Quem faz um blog fá-lo por gosto

domingo, 12 de julho de 2015

O berço (de ouro) e os lençóis (mágicos)

O Bambi chegou ao sítio onde era esperado. Parece de propósito, mas não foi.

Mais uma vez as voltas, melhor, as piruetas acrobáticas que a vida dá. Os caminhos que andam separados, se calhar lado-a-lado mas sem nunca se cruzarem, até que, a certa altura, chegam ao mesmo tempo ao xis do mapa do tesouro, o local onde sempre foram esperados.
Os lençóis velhos de bebé vieram de férias para a casa de campo. Fizeram 300 quilómetros à boleia de uma carrinha de sete lugares com um problema de sobreaquecimento do motor para, por milagre, se virem emparelhar-se com o berço achado no Olx.
Fomos em procissão, num dia muito quente de Verão, buscar o berço para a menina Isaura, andava ela às voltas no meu ventre, pequenina, e andámos também nós em ésses à procura de uma quinta sublime, barricada por um bairro social às portas de Lisboa.
A empregada / caseira recebeu três notas de vinte euros e deixou um lamúrio sentido na passagem de testemunho daquela peça de mobiliário, há muito esquecida no sótão: 'Criei todos os netos da senhora nesta cama... Eles já são crescidos, andam a acabar os estudos, e depois devem querer coisas novas..."
Depois do queixume, a empregada / caseira deu a sua bênção de aprovação: "Deus abençoe a vossa menina!"
Esta é a história de como o berço dos oito netos da senhora veio embalar os sonhos da Isaura. E como, cumprindo o seu destino, veio encontrar, numa quinta às portas de São Pedro do Sul, uns lençóis velhos que sempre lhe estiveram destinados.
A bênção resultou.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

David Clifford

A última foto publicada pelo meu amigo David Clifford. Um dia de chuva não mata a Primavera

O tema é batido, é recorrente neste diário de bordo d’A Família Numerosa: volto uma e outra vez, tantas quanto forem necessárias, até já perder a conta, para falar do ofício da felicidade.

 Dá tanto trabalho ser feliz.

Gostava de conseguir desenhar num mapa, ou pelo menos num rascunho, todo o caminho que tive que percorrer para aqui chegar.

Por vezes tento aceder a partes já muito longínquas da memória para escrever numa cábula encriptada, à prova de todo o esquecimento, todas as peripécias em que me meti, todos os atalhos que encontrei, todos os buracos onde me enfiei e me esfolei forte e feio, todas as escapatórias impossíveis que planeei, em desespero, e que, por acaso, tiveram sucesso. Até agora tiveram sucesso. Tanta sorte. Tanta audácia, que anda sempre ao lado da sorte.

Gostava de conseguir fazer um desenho. Com cores garridas. Da minha pequenina Odisseia.

E neste processo de andar sempre em fuga, a recusar o caminho mais fácil, mas por vezes sem conseguir resistir-lhe, neste turbilhão de urgência e falta de fôlego, à procura do destino que era o meu por direito, mas cuja porta de entrada triunfal eu não conseguia encontrar, eu queria nunca esquecer todas as ajudas que eu tive para aqui chegar.

Algumas, muitas vezes, quando tudo me parecia perdido, eu fui sempre salva. Às vezes, à última da hora, quando estava por um fio. Outras, lentamente, com paciência. Umas vezes foi pelos amigos de sempre, aqueles, poucos, que ficarão até à velhice. Outras, foi por amigos improváveis, efémeros, mas eternos, personagens aparentemente secudárias e que, no entanto, mudaram o curso dos acontecimentos.


Este blog é luz pura, branca, morna: é tudo o que eu nunca supus que pudesse ser possível para esta vida. Mas como em todas as histórias que nos prendem desde o início até ao fim, para cada herói há um vilão. Do outro lado da felicidade está a tristeza. A escuridão é a luz virada do avesso.

Não há como fugir; esta é uma lei tão velha como o mundo. É por causa dela que o mundo não pára de girar. Lado a lado com este blog tão feliz está um outro, tão triste e negro. Esse diário dos dias tristes é, na verdade, a ponte de cordas sobre o precipício que eu atravessei, insensata e cheia de fé, até aqui, a este lugar tão alto, onde vejo tudo e sinto tudo à flor da pele, com vista sob o paraíso.

Hoje, aqui neste texto para memória futura, faço a fusão dos meus dois diários. Hoje não estou feliz, estou devastada, continuo destroçada pela notícia que me chegou há duas semanas e dois dias, pelo telefone. Mas escolho este blog cheio de luz para fazer o meu luto.

“Estás a conduzir? Pára o carro e liga-me.”
Quatro piscas, encostada à paragem do 44 na Avenida Rio de Janeiro.
“O David morreu.”

O meu amigo David Clifford morreu.

Este blog é luz, e o outro é a ausência dela. É, quanto muito, o diário de bordo da aventura à procura da felicidade, com uma miragem, com um vislumbre de claridade de vez em quando, como uma estrela do Norte, que consegue furar uma noite carregada de nuvens.

Hoje este blog cheio de luz veste-se de preto por um instante para vos contar a história de um personagem incrível da história da minha vida, um homem bondoso, um ser humano extraordinário, inesquecível, que detonou uma bomba na vida de tantos que lhe queriam bem, que o queriam tanto, com a sua inesperada partida.

Se eu conseguisse desenhar um mapa, se ao menos eu conseguisse parir um gatafunho qualquer que vos ilustrasse como este homem me empurrou quase à força para o trilho certo desta maratona. E fê-lo a cantar. Fê-lo a cantar ao meu lado. A cantar comigo. Fê-lo muitas vezes em inglês, a língua em que fica sempre tudo bem, em que se evitam equívocos e mal-entendidos. A língua que esconde menos que aquela em que tento explicar como me dói que a história continue e que ele não volte mais.


É tão raro encontrar a nossa voz-metade algures nesta vida.
Tive uns ameaços antes. E uns falso-alarme depois.
Mas o David era a minha voz-metade. 

Se eu fechar os olhos – agarro-me a este truque várias vezes ao dia – consigo ouvi-lo.
E se eu conseguisse rebobinar todos os momentos em que senti o coração a explodir de felicidade, tipo bomba-relógio, se os passasse em fast forward, gostava de me demorar e de mostrar a todo o mundo, aquele em que, um dia, cantámos uma grande canção juntos, e acabámos os últimos compassos abraçados, como que agradecendo a eternidade daquele momento.

Eu sempre guiei a minha vida por sinais.

Pode ser loucura pura, podem ser sinapses aleatórias, infundadas em evidências científicas, clarões, tempestades na minha cabeça, peças de um puzzle imaginado. Mas eu sempre me dei bem com esta maneira peculiar de tomar decisões importantes para a minha vida.

Devia ter estado mais atenta. Que me fique essa lição, de estar sempre atenta, de nunca me distrair. Nada mas mesmo nada acontece por acaso e eu devia saber isso melhor do que ninguém.

A música, a one hit da banda pop gótico, que passou na rádio. O orgulho desmedido de ouvir a minha filha mais velha a cantar para a escola toda com voz de anjo e dizer-lhe, no final do dueto que cantou com o amigo Bernardo: ‘Filha, tens tanta sorte de teres encontrado a tua voz-metade com onze anos. Eu só encontrei a minha já tu tinhas nascido.’

Eras tu, David. Eras tu. Era de ti que eu falava e nem disse à Carolina o teu nome.

A mensagem que ficou perdida e sem resposta no meio de spam:

‘Liga-me. Preciso do teu insight’.
A última coisa que lhe escrevi: ‘Não se esquece nunca com quem cantámos uma grande canção. You’re my immortal friend’.


Não te esqueço, David Clifford. 
Essa é a minha promessa. E fica por escrito. You’re my imortal friend. Fica em inglês também. Como tu gostavas.

Perdoa-me. 
Vou continuar a trabalhar sem parar, sem desculpas, para nunca me desviar para o caminho que, sem a tua ajuda, não teria encontrado. 
Tu és personagem principal de muitas vidas. Se alguém, com mais jeito que eu para o desenho, conseguisse fazer um mapa, veríamos como está tudo ligado, como conseguiste entrelaçar tantas coisas que estavam emaranhadas com nós cego, que ninguém tinha pachorra para desatar. 
Talvez tenha sido essa a tua missão, talvez seja esse o teu legado. 
Pelo caminho deslumbraste tudo, com o teu génio e com o teu trato irrepetível e único. 
Que bênção ter podido cantar contigo. Que bênção ter-te sempre na minha vida. 


Podem conhecer o trabalho fotográfico do David Cliffford.
Aqui 

Dentro em breve regressarei com mais novidades sobre o merecido tributo ao génio do meu amigo David.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Só me arrependo dos filhos que não vou poder ter*


Antes e Depois.
A Fada dos Dentes e o aumento do custo de vida: cada dente uma nota de 5 euros. Sem recibo.

A Família Numerosa fez de mim uma Nadia Comaneci da ginástica orçamental, apesar do meu generoso perímetro abdominal e de anca poderem indiciar pouca ou nenhuma mestria para a arte. Quem vê coxas não vê encargos financeiros e, acreditem ou não, eu sempre sonhei ser como a Nadia. Venha de lá então a medalha Olímpica, o registo perfeito inscrito em todos os cartões: 10.0

Os meus filhos não reparam neste treino de alta competição diário e nem mesmo os mais velhos, que ainda viveram com vacas bem gorduchas e que, ao contrário de mim, são barras a Matemática, percebem que os pais passam a vida a fazer muitas contas à vida. 
E nunca são contas de somar ou as complexas multiplicações; são sempre ábacos com subtrações e muitas divisões. Mas, mesmo com o resto zero na conta, nunca passamos aos negativos. Nada mau.

Foi nessa qualidade, de mãe-galinha poupadinha, que ontem tive um encontro imediato com uma alma desalentada. Apetece-me até benzer-me ao recordar o episódio. Mas há-de haver, no final da história, um ensinamento, uma lição a reter. Em tudo há e, geralmente, até mais nas coisas desagradáveis do que naquelas que nos correm de feição.

Corria eu os varões de uma bendita loja de roupa em segunda mão, de onde sou habitué com cartão de fidelização e enorme capital de simpatia pelo enquadramento familiar insólito para os dias que correm, à procura de roupa de praia e de ginástica para a pré-adolescente a quem já empresto soutiens, enquanto o trio dos mais novos jogava às escondidas entre os charriots carregados de roupas de mil cores, feitios, tamanhos e marcas. A Isaura alinhava, era atirada do ovo para um lado e para o outro - a confusão habitual: chegámos e arrasámos!

De repente, a mulher, nos seus cinquenta, benzoca, aprumada, excelente genética ou gentil passagem das folhas do calendário na carcaça, porém, tal como eu, a vasculhar na promoção das duas peças a cinco euros, atirou: 'São três, é?' 

E eu a preparar a resposta-bomba com o sorrisinho cínico a pôr a descoberto o meu canino afiado : 'Não, são quatro. Falta a mais velha, para quem estou à procura de roupa para a colónia de férias, porque deu um pulo e nada lhe serve'. 

E eis que se segue aquilo que quase nunca acontece : 'Eu também tenho quatro...' Mas logo a seguir novo twist (guarda o canino no sítio dele e ampara rapidamente o queixo para ele não cair ao chão): '.... e se soubesse o que sei hoje não os teria tido!'

Tirei os olhos dos cabides para a fitar, para lhe ver bem o rosto. Acho que não cheguei a esfregá-los para aclarar a visão, mas à minha frente não estava uma bruxa com verrigas e nariz afilado. Estava uma pessoa normal, um bocado madame, um bocado dondoca no cenário errado, mas tinha até um ar simpático, afável, parecia até que a vida tinha sido generosa.

Começou o chorrilho do trabalho que eles dão, do quão mal agradecidos serão por tudo o que fizemos por eles, que depois estudam, vão para a faculdade e o país não lhes dá oportunidades, emigram, e lá fora também não há emprego, que é só chatices, preocupações, a páginas tantas desliguei e tentei imaginar-me a sentir todo aquele amargor.
E não consegui. 

Tentei imaginar: o que pode ter acontecido a esta mulher para ter o descaramento de me atirar uma coisa assim tão desgradável à cara?
E não consegui.

Tentei rebater todo aquele desamor, todo aquele desencanto, mas não valia a pena. 
Não digo que a senhora fosse um caso perdido, mas o meu renovado eu não perde um segundinho da sua preciosa existência a teimar com quem tem verdades absolutas, quem diz que tudo viu, que tudo sabe. 
O meu alarme de más energias soou mudo mas bem alto, como só um apito de ultrassons pode incomodar um cão, mas antes de fugir dali, com uns calções catitas da Puma a preço de contrafacção da feira debaixo do braço, disse-lhe: 'Desejo-lhe o melhor. Mas eu só me arrependo dos filhos que não vou poder ter."

*Quando estava grávida da Aurora, o meu terceiro filho, um pai de quatro, o meu querido amigo António Granado, hoje avô, disse-me para não ter medo da empreitada que ali estava à beira de começar. Disse-me, e eu nunca me esqueci ou vou esquecer desta frase: 'Eu só me arrependo dos filhos que não tive".

Aurora


nome feminino
1.            claridade que precede o nascer do dia; madrugada; crepúsculo matutino
2.            figurado começo; princípio; origem

3.            figurado juventude
4.            a princesa carrancuda d'A Família Numerosa



quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Livro

A Isaura ralha? Desculpa, filha, é uma tradição de família levar com essa a vida toda. Foto: A Família Numerosa

Há perguntas batidas na minha vida. E não é sequer de hoje. Tudo começou com o insólito apelido que trago no meu gigantesco nome, karma que também passei para os meus queridos filhos como uma cruz que é ao mesmo tempo um amuleto da sorte:
'E a menina ralha muito?' 'Não, geralmente sou um amor de pessoa... Só quando me perguntam isso é que me costumo passar da cabeça!', respondo eu com os olhos muito abertos, à beira de uma psicose induzida por uma pergunta que me persegue desde que me lembro de ser gente.

As pessoas não fazem por  mal, eu sei que não, é como o manual de procedimentos do empregado de café com aquelas do copo de água ou copo com água. E às vezes é até divertido. Há, por exemplo, a desconcertante resposta 'Não, é o quarto...' à inocente questão 'É o primeiro?'


Aí já sou mais condescendente e doce, acrescento até, com pena do ar de surpresa e pânico do meu interlocutor: 'Mas olhe, deixe-me que lhe diga que o quarto e último filho lembra muito o primeiro'.

A terceira pergunta mais recorrente da minha vida é: "E quando é que escreves um livro?"
Recentemente, com este blogue, aticei as feras, dizem-me, impacientes: "É desta que escreves um livro?" Não sei o que responder, como justificar esta preguiça, mas nunca me achei capaz de tamanha empreitada, nunca me propus também porque, se depois de quatro filhos, de algumas magnólias e cameleiras plantadas, se eu escrevo o livro o que é que depois me falta fazer?

Mais do que um exercício de transcendência, de como afinal é possível a felicidade produzir linhas direitinhas, cheias de alegria, de luz, este blogue tem uma única pretensão: fixar o momento para todo o sempre, deixá-lo sempre em suspenso, não é passado, não é presente, nem futuro; é uma espécie de coisa imaginada para o qual não foi criada ainda a palavra. Esta é a vida barulhenta, desarrumada, frenética e tão bonita que estamos a viver. Fora das palavras, dentro delas e também através delas. A vida que eu nem sabia, que eu nunca supus que pudesse ter.

E talvez, de certa forma, este blogue seja mais do que um livro. Ele é o registo da nossa história interminável.

Aqui, a minha querida Isaura, depois de meio ano neste mundo.




Mãe, ainda assim, vai lá preencher o meu livro do bebé, que ainda nada escreveste e eu já fiz imensas coisas nestes seis meses




terça-feira, 2 de junho de 2015

Somos os tais (uma espécie de underwater love)

Somos os tais. Amor de pais. A tattoo artist foi a Carolina. O António fotografou. FOTO: A Família Numerosa

Somos os tais. Aqueles que viraram pais.

Vamo-nos encontrando por aí, esbarramos uns nos outros nas mais variadas circunstâncias e lugares, dos mais banais até aos mais improváveis, à primeira e à última hora do dia: à porta da escola, no café da esquina, à cata da promoção das fraldas no hipermercado, no parque infantil do jardim que também foi da nossa infância, nos itinerários que as revistas e os portais da Internet desenham para fins-de-semana perfeitos, lúdicos, educativos, feitos à medida dos sonhos dos nossos filhos, à noite, pela fresca, faça chuva ou venha apenas o sereno connosco passear o cão que eles tanto queriam, pelo qual fizeram tantas juras e promessas vãs, e agora quatro patas, olhos doces, hálito de bode velho e sobrou para quem? Para os tais: nós, que virámos pais.

E tudo isto porque queremos dar-lhes o mundo inteiro, e de mão beijada; nem pode ser de outra forma, tudo merecem, não pode ser menos que tudo, porque também nós queremos ser os melhores dentro dos tais, aqueles que viraram pais.

Somos uma subespécie à margem, acima ou abaixo, nem sei bem. Mas estamos à margem. E talvez estejamos num estado de consciência alterado, uma espécie de seita. Sei que somos uma silenciosa maioria, subjugada por pequenos humanos, adoráveis, irritantes, soberbos, pequenos ditadores sádicos, por quem nos apaixonámos terrivelmente.

Sorrimos. A maioria do tempo sorrimos. Fomos feitos para isto, às vezes duvidamos do talento que temos para a coisa, inseguranças infundadas, porque não há fardo pesado de mais, não há sacrifício que não se cumpra sem hesitações, não há empreitadas impossíveis porque eles são a nossa continuidade, são o esforço, a vitória e a força de gerações e gerações até a este momento, este preciso momento em que nos puseram o peso da eternidade em cima de nós. Fomos investidos como os tais, aqueles que viraram pais, e essa é a maior demanda das nossas vidas: é guerra e é paz.

Durante muito tempo encontrámo-nos no jardim, entre os baloiços, a manta do piquenique, o escorrega, e as bicicletas com as rodinhas de treino que nunca ensinaram ninguém a andar de velocípede.

Hoje tenho um novo ponto de encontro com os tais, aqueles que viraram pais: esbarramos, invariavelmente, sem grande dignidade, a pingar dos pés à cabeça, de chinelos, touca ridícula que arrepanha a testa livrando-nos de umas quantas chicotadas do tempo na pele da face, perfumados com um cheireite a lixívia que me lembra sempre as mãos da minha avó Tóia e me traz à memória dias tão felizes de quando a minha infância não era tão atarefada como a dos meus filhos – saía de manhã com a avó, e seguia de mão dada com aquela mulher enorme numa rota que passava obrigatoriamente pela padaria, com papos-secos com ‘maminhas’ nas pontas, pelo leite do dia nos postos da Ucal, e por esta altura haveria já, na esquina do cinema King, um carrinho a vender morangos e cerejas em cartuchos de papelão, pesados em balanças que se penduravam lá do alto dos braços bem esticados ao céu, numa dança de equilibrismo, ginástica e elasticidade com pesos e pesinhos de chumbo.

This must be underwater love. FOTO: A Família Numerosa

Hoje em dia encontramo-nos todos no balneário infantil da recém-inaugurada piscina do Areeiro.
Somos seres assexuados, desfilamos semi-tapados por toalhas encharcadas, pais e mães, mudamos fraldas, secamos cabelos, tomamos duche lado-a-lado, celulite na coxa, pneu da felicidade, às vezes damos dois beijinhos quando há um reencontro longínquo, saudamo-nos com saudade, combinamos almoços e jantares que, provavelmente nunca acontecerão, e lá vamos para piscina dos pequeninos.
E mesmo que não haja nenhum glamour nas figuras que fazemos, lado-a-lado, pés e mãos engelhados e o raio da touca que nos dá ares de alienígena, este é o mergulho picado mais incrível das nossas vidas.

Somos os tais.
Somos os melhores pais.


E a vida segue leve e fresca como o corpo a boiar ao sabor da lua cheia e das estrelas numa noite de Verão.



terça-feira, 19 de maio de 2015

O exame de Português - O que dizem os teus olhos, Carolina?


'Os teus olhos são vitrais que mudam de cor com o céu' FOTO: A Família Numerosa

O exame correu mal, diz ela de olhos muito brilhantes e subitamente raiados de vermelho. Quando está triste, ou quando está a um grau do ponto de ebulição são os olhos quem a denuncia. Sempre. Olhos azuis, olhos verdes, olhos transparecendo um azul das caraíbas pontilhados a amarelo. Ninguém sabe bem qual a cor daqueles olhos, mas não há mistério quanto a isto: eles nunca mentem. Os olhos da minha filha Carolina são o espelho da sua alma.

De manhã, bem cedo pela manhã, quis um pequeno-almoço continental - com ovos mexidos e salsichas. E eu lá vesti o avental e pus-me a cozinhar às sete da manhã. Fritos. Pelos filhos faço tudo. Até fritos às sete da manhã. Os vossos desejos são uma espécie de ordem.

Depois maldisse o vento que uivava na janela da cozinha: queria levar uma roupa nova como amuleto (eu faço a mesmíssima coisa com sapatos). Resmungou com tudo e com todos, com as bebés que tardavam a despertar, que ia chegar atrasada, que os trabalhadores do Metro eram cruéis por decretarem uma greve com tantos alunos submetidos a um exame nacional.

Chegámos meia hora antes da abertura da porta da escola. Havia mais trânsito do que o habitual, mas o João, cínico ainda brincou: 'Se o chão de abrisse aqui à nossa frente, podias ir em ritno de passeio até à escola e chegavas mais do que a tempo...'

Tanto queixume, tanto maxilar cerrado de ansiedade e esperámos meia hora pela abertura das portas. Enquanto estaciono o carro na esquina, o rádio – acedi tirar a minha TSF da antena por amor - passa uma música de que ela gosta muito. Ela já vê sinais em tudo como eu, diz: já estou mais calma; acho que vai correr bem.

O vento despenteava a multidão de miudagem mal agasalhada que se punha ao primeiro sol da manhã a aquecer os ossos. Envergonhada, pediu para acompanhá-la, como no primeiro dia de aulas, como um bebé due se agarra às saias da mãe cheio de medo. Acedi. É bom ter o meu bebé loiro de olhos azuis de volta: vai correr bem; é só um teste, nada mais do que isso. 

Há mais dois ou três pais a vigiar de longe a ansiedade daquelas meninas-mulher que naquele momento breve voltam ao nosso colo. Sou uma mãe porreiraça de saia de cabedal e stillettos pretos e deixam-me ficar junto delas até à porta se abrir.

O contínuo está com cancro, está-lhe na cara toda a doença, e resiste com uma dignidade e força incríveis, penso nisso enquanto comanda aquela tropa de miúdos para a chamada nas respectivas salas.

Alguns pais ficarão por ali à espera. No café, algures abrigados pela ventania. Mas eu tenho uma carrinha cheia de filhos para distribuir. Tenho matrículas e papéis para imprimir e preencher para o SASE: o meu dia não se faz de esperas, não hoje.

É só um teste.
Ter muitos filhos traz-nos estas certezas: não há mal que sempre dure. E para grandes males grandes remédios. E o que não tem remédio remediado está.

É só um teste.
Regresso à porta da escola depois de um dia de trabalho burocrático que venci em apenas hora e picos e já estão todos cá fora. O exame devia acabar daí a meia hora. Corre para mim: ‘correu-me mal, errei três perguntas!’. E os olhos quase lhe saltam de dor.

Nos últimos dias fui correctora de exames, tantas árvores abatidas para fazer livros de preparações para os exames, e mais essa no meu vasto currículo de competências. Digo: "Perdeste então nove pontos. Podes ainda ter 91 por cento, não estou certa?'
E tu, filha, não cabes em nenhum ranking e em nenhum exame de escolha múltipla de uma hora e meia. 


E os olhos dela voltam a sorrir.