apanhou-me, mas eu vou vestir o tutu, pegar no bebé e chamar o cão, para o triple play de fofura, para ver se me safo desta!!!]


A realidade supera a ficção, dá-lhe uma tareia daquelas que não são feias, são só ridículas e indignas: daquelas que não metem sangue e suor, apenas arranhões e puxões de cabelos.

Está de chuva! Ai, como está de chuva. 
E consigo piorar a meteorologia do meu estado de espírito sofrendo sempre um bocadinho mais do que era preciso – tenho tanto fado em mim que às vezes até dói como o fardo pesado do xaile tecido de ais da fadista.

Deixem-me andar aqui às voltas, como o carrossel que a vida é.

As famílias numerosas têm sofás grandes. 
As mães e os pais das famílias numerosas sabem que um sofá grande é um bem de primeira necessidade, mas não têm, cumulativamente, liquidez para comprar um modelo topo de gama, com o tecido macio, ou a pele de pêssego da Alcântara, nem a ingenuidade de pensar que, com quatro crianças, três gatos de garras afiadas e um cão dorminhoco esse seja um investimento sensato, com dividendos incluídos (quando formos velhos logo compraremos cadeirões de pele ou chaise longues de veludo ou brocado. Ou não…)

As mães e os pais das famílias numerosas gostam de dormir no sofá grande, no gigantesco porta-aviões que todas as noites duplica de tamanho, porque, lá está: os filhotes das famílias numerosas seguem as pisadas dos pais e também têm um amor pelo objecto fetiche que domina toda a casa. E é justo que lá caibam. Para além disso, um sofá-cama tem algo de mágico (na verdade, temos dois sofás-cama; não lhes resistimos)

A verdade verdadinha é que as mães e os pais das famílias numerosas andam exaustos. E mal se encostam no sofá, mesmo que este não se trate de um portento do conforto, caem para o lado, desligam a ficha, over and out: resistem a pouco mais do que cinco minutos de um qualquer canal televisivo a roncar.

E porque o sono é coisa valiosa e rara para as mães e para os pais das famílias numerosas e também porque há dias em que convencer a tropa a ir para a cama dá cabo dos nervos e paciência dos chefes do batalhão, às vezes enraízam-se maus hábitos, ou melhor, instalam-se rotinas doces, de sofás-cama abertos, cheios de filhos de pijama e pezinhos gordos alinhados em escadinha.

Actualmente as mais novas adormecem no sofá com os pais, num cosleep de ternura e cafunés. Ao fim-de-semana costuma ser uma pijama party em família para não haver queixumes que as bebés têm mais direitos e mais amor.

Estávamos então os quatro, cada pai com sua bebé, num primeiro sono velado pelos programas surreais do canal A&E, esponjados no sofá-cama piroso, cor-de-rosa shock, quando, pelas duas da manhã, a mais pequenina deu os primeiros sinais de fome. Esse costuma ser o momento da romaria para os respectivos colchões e lençóis brancos, bordados há muitas décadas pela senhora minha mãe.

O ritual é sempre o mesmo: a Isaura começa lentamente a espreguiçar-se, a virar a cabeça de um lado para o outro, a fazer barulhinhos fofos tipo ultrassom, eu acordo, depois acordo o João, ele, acto contínuo, leva a Aurora inerte para a cama de grades, e depois vem buscar a pequenita mamífera, enquanto eu bebo um copo de leite na cozinha. Piloto automático. Todos os dias.

Mas desta vez liguei o telefone para ver as horas. E o mosaico do Windows Phone avisava-me que a minha grande amiga, acabada de ser mãe, me tinha enviado uma mensagem. Imaginei uma foto doce da minha sobrinha Sofia a fazer carinhas fofas de recém-nascido e não resisti espreitar.

Isto contado é melhor que vivido ainda com os olhos inchados e colados das ramelas.

Lá no Hospital, com a recém-nascida a dormir e uma subida de leite a aboborar, a minha amiga Mónica apanhou um susto, com um perfil de Facebook público cheio de fotos da minha filha mais velha. Fez uma captura de ecrã. Enviou-me: ‘Tens conhecimento disto?’

Não, não tinha. Fiquei congelada. O leite coalhou-me no estômago.

O perfil de Facebook autorizado pelos pais estava há muito de castigo, pelas más notas, pelas insolências e arrogância permanentes. Ingenuidade a nossa achar que o castigo seria acatado humilde e diligentemente até depois dos exames nacionais que estão à distância de duas semanas, e que uma lição baixaria sob a sua cabeça loira com a pontaria de uma indesejada caganita de pássaro.

Toddlers & Tiaras [e contas secretas de Facebook e Instagram]

Talvez seja o desenrascanço português, a mera chico-espertice, o achar que o pai natal não existe e que, por isso, os pais não têm super-poderes. Ou talvez seja, nada mais do que a adolescência em efervescência. Pois é, minha menina, mas as mães são criaturas sobrenaturais. Mesmo que tenham que ter ajuda de outras mães, acabadas de parir, pela madrugada fora, a partir de um internamento de um hospital, as mães são implacáveis [Obrigada, Mónica!]. 
Que te sirva de lição! [Não servirá... E o pior está ainda para vir...]

Foi simples e, durante um par de meses, rendeu: criou-se outro perfil, com outro nome artístico, com outro email, e se o smartphone foi confiscado, o obsoleto Magalhães desenrascou o aperto.

Não mais preguei olho – apesar de a Isaura hoje até ter dormido quatro horinhas na sua cama, feito inédito (a vida, sempre gozona...)

Tudo público, tudo com georreferenciação, fotos dela, fotos da escola, fotos dela, fotos das amigas, fotos dela com as amigas, com os irmãos, com o cão, com o gato, a ir de férias, no jardim, no recreio, hashtags, violetas, muita ingenuidade, chain letters, páginas de fãs, e frases de auto ajuda da Chiado editora trocadas com as amigas já dentro dos lençóis para não serem catadas. E o horror total, o de ter dado vagamente a sua morada a uma suposta menina com o sugestivo nick de ‘Panca Dele’.

Hoje já descobri uma conta de Instagram.
Já mudei definições de privacidade e alterei passwords. Já chorei a rir e tive dores de barriga de medo.

E agora? Eu que tenho este blogue-diário e a página de Facebook das nossas peripécias, como lhe posso fazer ver que isto é coisa séria e até perigosa?


*Ela tem mesmo um blog, do meu conhecimento, e com o meu apoio. É - e se quiser será - uma grande escritora.


domingo, 3 de maio de 2015

Dia da Mãe , Dia da Tia

'Sou mãe. Qual é o teu super-poder?' (ps- super-mom in love with wonder dad).
O colar é lindo da Peace's Closet. No kryptonite allowed in this house.

Voltou a acontecer - ontem ao final do dia (meu Deus e que dia maravilhoso, com direito ida em família à piscina, almoço de cachupada em família, seguido de um pezinho na praia, com mergulhos, perninhas de bebé croquete e escaldão no nariz), lá passeava eu a minha calma displicente, driblando a barulheira infernal que quatro putos conseguem fazer, quando uma alma caridosa me alertou, de forma muito simpática e sem ferir quaisquer susceptibilidades, ou duvidando da minha sanidade mental, que hoje seria Dia da Mãe.

Isto há-de melhorar. Espero...
Já perguntei ao meu médico de família se existe a possibilidade de estarmos a assistir aos primeiros sinais de alarme de uma demência a instalar-se calmamente na ternura dos meus trintas, se não será melhor enfiar a moleirinha no tubo da TAC, fazendo figas para que tudo esteja direitinho. 

Ele ri-se e garante-me que não há razões para receios, que ando trocada por estar sob o efeito de drogas poderosíssimas: tresando a oxitocina - a hormona do amor - e, de par de horas em par de horas, ponho a mama ao léu, e lá me ponho a fazer prova de esguicho, a bombar prolactina onde quer que esteja. 

Ainda há a questão do sono, ou melhor da falta dele, daquele retemperador, o profundo, esse que é já uma lembrança longínqua da qual tenho saudade infinita, que já me aparece à frente dos olhos como um delírio febril, uma miragem depois de uma longa e doce tortura de sono. Podia ainda acrescentar o mito das anestesias epidurais sobre a memória. sobre mecanismos tão simples como aceder de forma ordeira ao reservatório das palavras e vocábulos para depois construir frases com sentido. 

Às vezes falha tudo: aniversários, efemérides, compromissos (e também sou perita em overbookings não deliberados as minhas desculpas desde já a quem já sofreu na pele o meu despassaranço). O modo sobrevivência não liga a convenções sociais deste tipo. Andamos a mínimos olímpicos, mas estamos nas olimpíadas: isso já ninguém nos tira.

Foi por isso que nem estranhei descobrir, a poucas horas da celebração, que era Dia da Mãe e eu nada tinha para sacar da cartola. Sem drama algum, desta vez, porque todos os dias da minha vida são Dias da Mãe, e todos os santos dias recebo presentes dos meus filhos (eles podem não saber disso, mas um dos meus super-poderes de mãe é uma visão que vê o invisível). 

Depois de dez mil tentativas esta é a melhor foto do Dia da Mãe. Há sempre alguém com cara de parvo. Há sempre alguém de olhos fechados. Há sempre alguém fora de foco.

E também talvez porque venho de uma família reaccionária de direita e porque dia em que passei de menina-tonta a mulher-mãe foi naquele feriado de Dezembro, o da Padroeira de Portugal, o do antigo Dia da Mãe antes de as convenções consumistas o terem reagendado para Maio. 

Também porque sim, só porque sim, porque também tenho um certo prazer em ser do contra, de defender o indefensável, hoje pode ter sido Dia da Mãe, mas cá em casa também foi Dia da Tia.

Ser tia é uma bênção maior. É poder nunca dizer que não. É conceder todos os desejos e as loucuras que só uma criança poderia conceber. É estragar de mimos, é ter compaixão e paciência infinitas. 

É injusto para os filhos o amor que os pais têm aos sobrinhos. Ontem fomos à praia, fizemos pizza, comemos pipocas, bebemos groselha, pintámos os lábios de chocolate, fizemos penteados, pinturas de festa, até as nails fizemos, e depois ainda desencantámos dos baús os, fatos de princesa e de fada. Foi assim até ao adormecer, todos extenuados de amor. Só pelos filhos e só pelos sobrinhos eu me proponho a dispender de forças para tamanhas super-produções.

Acordei cedo ainda assim, na ressaca de uma festa pijama de primos. A casa toda em silêncio, aquela paz a que eu assisto deliciada com medo da sua fragilidade. Cheguei à sala, um sofá-cama cheio de primos destapados, semeados desordeiramente por entre almofadas e peluches. A máquina do café bufava, os gatos roçavam-se por entre as minhas pernas suplicando a sua saqueta Whiskas diária, quando uma voz fininha disse: 'tiaaaaa'.

Há muito tempo que a primeira palavra do dia não era mãe.
Hoje também por isso foi Dia das Tias.

Apresso este post porque quero voar até a uma Maternidade de Lisboa beijar uma mãe, uma amiga de sempre e para sempre.
E fazer juras de amor eterno a uma sobrinha pequenina, rechonchuda, perfeita, linda: a Sofia.

PS - A minha mãe é a mais linda!

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Feicebuque

Caiam para o lado, vão a correr fazer filhos. Não se aguenta #superaareeiro FOTO: A Família Numerosa.


Enquanto o Superman desta família não arranja o template à Wonderwoman que vos escreve - já imagino este blog todo quitado, como aqueles de primeira linha -, venho aqui muito rapidamente dizer-vos que esta família já está no Facebook.

Aqui.

(A Isaurinha foi hoje inaugurar a Piscina do Areeiro da minha infância. Com um pacote especial para famílias numerosas estamos completamente fãs)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

29 de Abril

Foto: Diana Quintela. O Photomaton do casamento da Estrela e as mãos da minha madrinha Thê


As roseiras de Santa Teresinha estavam em flor, a abraçar um dos portões do Jardim da Estrela.
Aqui na sala, onde escrevo, o botão de rosa que roubei de um logradouro do Bairro de Alvalade traz-me o perfume de um amor perfeito: o meu e o do João.

À hora marcada, há nove anos, conhecíamo-nos finalmente debaixo das rosas de Santa Teresinha. Ele era o leitor número 50.000, o número da sorte em que pus todas as fichas do meu destino.
Era tudo ou era nada.

Ele trazia uma tee-shirt pingona, conta-me vezes a fio que nem se deu ao trabalho de fazer a barba, que vinha despenteado. Apresentou-se-me tal e qual como era - cartas todas na mesa, nada a esconder, sem floreados a não ser aqueles do portão da Estrela onde marcámos o encontro.
Na mão trazia um presente. Não era para mim. Era para a minha filha Carolina, um Noddy, o seu amado Noddy.

Abram alas para o Noddy e para um grande amor. Foto: A Família Numerosa.

Sim, ele apresentou-se tal e qual como era: perfeito. Os mais cínicos chamar-me-iam à razão, poriam em causa o meu deslumbramento. Mas eu soube logo que ele era um anjo. Não me recordo da barba por fazer e o dress code também não era relevante para o caso - os anjos reluzem e basta. Só me recordo do guizo do chapéu do Noddy de peluche que ele trouxe para a Carolina a tilitar, como quem anuncia uma boa ventura.

O post de ontem era sobre dentes e dentistas. Sobre amizades improváveis e sobre o amor incondicional, à prova de qualquer defeito ou assimetria.

Colgate loves Pepsodent. Amor para Sempre. Foto: A Família Numerosa.

Há nove anos conhecíamo-nos finalmente, com a bênção de Santa Teresinha, no Jardim da Estrela, e nunca mais nos apartámos um do outro. Nunca mais. Começámos a a viver juntos a partir desse mesmo dia e a mudança dos tarecos do João para a minha casa foi a coisa mais natural e simples: dois pares de calças, três ou quatro tee-shirts, uma escova de dentes. Escassos dias depois dessa feliz coincidência que o Universo decidiu engendrar eu partilhei no meu blog esta foto, de duas escovas de dentes enamoradas. Era o fim da solidão das nossas vidas.

29 de Abril é para nós o dia em que o amor venceu.
É o dia de todas as improbabilidades e de todas as coincidências.
Dia 29 de Abril é o dia mais feliz.

O Marquês e a Marquesa pelas ruelas de Alfama, a caminho do copo de água. Foto: Não sei bem de quem.

[Há oito anos casámo-nos no Coreto do Jardim da Estrela, num contrato selado com pétalas de rosas de Santa Teresinha e algumas formalidades burocráticas. Voltámos a apostar tudo o que temos e em frente a todos os nossos amigos e família. É coisa séria o que temos; é a fortuna do amor; é a lotaria da vida que já nos deu mais do que pensávamos que fosse possível. Nem tudo são rosas apadrinhadas por santas e contos de fadas. Há oito anos vi o meu pai pela última vez. Escassos e breves instantes antes de me casar. Ele disse-me: 'Estás tão bonita'. Foi a última coisa que me disse.]

terça-feira, 28 de abril de 2015

A Fada dos Dentes (e um fenómeno do Entroncamento)


Este post nãoé patrocinado pelo Lidl, mas adoramos estes gelados e as suas caixas que depois guardam Legos, cartas de Invizimalz e bolachas FOTO: A Família Numerosa

Não foi uma estreia: esta família é pródiga em acontecimentos odontológicos paranormais. Não tendo sido inédito foi o quanto baste para eu me sentir a pior mãe do mundo.

Mas recuemos no tempo – apertem o cinto de segurança: esta história vai andar para trás e para a frente; é um recurso estilístico recorrente e hoje, passados estes dias todos de pousio, quero demorar-me neste quintal, quero revolver bem esta terra, para depois, com um pouco de sorte e com todo o trabalho árduo que, só quem ousou plantar um jardim sabe do que falo, possa colher os frutos desta sementeira.

Não foi novidade, já vos disse e volto à mesma tecla. Uma das primeiras vezes que me senti o centro do mundo no mau sentido foi numa cadeira de dentista. Mas esse foi também o princípio de uma grande amizade. Uma amizade improvável. É que fiz uma amiga à prova de alicates, brocas, seringas com anestésicos capazes de me adormecer o nariz empinado. E coisa mais preciosa não há. Nunca fomos ao café, como fazem os amigos, nunca nos vimos sem ela estar de bata branca. A nossa relação nasceu numa cadeira articulada de um dentista e envolveu luvas de borracha e instrumentos esterilizados.

Foi a única vez que fiz uma amiga de boca aberta, mas sem dizer um pio. E isso é obra.

Arrancou-me doze dentes no total, desvitalizou-me outros tantos, riu e chorou com as minhas histórias mirabolantes e eventos extraordinários, viu-me crescer, passar fases boas e fases terríveis. Era talvez um pouco mais velha que eu, nada de muito relevante: a verdade é que quando somos novos não reparamos nessa coisa da idade, mas a meio de um tratamento qualquer, dos milhentos a que me submeti naquele gabinetezito à Praça de Espanha, vi-a crescer e a tornar-se mãe como eu. Éramos da mesma geração.

A cada desaire, a cada tragédia pessoal assistiu-me a ir ao fundo e a voltar com o fôlego sôfrego à superfície. Viu-me a ganhar peso e a quase nunca conseguir perdê-lo na totalidade. Conheceu-me solteira, Lolita encantadora de dentes encavalitados, a espalhar charme a meio mundo e depois, de um momento para o outro, já com titânio colado aos dentes e elásticos cor-de-rosa a alinharem o sorriso, viu-me mãe solteira e a sofrer com isso. Conheceu dois dos meus filhos e chegou a tratar-me cáries com um bebé agarrado à mama. Sei que ficou feliz e aliviada quando percebeu que o João não era efabulação, que existia mesmo, que não era um amigo imaginário, um delírio meu, e branqueou-me o sorriso, para condizer com o vestido do meu casamento, há quase oito anos.

Ela endireitou-me não só os dentes mas a vida também. O nome dela era Sofia, Sofia Margarido. Sei que, neste momento, onde quer que esteja, está a rir à gargalhada com o que eu me fui lembrar. Mas eu nunca a esquecerei.

Foi há uma vida que nos conhecemos. Conhecemo-nos aleatoriamente, arranjinho do bom do destino.
Ali estava eu com as mandíbulas abertas e totalmente expostas, dentes em gigantesco desalinho e apinhamento, sem grande dignidade, diga-se, porque ninguém mantém a compostura na cadeira do dentista, com tanta gengiva e tanta saliva à mostra.

Hirta e desconfortável, incapaz de balbuciar fosse o que fosse de forma perceptível, encontrei-a numa primeira consulta com uma jovem dentista que tinha acordo com o seguro de saúde que o meu antigo patrão, o rei dos supermercados e dos jornais de referência, oferecia a todos quantos trazia para a grande família Sonae.

E, de repente, chega o RX tirado minutos antes, acende-se a luz fluorescente para ver o state of the art da cremalheira da jovem de pouco mais de vinte aninhos e vem o silêncio, alguns hmmm, a cabeça da jovem dentista inclinada para a direita e depois para a esquerda, o RX arrancado da caixa de luz, eu de boca aberta com o aspirador de baba a um cantinho, e a dentista: ‘é só um bocadinho, vou só ali a um gabinete mostrar o seu RX’.

Começou o burburinho. Seguiu-se uma peregrinação ao pequeno consultório com porta de fole. Vieram de muitos gabinetes, em romaria, contar os dentes revelados em chapa por uma carga catita de radiação. Eu lá continuei de boca aberta sem perceber o que me acabara de acontecer.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito. Era muito juízo junto em tão tenra idade. A chapa do RX revelou um totoloto de dentes do siso. Eram oito, mais quatro do que a maioria da gente que ainda se dá ao trabalho de parir estes dentes sem sentido.

Foi assim que nos conhecemos. Uma espécie de fenómeno do Entroncamento dos estomatologistas. Uma protegida da Fada dos Dentes. Um horror para os seguros de saúde.

Hoje tenho menos quatro dentes do que era suposto, tantos quantos foram necessários para poder ter uma boca e um sorriso arrumadinho. As arrumações têm sempre que começar por algum lado e na minha vida começámos por ali.

Já não tenho dentes em cima uns dos outros – guardo o molde em gesso para relembrar esses tempos em desalinho. Trago o peso na consciência de ter renegado uma característica genética do meu pai, que me unia a ele e aos meus três irmãos: os dentes encavalitados (agarro-me ao meu canino rilhão). E tal como uma pessoa que foi muito tempo gorda e depois emagreceu metade da pessoa que os seus pés sustinham, às vezes ainda não me reconheço.

Tal como um filho da terra que dela parte à procura de alguma coisa, também os meus dentes se sentem apátridas onde foram metidos à força e andam sempre com ganas de voltar ao sítio onde foram felizes. Parto o aro metálico de contenção do sorriso milimetricamente planeado a comer um entrecosto, ou uma broa de milho e tenho que ir de imediato repô-lo. Porque sem amarras, eles nem estão de modos: vão sempre regressar a casa. O que nasce torto…


Adiante.
Tive um molar temperamental que a cada filho parido decidiu juntar um ‘t’ ao verbo parir, partindo-se (dentes brincando com as palavras, que delícia).
A Sofia domou esse molar com tendências suicidas das duas primeiras vezes com arte e mestria – amálgamas perfeitas, danos escondidos em jeito de escultura.
Tinha a Aurora bebé quando o teimoso molar se estilhaçou de novo. 
Cada filho cada dente - e eu sempre a esquecer-me do cheque dentista do SNS. Estava a tomar café na Avenida de Roma - junto à linha do comboio. Voltei aos provérbios e optei por não deixar para amanhã o que podia muito bem ser feito naquele hoje.
 Da esplanada para uma torre de telemóvel, dali para o consultório, e já a imaginar a cara da Sofia quando lhe mostrasse a surpresa muito morena que lhe traria.

Do outro lado da chamada, a Sandra, a recepcionista que (re)conheço há uma vida, fez o melhor que pôde e o incómodo era audível pelo meu tímpano, que ferveu de imediato. Ninguém devia ser obrigado a dar uma notícia destas pelo telefone e a Sandra já teve de o fazer vezes e vezes sem conta… 
A minha amiga morreu.
Eu tive outro filho.
O meu molar não resistiu. Arranquei-o a semana passada.
Tentei, mas não consegui voltar à Praça de Espanha, onde a minha amiga Sofia descobriu que eu tinha juízo a dobrar, pelo menos a acreditar na sabedoria popular.


Temos muitas formas de caminhar por esta vida. A minha não é mais nem menos válida que a vossa, que a do meu vizinho ou mesmo que a do meu marido, aqui ao meu lado, o único ser com quem consigo trabalhar em equipa, a criatura que tem o condão de revelar o melhor que há em mim e de o multiplicar por duas criaturas loiras e duas criaturas escuras, com quem partilho tanta coisa, quase tudo menos a maneira como vejo o grande plano desta vida, a metáfora perfeita de que sentido terá ela.
Eu sinto que esta vida anda toda entrelaçada. É coisa de crocheteira, de quem, na infância, ajudou a mãe a desenredar muitas meadas de lã eriçadas umas nas outras, num Mikado diabólico. Era preferível se fosse um tear: tudo certinho, linhas certas onde não se conseguiria escrever o destino torto.
Mas não é bem assim e eu vejo a minha vida toda como uma meada de uma lã grossa de uma cor muito vibrante, como um magenta, que se enredou com outras meadas de muitas cores, de muitas fibras, umas ásperas, outras macias, umas finíssimas como uma teia de aranha, outras fortes como um cabo de aço. E para todas elas, para todas as vidas, há uma saída desse turbilhão de fios. Por vezes, o emaranhado foi deliberado, mas outras houve em que pode ter sido apenas um gato brincalhão deliciado com um novelo a amarfanhar todos os fios-destinos das marionetas que somos todos nós. Há sempre mais do que uma saída, mais ou menos atribulada, mexendo em mais ou menos fios, abraçando-os, tropeçando neles, armando mais confusão ainda, chegando a bom-porto sozinho ou acompanhado.

Não estaria onde estou se não tivesse oito dentes do siso. E apesar dela já cá não estar neste mundo, foi graças à Sofia Margarido que posso hoje escrever esta história – fui ali buscar o seu novelo e comecei a tricotar esta história (há muitos fios para rematar, espero não deixar cair uma malha que desabe toda esta história.)

É graças à Sofia que conheço outra dentista que trata do sorriso dos meus filhos. Elas nem se conhecem, acredito que isto esteja sempre a acontecer entre médicos – recomendam-se mutuamente sem grandes conhecimentos a não ser o da reputação que os precede.

Como disse: não me deveria ter chocado assim tanto. A Carolina começou com o fado da mandíbula aos seis anitos, quando fui para uma consulta de rotina e a Dra. Joana Farto me fez ver que a rapariga não conseguia fechar a boca porque os seus maxilares não lho permitiam. Seguiram-se dois anos de consultas mensais e de amizade a cada apertão de um aparelho chato que foi a tempo de resolver a grande parte do problema.

Não foi portanto a primeira vez que me senti uma péssima mãe. A Carolina não fechava a boca e não cuidei de reparar. E assim como assim, vamos ao dentista em excusrão,à clínica futurista da Dra. Joana e do marido, no meio do campo e só por isto já nos sentimos num filme de ficção científica, na twilight zone entre a broca, a tecnologia de ponta, as diversas especialidades e as ovelhas e o eucaliptal do vizinho.

Entrámos e disse à Dra. Joana Farto: “Doutora, o António está como os tubarões, não lhe caem os dentes de leite por nada e estão a nascer atrás os definitivos”.
Achei que ia ter imensa graça, que a história ficaria por aqui, o alicate puxava o de leite e o definitivo avançava. Até daí a seis meses.
Mas então a Doutora Joana Farto diz: ‘Rico filho, está tão mal acabadinho! Então e os pais já contaram os dentes do miúdo?’

(Foi a segunda vez que um médico me falou dos acabamentos do querubim. À nascença foram os dedos dos pés e os desabafos do corpo clínico: ‘pelo menos não é uma menina…)’

Eu respondi: ‘Sim, tem duas filas de dentes, os de leite e os definitivos. Foi por isso que cá viemos!’

Façamos um à parte: o meu filho é perfeito. Partiu os dentes da frente com 18 meses, e a cada trambolhão foi encavalitando ainda mais a dentadura. Aos dois anos ganhou uma cicatriz no canto do olho num acidente idiota, que me valeu uma semana de choro de Madalena (a Aurora abriu o lábio e já não levou nem uma gotinha, nem uma lágrima para amostra; estou um couraçado!). À parte os dedos dos pés, o António é perfeito, com as suas pestanas de ouro, a sua covinha na bochecha, a sua pele branca como o leite.

Menino de oiro da sua mãe. FOTO: A Família Numerosa
‘Ò Mãe, o seu filho tem três dentes da frente. Três incisivos! Nunca reparou?’

Já repararam que não se vende Pepsodent cá no burgo, mas ainda usamos a expressão 'sorriso Pepsodent'?

Um, dois, três incisivos. É isto. A Fada dos Dentes pode arranjar um saco-cama cá para casa. Foto: A Família Numerosa


Não, nunca reparámos. Ninguém reparou. Um, dois, três. Três dentes da frente, bem à frente, e não reparámos; ele é perfeito: é o meu menino de ouro que me faz sempre rir, que está sempre a rir, que importa que tenha um dente a mais.
Um fenómeno do Entroncamento. 
Uma mãe galinha com alguns genes de coruja míope que não contou os dentes à sua cria, que nunca foi boa de contas e por isso nem deu conta tão gritante assimetria. Uma dor de cabeça para a Fada dos Dentes que em tempos de crise vê-se na contingência de ter que aumentar o orçamento para deixar a sua magia debaixo da almofada do tubarão Ralha. Já sem para falar que, com tanto dente que vai ter que vir cá buscar, mais valia montar aqui a barraquinha, montar uma sucursal ou coisa que o valha.


Uma história que se podia resumir a dez palavras – o António tem três dentes à frente e ninguém reparou– mas que andou aqui às voltas, às voltas, retirada do turbilhão de linhas cruzadas que é a nossa vida.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Uma gata, quatro mini-contos

Esta não é uma história monocromática, a preto e branco: esta é a história da gata que fazia 'pandan' com o chão da casa de banho e que todos os dias aquecia a saída de banho para a sua dona (para depois, ir ela própria dormir uma soneca na banheira aquecida pela água do duche).

Esta é a história da gata, que mesmo na corda bamba, nunca perdia a pose
Esta é a história da gata equilibrista que sonhava com as gaivotas do Tejo, lá ao fundo da janela...

Esta é a história da gata fashionista que ajudava a dona a escolher o outfit todas as manhãs.