Quem faz um blog fá-lo por gosto

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Raízes - A História de um Verão no Manga-Manga

6,7 km de caminho pedonal ao lado do Vouga. Lodo, silvas, rãs e libelinhas em quase três horas de caminho. O trilho começava a escassos cinco metros do posto do Turismo de São Pedro do Sul. A senhora que lá ao serviço está nunca o fez e disse-nos que podíamos levar as bebés nos carrinhos. Valeu a pena todas as bolhas nos calcanharese resmungos dos mais velhos.


A nossa família tem nome de árvore, uma das mais importantes de todas, que alimenta e alumia e que, também por isso, é das mais banais de todas. Escrevo estas linhas numa casa que também ela tem nome de fruto, de uma árvore mais exótica, sobretudo nos anos 40, quando, numa aldeia junto às Caldas de São Pedro do Sul, nasceu uma quinta com vista para as serras da Arada e do São Macário, com o nome de ‘Manga-Manga’.

Aqui na aldeia sou a neta do ‘tio’ Oliveira, o ‘Manga-Manga’. Batem-me à porta, metem conversa sem pudores no café, como se me conhecessem desde sempre, baralham-se no meu nome, confundem-me com a minha mãe e também com a minha avó, fazem contas de cabeça aos anos que se passaram, às décadas em que a casa ficou em suspenso, adormecida e à deriva à nossa espera, do pesar que todos sentiram por esse luto prolongado, ficam de queixo escancarado pelas semelhanças da minha filha mais velha com a sua avó, a minha mãe, relembra-se a beleza do jardim de dálias, hortênsias e noveleiros, desfiam-se novelos de histórias à desgarrada, por vezes emaranhados pela neblina da memória, ou remendados ao sabor da inevitabilidade de quem conta um conto poder acrescentar sempre um ponto sobre a personagem quase lendária que foi o meu avô.

Aquele foi o tempo dos grandes homens. O virar do século, as suas revoluções, a queda dos reis e a ascensão de homens que se fizeram apenas às suas custas. Foram incríveis odisseias, com todos os ingredientes da receita dos imortais: a dureza dos campos, a solidão das cidades, as peregrinações para novos mundos, um rol apaixonante de incríveis feitos e insólitas peripécias que tantos romances e filmes de Hollywood inspiraram. Mas aqui a aldeia é pequena e há uma muralha de serras e uma teia de rios a guardar esta história. Tudo ficou encerrado numa casa abandonada, cujos portões estamos a abrir, de mansinho, com um gangue de filhos atrás.

O meu avô nasceu um desgraçado. Algures nos registos da igreja estará o seu assento de nascimento, com a sentença mais triste que alguém pode ter: filho de pai incógnito. O pai não era incógnito, na verdade era um patife endinheirado que, do alto do seu cavalo e do seu poder quase feudal, se forçava junto das raparigas nas lides do campo. A minha bisavó, contam-me os antigos, nunca mais foi a mesma desde que o bandido Marcelino a apanhou a caminho do moinho e lhe fez um filho. Morreu cinco anos mais tarde, com a pneumónica, mas todos me contam que morreu antes, no dia em que o meu avô foi concebido.

A nossa família tem nome de árvore por obra e caridade de um padre da aldeia que lhe juntou o apelido ao nome de Manuel. Nasceu simplesmente Manuel. O padre vaticinou que seria Oliveira. A escolha revelou-se acertada. Se há árvore mais próxima da imortalidade é ela, a Oliveira.

Seguiram-se as terríveis provações e a fome. E os volte-faces do destino. A história de um miúdo franzino destemido de uma aldeia perdida em Lafões, que estudou e trabalhou sem descanso, que se fez ao caminho, por um itinerário sinuoso e por vezes labiríntico dos seus grandiosos e quase desmedidos sonhos. Há breve passagem por Viseu, seguida por uma viagem de barco, o sonho americano nunca cumprido acomodado na bagagem do porão. Chega-se a um porto gigantesco em África numa cidade que conhecemos apenas de fotografias a preto-e-branco. E é lá que a vida e a fortuna do destino se cumpre, décadas de trabalho e a construção de um pequeno império de estabelecimentos comerciais, nos quais o meu avô com nome de árvore plantava sempre duas mangueiras como um totem ou amuleto de sorte. Assim nasceu o ‘Manga-Manga’. Assim foi exportado para a aldeia de São Félix em São Pedro do Sul, muitas décadas mais tarde, para uma pequena quintinha de pedra.

Eu sou a que já nasceu num berço de metal precioso. Mas sou aquela que veio com um bando de catraios agarrados às minhas saias resgatar do esquecimento a casa do ‘Manga-Manga’. Sou a neta pródiga da cidade que voltou à procura das suas raízes, a que revolve a terra, a que a semeia e aguarda sem pressas para colher os frutos. Ao sabor das férias do Verão. Na casa velha da aldeia onde tudo começou.

Socorro! A terra é conhecida por águas milagrosas mas vai ser preciso um milagre para deixarmos de usar água do velho poço!

Para o casal de trintões que nós já somos, este é o paraíso. Meio hectare de terra. Um pomar de laranjeiras histéricas de felicidade, que brotam frutos suculentos desde a Primavera sem quaisquer sinais de cansaço, e uma pereira centenária muito curvada e paciente que todas as manhãs solta peras farinhentas para o chão.

Quatro filhos soltos por aí, uma família numerosa que duplicou o seu tamanho sem aviso há um par de anos, crianças soltas com as pernas esfoladas, os braços arranhados pelas silvas, as mãos tingidas de roxo das amoras silvestres, os pés negros do pó. Uma casinha pequenina que se desdobra miraculosamente e recebe amigos e família. “A casa não se quere grande para ser igual a um ninho. O amor, na casa pequena, anda mais conchegadinho.” Está escrito num azulejo velho, embutido na parede da entrada. Era o mantra do meu avô. Passou também a ser o meu.

As voltas que a vida dá. Do campo para a cidade e da cidade para o campo. Quase consigo sentir o orgulho dos meus avós nesta fotografia.

A nossa aventura rural, de regresso ao passado e construção de pontes do futuro junto às milenares Termas de São Pedro do Sul, começou há um par de anos. Ainda éramos só quatro, um jovem casal e o seu casalinho de filhos loiros. Tudo se tem feito com amor – não há outra forma de fazer bem as coisas – e bem devagar. Electrificou-se a casa. Fez-se luz, mas, inexplicavelmente, mudámos de século, e estamos na terra das águas com poderes curativos que os Romanos descobriram, mas não há água canalizada nem saneamento básico.

Racionamos recursos: há banhos rápidos e viagens à fonte mais próxima para matar a sede com água potável. Ensinamos aos nossos quatro filhos que a água não vem miraculosamente da torneira, tal como os ovos não nascem do supermercado. Não trazemos televisão, nem acesso à Internet – e os miúdos ressentem-se de saudades dessas coisas modernas que dão como adquiridas desde que nasceram.

Escutamos a natureza: avançamos teorias e hipóteses sobre a forma de reprodução dos caracóis, que têm um ninho junto ao poço, tememos, mas ficamos deslumbrados pelos voos rasantes sobre as nossas cabeças das vespas gigantes da terra, às quais chamam abigoiros. Analisamos girinos e ninfas de libelinhas coloridas. Cavamos buracos e plantamos árvores e arbustos, à espera que cresçam e envelheçam connosco.

Olha quem veio ajudar a estender a roupa na corda.

Esta foi a última ceia desta libelinha. Poisou em todos nós, muito cansada, com as asas quase desfeitas. Depois poisou e pousou na cabeça de uma sardinha assada.

Os dias passam devagar com as montanhas mágicas imóveis à nossa frente, num quadro com uma moldura dourada imaginada de lembranças que vamos construindo sob um sol escaldante de Verão. Cada folha do calendário é uma aventura, uma descoberta. Esqueçam os postos do turismo, que nada sabem das riquezas que a terra tem, e que encaminham os turistas e os emigrantes que regressam à terra em Agosto para as modernas e indiferenciadas infra-estruturas, para onde os fundos estruturais comunitários foram canalizados.

A terra tem rotundas e circulares absurdas, tem quatro cadeias de supermercados, mas não tem água canalizada e saneamento. No Verão há festas todos os dias e todas as noites, é um desfile de estrelas dos tops de venda da indústria musical nacional, está marcada uma sunset party com a presença badalada da rádio mais ouvida do país, e ainda há festas com estrelas da música pimba que se atropelam umas às outras numa rivalidade de aldeias vizinhas e de santos padroeiros. Mas quase ninguém sabe o que é e onde fica Nodar. Ou que beleza esconde o Poço Negro ou Cabaços. O Vouga, o Sul, o Paiva, o Paivô, o Zela – corremos atrás destes rios.

O itinerário das nossas férias faz-se dessa riqueza natural única de Lafões. Faz-se de boca-a-boca, é esquadrinhado meticulosamente pelas recordações das gentes da terra e por guias turísticos amarelecidos e não reeditados. Vamos com calma e cuidado, mas sem medo: desbravamos locais onde a natureza está praticamente intacta, chegamos a aldeias-fantasma de pedra, que ali estão à espera para nos dar as boas-vindas. Assim se abrem paisagens e territórios incríveis, para onde levamos atrelados quatro filhos, dois dos quais bebés de colo.

De saída. Somos muitos e é uma logística lixada. Mas nunca paramos quietos.

Os putos mais velhos resmungam, têm saudades da Playstation, do Cartoon Network e do Panda. A mais velha, a entrar precocemente naquela que adivinho que vá ser uma longa adolescência, telefona para os amigos para saber quem foi expulso do concurso de talentos, e saca as novidades dos últimos episódios da trama da novela.

Mas quero acreditar que estas serão as melhores férias de Verão das suas vidas, aquelas que recordarão para sempre com saudade e nostalgia, de coração cheio. Acredito que, no futuro, contarão a história do trisavô ‘Manga-Manga’ aos seus filhos, enquanto os empurram no baloiço que pendurámos no ramo da laranjeira. Imagino-os a contar a história do gigantesco caramanchão de glicínias que trouxeram ao colo num Verão e que plantaram com as suas mãos. Vejo-os a regressar a Nodar, ao Poço Negro e ao Poço Azul, a Meitriz, a Pouves e a Cabaços.


A minha família tem nome de árvore. E estas são as nossas raízes. E estas são as nossas flores e os nossos frutos.

Obrigada ao Sapo, que me deu a possibilidade de escrever este conto de Verão. Aqui.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As manas*

Aurora dá um 'quixixão' à Isaura nas Termas de São Pedro do Sul Foto: A Família Numerosa

Uma das maiores estupidezes que me passou pela cabeça quando, há pouco mais de um ano, soube que estava grávida foi que a Aurora odiaria este bebé, porque a sua vinda lhe viria roubar a mãe, o colo e o mimo que era todo seu por direito, durante muitos e bons anos.
No auge do meu pânico e delírio imaginei a nossa vida toda em pantanas, do avesso e também de pernas para o ar, por causa deste anjo, cujo único pecado foi chegar-nos de surpresa e sem aviso (como chegam a maioria das coisas boas, aliás...)
Mas, na altura, senti o chão a fugir-me debaixo dos pés. E dramatizei. Muito. 
Na bola de cristal do futuro a seis, vi filhos traumatizados pela confusão e a refugiarem-se, mais tarde, na adolescência, nas drogas e más companhias. Vaticinei misérias várias, como desemprego, filhos escanzelados e cheios de fome (e ranhosos também), e montanhas de contas em atraso por pagar. Suei as estopinhas a visualizar o meu corpo (de top model aahahah) todo disforme e rebentado com esta quarta gravidez e ainda previ meu casamento destruído por causa deste bebé-milagre.
Depois houve um momento de epifania, a estalada que alguém precisava de me dar para eu sair daquele transe maléfico (que, só quem teve a vida baralhada de um momento para o outro, pode entender o quão paralisante pode ser este turbilhão). Há neste livro aberto, nesta história interminável, uma pessoa anónima, que teve uma intervenção central e quase divina na minha, melhor: na nossa vida.
Vi-a uma única vez, e ela obrigou-me a gravar o seu número de telefone, acaso eu vacilasse de novo para dentro do vórtice de loucura.
Não mais a contactei. Temo até que, se a vir na rua, não a reconhecerei. 
No dia em que a Isaura nasceu, e apenas nesse dia e nunca mais, enviei-lhe uma mensagem a agradecer-lhe tudo o que fez por nós. Ela respondeu a dizer que se lembra muito da conversa que tivemos, combinada pelo destino. 
Pois bem, eu todos os dias me lembro dela.

Ela não fez nada de especial. Simplesmente apareceu no momento certo e no sítio certo. Ouviu-me, calada, a mil lamúrios, a um quinhão sem fim de preocupações.
Eu sempre guiei a minha vida por sinais, como quem vê o Norte num céu estrelado, em pistas espalhadas por Deus (ou pelo destino). Tenho esta pessoa, a sua aparição do nada, numa improvável sequência de acontecimentos, como a da queda de um anjo na minha vida.
(e foi a segunda vez que isto me aconteceu, mas eu casei com o anjo, que posso garantir que tem sexo, porque já fez três filhos!!!)
Ela também falou, para além de ouvir com uma paciência infinita: disse-me duas ou três coisas certeiras que eu precisava de escutar para me (re)organizar.
E, se calhar, tinha que as ouvir de um estranho para acreditar que era possível criar quatro filhos, dois dos quais seguidos, sem comprometer a felicidade da nossa família, bem pelo contrário: amplificando-a ainda mais, levando-a aos quatro cantos, como o estou para aqui a fazer com a ajuda das minhas amigas palavras.
(eu, que sempre dependi da bondade dos estranhos, como a Scarlett).
Uma das coisas que eu precisava de ouvir era esta: 'Elas vão ser as melhores amigas, você nem imagina como elas vão ser amigas.'
Tenho o meu coração cheio de gratidão pelas dádivas que já me foram dadas de bandeja na vida. Pelos meus Anjos da Guarda.


*Post repescado no Facebook d'A Família Numerosa

domingo, 12 de julho de 2015

O berço (de ouro) e os lençóis (mágicos)

O Bambi chegou ao sítio onde era esperado. Parece de propósito, mas não foi.

Mais uma vez as voltas, melhor, as piruetas acrobáticas que a vida dá. Os caminhos que andam separados, se calhar lado-a-lado mas sem nunca se cruzarem, até que, a certa altura, chegam ao mesmo tempo ao xis do mapa do tesouro, o local onde sempre foram esperados.
Os lençóis velhos de bebé vieram de férias para a casa de campo. Fizeram 300 quilómetros à boleia de uma carrinha de sete lugares com um problema de sobreaquecimento do motor para, por milagre, se virem emparelhar-se com o berço achado no Olx.
Fomos em procissão, num dia muito quente de Verão, buscar o berço para a menina Isaura, andava ela às voltas no meu ventre, pequenina, e andámos também nós em ésses à procura de uma quinta sublime, barricada por um bairro social às portas de Lisboa.
A empregada / caseira recebeu três notas de vinte euros e deixou um lamúrio sentido na passagem de testemunho daquela peça de mobiliário, há muito esquecida no sótão: 'Criei todos os netos da senhora nesta cama... Eles já são crescidos, andam a acabar os estudos, e depois devem querer coisas novas..."
Depois do queixume, a empregada / caseira deu a sua bênção de aprovação: "Deus abençoe a vossa menina!"
Esta é a história de como o berço dos oito netos da senhora veio embalar os sonhos da Isaura. E como, cumprindo o seu destino, veio encontrar, numa quinta às portas de São Pedro do Sul, uns lençóis velhos que sempre lhe estiveram destinados.
A bênção resultou.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

David Clifford

A última foto publicada pelo meu amigo David Clifford. Um dia de chuva não mata a Primavera

O tema é batido, é recorrente neste diário de bordo d’A Família Numerosa: volto uma e outra vez, tantas quanto forem necessárias, até já perder a conta, para falar do ofício da felicidade.

 Dá tanto trabalho ser feliz.

Gostava de conseguir desenhar num mapa, ou pelo menos num rascunho, todo o caminho que tive que percorrer para aqui chegar.

Por vezes tento aceder a partes já muito longínquas da memória para escrever numa cábula encriptada, à prova de todo o esquecimento, todas as peripécias em que me meti, todos os atalhos que encontrei, todos os buracos onde me enfiei e me esfolei forte e feio, todas as escapatórias impossíveis que planeei, em desespero, e que, por acaso, tiveram sucesso. Até agora tiveram sucesso. Tanta sorte. Tanta audácia, que anda sempre ao lado da sorte.

Gostava de conseguir fazer um desenho. Com cores garridas. Da minha pequenina Odisseia.

E neste processo de andar sempre em fuga, a recusar o caminho mais fácil, mas por vezes sem conseguir resistir-lhe, neste turbilhão de urgência e falta de fôlego, à procura do destino que era o meu por direito, mas cuja porta de entrada triunfal eu não conseguia encontrar, eu queria nunca esquecer todas as ajudas que eu tive para aqui chegar.

Algumas, muitas vezes, quando tudo me parecia perdido, eu fui sempre salva. Às vezes, à última da hora, quando estava por um fio. Outras, lentamente, com paciência. Umas vezes foi pelos amigos de sempre, aqueles, poucos, que ficarão até à velhice. Outras, foi por amigos improváveis, efémeros, mas eternos, personagens aparentemente secudárias e que, no entanto, mudaram o curso dos acontecimentos.


Este blog é luz pura, branca, morna: é tudo o que eu nunca supus que pudesse ser possível para esta vida. Mas como em todas as histórias que nos prendem desde o início até ao fim, para cada herói há um vilão. Do outro lado da felicidade está a tristeza. A escuridão é a luz virada do avesso.

Não há como fugir; esta é uma lei tão velha como o mundo. É por causa dela que o mundo não pára de girar. Lado a lado com este blog tão feliz está um outro, tão triste e negro. Esse diário dos dias tristes é, na verdade, a ponte de cordas sobre o precipício que eu atravessei, insensata e cheia de fé, até aqui, a este lugar tão alto, onde vejo tudo e sinto tudo à flor da pele, com vista sob o paraíso.

Hoje, aqui neste texto para memória futura, faço a fusão dos meus dois diários. Hoje não estou feliz, estou devastada, continuo destroçada pela notícia que me chegou há duas semanas e dois dias, pelo telefone. Mas escolho este blog cheio de luz para fazer o meu luto.

“Estás a conduzir? Pára o carro e liga-me.”
Quatro piscas, encostada à paragem do 44 na Avenida Rio de Janeiro.
“O David morreu.”

O meu amigo David Clifford morreu.

Este blog é luz, e o outro é a ausência dela. É, quanto muito, o diário de bordo da aventura à procura da felicidade, com uma miragem, com um vislumbre de claridade de vez em quando, como uma estrela do Norte, que consegue furar uma noite carregada de nuvens.

Hoje este blog cheio de luz veste-se de preto por um instante para vos contar a história de um personagem incrível da história da minha vida, um homem bondoso, um ser humano extraordinário, inesquecível, que detonou uma bomba na vida de tantos que lhe queriam bem, que o queriam tanto, com a sua inesperada partida.

Se eu conseguisse desenhar um mapa, se ao menos eu conseguisse parir um gatafunho qualquer que vos ilustrasse como este homem me empurrou quase à força para o trilho certo desta maratona. E fê-lo a cantar. Fê-lo a cantar ao meu lado. A cantar comigo. Fê-lo muitas vezes em inglês, a língua em que fica sempre tudo bem, em que se evitam equívocos e mal-entendidos. A língua que esconde menos que aquela em que tento explicar como me dói que a história continue e que ele não volte mais.


É tão raro encontrar a nossa voz-metade algures nesta vida.
Tive uns ameaços antes. E uns falso-alarme depois.
Mas o David era a minha voz-metade. 

Se eu fechar os olhos – agarro-me a este truque várias vezes ao dia – consigo ouvi-lo.
E se eu conseguisse rebobinar todos os momentos em que senti o coração a explodir de felicidade, tipo bomba-relógio, se os passasse em fast forward, gostava de me demorar e de mostrar a todo o mundo, aquele em que, um dia, cantámos uma grande canção juntos, e acabámos os últimos compassos abraçados, como que agradecendo a eternidade daquele momento.

Eu sempre guiei a minha vida por sinais.

Pode ser loucura pura, podem ser sinapses aleatórias, infundadas em evidências científicas, clarões, tempestades na minha cabeça, peças de um puzzle imaginado. Mas eu sempre me dei bem com esta maneira peculiar de tomar decisões importantes para a minha vida.

Devia ter estado mais atenta. Que me fique essa lição, de estar sempre atenta, de nunca me distrair. Nada mas mesmo nada acontece por acaso e eu devia saber isso melhor do que ninguém.

A música, a one hit da banda pop gótico, que passou na rádio. O orgulho desmedido de ouvir a minha filha mais velha a cantar para a escola toda com voz de anjo e dizer-lhe, no final do dueto que cantou com o amigo Bernardo: ‘Filha, tens tanta sorte de teres encontrado a tua voz-metade com onze anos. Eu só encontrei a minha já tu tinhas nascido.’

Eras tu, David. Eras tu. Era de ti que eu falava e nem disse à Carolina o teu nome.

A mensagem que ficou perdida e sem resposta no meio de spam:

‘Liga-me. Preciso do teu insight’.
A última coisa que lhe escrevi: ‘Não se esquece nunca com quem cantámos uma grande canção. You’re my immortal friend’.


Não te esqueço, David Clifford. 
Essa é a minha promessa. E fica por escrito. You’re my imortal friend. Fica em inglês também. Como tu gostavas.

Perdoa-me. 
Vou continuar a trabalhar sem parar, sem desculpas, para nunca me desviar para o caminho que, sem a tua ajuda, não teria encontrado. 
Tu és personagem principal de muitas vidas. Se alguém, com mais jeito que eu para o desenho, conseguisse fazer um mapa, veríamos como está tudo ligado, como conseguiste entrelaçar tantas coisas que estavam emaranhadas com nós cego, que ninguém tinha pachorra para desatar. 
Talvez tenha sido essa a tua missão, talvez seja esse o teu legado. 
Pelo caminho deslumbraste tudo, com o teu génio e com o teu trato irrepetível e único. 
Que bênção ter podido cantar contigo. Que bênção ter-te sempre na minha vida. 


Podem conhecer o trabalho fotográfico do David Cliffford.
Aqui 

Dentro em breve regressarei com mais novidades sobre o merecido tributo ao génio do meu amigo David.


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Só me arrependo dos filhos que não vou poder ter*


Antes e Depois.
A Fada dos Dentes e o aumento do custo de vida: cada dente uma nota de 5 euros. Sem recibo.

A Família Numerosa fez de mim uma Nadia Comaneci da ginástica orçamental, apesar do meu generoso perímetro abdominal e de anca poderem indiciar pouca ou nenhuma mestria para a arte. Quem vê coxas não vê encargos financeiros e, acreditem ou não, eu sempre sonhei ser como a Nadia. Venha de lá então a medalha Olímpica, o registo perfeito inscrito em todos os cartões: 10.0

Os meus filhos não reparam neste treino de alta competição diário e nem mesmo os mais velhos, que ainda viveram com vacas bem gorduchas e que, ao contrário de mim, são barras a Matemática, percebem que os pais passam a vida a fazer muitas contas à vida. 
E nunca são contas de somar ou as complexas multiplicações; são sempre ábacos com subtrações e muitas divisões. Mas, mesmo com o resto zero na conta, nunca passamos aos negativos. Nada mau.

Foi nessa qualidade, de mãe-galinha poupadinha, que ontem tive um encontro imediato com uma alma desalentada. Apetece-me até benzer-me ao recordar o episódio. Mas há-de haver, no final da história, um ensinamento, uma lição a reter. Em tudo há e, geralmente, até mais nas coisas desagradáveis do que naquelas que nos correm de feição.

Corria eu os varões de uma bendita loja de roupa em segunda mão, de onde sou habitué com cartão de fidelização e enorme capital de simpatia pelo enquadramento familiar insólito para os dias que correm, à procura de roupa de praia e de ginástica para a pré-adolescente a quem já empresto soutiens, enquanto o trio dos mais novos jogava às escondidas entre os charriots carregados de roupas de mil cores, feitios, tamanhos e marcas. A Isaura alinhava, era atirada do ovo para um lado e para o outro - a confusão habitual: chegámos e arrasámos!

De repente, a mulher, nos seus cinquenta, benzoca, aprumada, excelente genética ou gentil passagem das folhas do calendário na carcaça, porém, tal como eu, a vasculhar na promoção das duas peças a cinco euros, atirou: 'São três, é?' 

E eu a preparar a resposta-bomba com o sorrisinho cínico a pôr a descoberto o meu canino afiado : 'Não, são quatro. Falta a mais velha, para quem estou à procura de roupa para a colónia de férias, porque deu um pulo e nada lhe serve'. 

E eis que se segue aquilo que quase nunca acontece : 'Eu também tenho quatro...' Mas logo a seguir novo twist (guarda o canino no sítio dele e ampara rapidamente o queixo para ele não cair ao chão): '.... e se soubesse o que sei hoje não os teria tido!'

Tirei os olhos dos cabides para a fitar, para lhe ver bem o rosto. Acho que não cheguei a esfregá-los para aclarar a visão, mas à minha frente não estava uma bruxa com verrigas e nariz afilado. Estava uma pessoa normal, um bocado madame, um bocado dondoca no cenário errado, mas tinha até um ar simpático, afável, parecia até que a vida tinha sido generosa.

Começou o chorrilho do trabalho que eles dão, do quão mal agradecidos serão por tudo o que fizemos por eles, que depois estudam, vão para a faculdade e o país não lhes dá oportunidades, emigram, e lá fora também não há emprego, que é só chatices, preocupações, a páginas tantas desliguei e tentei imaginar-me a sentir todo aquele amargor.
E não consegui. 

Tentei imaginar: o que pode ter acontecido a esta mulher para ter o descaramento de me atirar uma coisa assim tão desgradável à cara?
E não consegui.

Tentei rebater todo aquele desamor, todo aquele desencanto, mas não valia a pena. 
Não digo que a senhora fosse um caso perdido, mas o meu renovado eu não perde um segundinho da sua preciosa existência a teimar com quem tem verdades absolutas, quem diz que tudo viu, que tudo sabe. 
O meu alarme de más energias soou mudo mas bem alto, como só um apito de ultrassons pode incomodar um cão, mas antes de fugir dali, com uns calções catitas da Puma a preço de contrafacção da feira debaixo do braço, disse-lhe: 'Desejo-lhe o melhor. Mas eu só me arrependo dos filhos que não vou poder ter."

*Quando estava grávida da Aurora, o meu terceiro filho, um pai de quatro, o meu querido amigo António Granado, hoje avô, disse-me para não ter medo da empreitada que ali estava à beira de começar. Disse-me, e eu nunca me esqueci ou vou esquecer desta frase: 'Eu só me arrependo dos filhos que não tive".

Aurora


nome feminino
1.            claridade que precede o nascer do dia; madrugada; crepúsculo matutino
2.            figurado começo; princípio; origem

3.            figurado juventude
4.            a princesa carrancuda d'A Família Numerosa



quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Livro

A Isaura ralha? Desculpa, filha, é uma tradição de família levar com essa a vida toda. Foto: A Família Numerosa

Há perguntas batidas na minha vida. E não é sequer de hoje. Tudo começou com o insólito apelido que trago no meu gigantesco nome, karma que também passei para os meus queridos filhos como uma cruz que é ao mesmo tempo um amuleto da sorte:
'E a menina ralha muito?' 'Não, geralmente sou um amor de pessoa... Só quando me perguntam isso é que me costumo passar da cabeça!', respondo eu com os olhos muito abertos, à beira de uma psicose induzida por uma pergunta que me persegue desde que me lembro de ser gente.

As pessoas não fazem por  mal, eu sei que não, é como o manual de procedimentos do empregado de café com aquelas do copo de água ou copo com água. E às vezes é até divertido. Há, por exemplo, a desconcertante resposta 'Não, é o quarto...' à inocente questão 'É o primeiro?'


Aí já sou mais condescendente e doce, acrescento até, com pena do ar de surpresa e pânico do meu interlocutor: 'Mas olhe, deixe-me que lhe diga que o quarto e último filho lembra muito o primeiro'.

A terceira pergunta mais recorrente da minha vida é: "E quando é que escreves um livro?"
Recentemente, com este blogue, aticei as feras, dizem-me, impacientes: "É desta que escreves um livro?" Não sei o que responder, como justificar esta preguiça, mas nunca me achei capaz de tamanha empreitada, nunca me propus também porque, se depois de quatro filhos, de algumas magnólias e cameleiras plantadas, se eu escrevo o livro o que é que depois me falta fazer?

Mais do que um exercício de transcendência, de como afinal é possível a felicidade produzir linhas direitinhas, cheias de alegria, de luz, este blogue tem uma única pretensão: fixar o momento para todo o sempre, deixá-lo sempre em suspenso, não é passado, não é presente, nem futuro; é uma espécie de coisa imaginada para o qual não foi criada ainda a palavra. Esta é a vida barulhenta, desarrumada, frenética e tão bonita que estamos a viver. Fora das palavras, dentro delas e também através delas. A vida que eu nem sabia, que eu nunca supus que pudesse ter.

E talvez, de certa forma, este blogue seja mais do que um livro. Ele é o registo da nossa história interminável.

Aqui, a minha querida Isaura, depois de meio ano neste mundo.




Mãe, ainda assim, vai lá preencher o meu livro do bebé, que ainda nada escreveste e eu já fiz imensas coisas nestes seis meses