Quem faz um blog fá-lo por gosto

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Zázá [ou o difícil ofício de ser feliz]


Hoje é dia de festa e só tenho direito a uma foto manhosa, de esguelha, e ainda por cima despenteada?
FOTO: A Família Numerosa.
Zázá,

Rebobino 365 dias, e ando aqui às voltas, um pouco perdida, um pouco zonza, numa contabilidade absurda que não encontra meios para medir - nem tem pouco  palavras para traduzir - esta coisa mágica e relativa que é o tempo.

Estou cansada de verdades, de certezas. Já não arrisco absolutos, filha. Disse tantos disparates na minha vida; coro de vergonha com tanta fanfarronice. 

Imagina que, há 12 anos, quando vi a tua irmã Carolina pela primeira vez, de raspão, estava a tua avó ao meu lado e em meu socorro sem saber para onde se virar - para a filha ou para a neta, ambas em perigo -, e soltou-se-me o absurdo pela boca fora: eu disse que nunca amaria um filho como aquele pequeno ser azulado, que acabara mudar toda a minha vida, elevando-me a esse estado sobrenatural e de consciência alterada, que é ser mãe, a toda a hora, e para todo o sempre.

Não é verdade, bem-amada, minha querida Zázá.
É possível amar todos, às golfadas, e na mesmíssima proporção (a tua irmã Carolina dirá que o António é o favorito e, mais cedo ou mais tarde, também há-de vir marrar contigo, que és pequenina e terás sempre essa aura a perseguir-te).

Também, tal e qual como me avisaram que aconteceria - e eu descrente, num espectáculo de abelha-mestra com um xaile de fado, obstinada na minha certeza que o meu palácio de cristal era afinal um castelo de cartas e que tudo se ia desmoronar -, a tua irmã Aurora não tem cicatrizes e traumas permanentes (claro que sofreu nas primeiras semanas) e vocês são, realmente, as melhores amigas (o meu coração por vezes não aguenta, tenho a certeza absoluta que às vezes pára de bater quando secretamente vos espio, na vossa cumplicidade).

Tu, Zázá, és a bênção inesperada: és o ponto de viragem nas nossas vidas - creio que atingi a idade adulta quando soube que vinhas, aliás, quando aceitei que vinhas, e me rendi sem condições à evidência que não posso controlar tudo, a toda a hora.

Hoje, eu e o teu pai (que não é dado a estas coisas das cartas de amor públicas - mas não duvides nunca do seu amor) sabemos da infalibilidade de todas certezas, da fragilidade da vida e dos imperativos categóricos que trazemos entranhados no código genético. Estamos lúcidos como nunca estivemos, com os pés bem agarrados à terra e a cabeça sempre na lua, bem lá do alto, a vigiar os teus sonhos e os dos teus irmãos, a sondar (em vão) perigos que estão sempre à espreita.

Hoje, eu e o teu pai somos felizes como nunca previmos.
Essa é a lei mais universal de todas: o curso dos acontecimentos segue implacável, de mãos dadas com o tempo, desatinados, às vezes voam outras vezes destroem tudo e todos à sua passagem, outras vezes arrastam-se, preguiçosos, e, ocasionalmente, acontece o extraordinário e conseguimos pará-los, abruptamente, interrompemos a sua correria e ficamos deslumbrados com os fragmentos destes dias felizes.

Andámos a trilhar o difícil caminho da felicidade, Zázá. Foi isso que andámos a fazer contigo nestes 365 dias. Parabéns, filha.

1/12/2014 -- 08h30 - Também ponho uma foto-baleia.
Foto: A Família Numerosa


[E agora vou arrumar a culpa de estar a trabalhar neste dia, de te ter levado para a creche, sem um bolo, de não te ter comprado um presente, e de, à hora em que nasceste, estar fechada num carro, num monta-cargas, a caminho da garagem]

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Louvor - uma espécie de bem haja

Texto originalmente publicado na Visão

Trio-maravilha. Foto: A Família Numerosa

Bem haja.

Desde pequena que esta expressão beirã faz parte do meu dicionário genético, do meu léxico sentimental — património que espero ter passado pelo cordão umbilical aos meus quatro filhos.
Quem a usava amiúde — e não ‘a miúda’, como erradamente todos cantavam na épica canção dos Xutos e Pontapés, hoje uma peça de arqueologia musical, onde ficamos a saber que, de Bragança a Lisboa, eram dez horas de distância num tempo em que Portugal não era trespassado por auto-estradas e SCUT — era o meu avô materno, nascido no virar do século passado numa aldeia longínqua de Lafões.

Muitas coisas se têm vindo a perder no tempo.
Há cada vez menos bem no mundo, e talvez por isso o ‘obrigada’, uma palavra bem mais agressiva e carregada do popularizado conceito de dívida, se tenha substituído a este desejo utópico de que a bondade andasse por aí à solta, com todas as benfeitorias do mundo que os homens (também) são capazes (quando andam para aí virados).

A palavra louvor, por exemplo, caiu em desuso.
Usamos cada vez menos palavras para nos exprimirmos e para dizermos de nossa justiça, apesar de termos quase sempre uma palavra a dizer sobre tudo e em toda a parte (olhem para mim aqui, por exemplo).

O dizer de nossa justiça é cada vez mais um dedo apontado, os pratos da balança num equilíbrio instável e volúvel: os livros de reclamações são sempre demasiado pequenos para todo o queixume que anda afiado na ponta da língua, da caneta, ou do dedo a fazer festinhas nos cristais líquidos de um ecrã sensível do nosso telefone, e as caixas de comentários dos blogues e do Facebook acumulam todo o fel e a face mais badalhoca da humanidade.

Agora, quantos de nós se dedicaram nos últimos tempos à prática do louvor? Quantos de nós deixaram um elogio escrito num livro impresso e encadernado para o efeito que não sai da gaveta ou da prateleira, ou mesmo tímida e anonimamente, algures, por aí, na grande e vasta rede, onde neste momento se cruzaram com este texto?

Bem haja, dizia o meu avô.
É uma maneira de estar e de ser. Que anda de braços dados com o louvor, com o reconhecimento. Anda pelas ruas da amargura, e eu estou longe de os praticar com a dose diária recomendada para a qual a OMS devia alertar, deixando as salsichas em paz.
É impressionante como é tão fácil demolir e tão difícil elogiar: sobe uma timidez grotesca para assumir frontal e inequivocamente o que está bem sem um rubor nas maçãs do rosto, ou um desconforto titubeante que nos dá vontade de fugir ou escondermo-nos atrás de algo a roer uma unha.
E, depois, ainda vem o passo a seguir, a tarefa ainda mais difícil: retribuir ao próximo — que até pode ser o mesmo — na mesma conta, peso e medida. Com um bem-haja, com um louvor público afixado na parede.
Pediram-me para ser especialista de assuntos de ‘Família’ e na minha família usamos palavras e expressões esquisitas, que caíram em desuso, como o bem-haja. E cada vez mais usamos a prática do louvor.

Vocês são maravilhosos, filhos! Desculpem os vossos pais que não vos dizem isso todos os dias. Foto: A Família Numerosa.


Temos muito que dar graças.
Vamos a isso:

Na apresentação aos pais e encarregados de educação no início do ano lectivo, o director de turma da minha filha mais velha, um aparentemente indiferenciado professor da temível disciplina de Físico-Química, leccionada numa escola pública do centro de Lisboa com nome de rainha inglesa com vários milhões de intervenção de uma coisa duvidosa chamada Parque Escolar, desarmou-nos a todos, praticando essa coisa estranha do louvor.
“Os vossos filhos são espectaculares”, disse. “Nunca apanhei na minha vida uma turma tão excepcional”, acrescentou. E nós, pais e mães, claro, desconfortáveis na nossa pele, uma espécie de urticária a alastrar, entre o ardor e a comichão insuportável; uma espécie de culpa, uma espécie de descrença.
Mas então não são umas pestes? Uns mal-educados? Uns pré-adolescentes insuportáveis que ninguém consegue controlar e ter mão? Uma geração de arrogantes autocentrados?
E o professor de Fisico-Química, recém-colocado num concurso que, neste ano de eleições, não deu barraca, continuou com a sua lenga-lenga do bem, com um sorriso franco e aberto, deambulando pelas filas de carteiras da sala de aula, esbracejando: “Que miúdos fantásticos! Vocês, pais, estão de parabéns.”
Desde quando nos esquecemos disto?
Qual foi o momento em que passámos do oito para o oitenta? Desde quando é que deixámos de nos maravilhar com toda e qualquer gracinha dos nossos filhos, que durante um enorme período de estado de graça foram sempre os mais lindos, os mais talentosos, os mais precoces e os mais especiais? Por que raio deixamos nós, pais, de nos deslumbrar com os filhos a certa altura da sua infância, e lhes passamos a cobrar uma perfeição absurda, à prova de erro, negando-lhes parte da sua humanidade e, ainda mais triste, amputando-lhes parte da sua infância?


Qual é a maior façanha do professor de Fisico-Química?
A mim fez-me corar de vergonha, revolver em fracções de segundo a minha consciência, que ficou subitamente pesada por todas as vezes em que cuspi, sem hesitar, “És sempre a mesma coisa” à mínima falha, e nos momentos em que ela foi sublime (e, caramba, já o foi vezes sem conta nos doze anos de vida que vai completar daqui a um par de semanas) ter  raras vezes disparado com a mesma força: “Carolina, tu és uma miúda espectacular; és a melhor filha do mundo.”
Mas o maior contributo do professor de Físico-Química não é para os pais — e temo até que alguns, perdidos na sua vidinha, nem tenham ouvido o alarme que ele subtilmente fez soar em surdina.
Este professor vai mudar o curso de muitas vidas; e vê-se que já o fez antes, que já leva um certo jeitinho, que se revela pelo brilho nos olhos e os braços agitados por estar a mudar a ordem pré-estabelecida da história das vidas nos nossos filhos, que ainda não estão contaminados pelo culto do bota-abaixo — as suas defesas ainda são altas; têm um escudo fortíssimo.
Eis que, de repente, os miúdos estão sentados nas carteiras, numa disciplina nova e com fama de diabólica quando, de repente, um professor indiferenciado lhes diz, sem rodeios, e com toda a lata do mundo, o que é óbvio, e que nós todos nos esquecemos — por pudor, por cansaço, por uma ditadura das notas e dos rankings, por mero descuido — de repetir todos os dias: “Vocês são uns miúdos fantásticos!”
Desde quando nos esquecemos que isso basta para mudar a maneira como eles encaram o mundo e como se encaram a si próprios?
A turma da minha filha mais velha — tenho a certeza — vai ter resultados extraordinários este ano. Vão ser miúdos incrivelmente mais felizes e muito mais seguros de si. E isso vai reflectir-se nas pautas.
E é tudo por causa do professor de Físico-Química, que se chama José Andrade.
Este é o meu louvor público. O meu bem-haja.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O Feminismo Tramou as Mulheres (Mas eu não me posso queixar)

(Obrigada ao Sapo 24, que novamente me deixou dizer de minha justiça)
Artigo originalmente publicado AQUI

Ouvi isto, desde sempre, fulgurosamente apregoado pela minha mãe, que decidiu estar desconfortavelmente inquieta nos antípodas da sua beleza renascentista, esculpida a cinzel em porcelana fina. Ela queimou soutiens, cobriu as suas longas pernas com roupas que transformavam instantaneamente qualquer saco de batata em alta costura, renunciou ao rouge e ao baton, prendeu as madeixas de ouro do cabelo num carrapito de velha. Libertou-se das cintas e dos espartilhos, mas enclausurou na solitária qualquer vestígio da sua feminilidade. Mais do que exigir igualdade, lutou pelo respeito que lhe era devido. Que é devido a todos os seres humanos, independentemente da raça, do credo e do sexo com que nasceram.


Foi feminista fervilhante no tempo da antiga senhora. Não foi fácil. Nunca o é para as mulheres. Muito menos para as incrivelmente bonitas. Mas depois o feminismo tramou-a, saiu-lhe o tiro pela culatra.


Nunca a minha mãe se serviu da sua beleza botticelliana.
Desprezou-a, viu-a sempre como um defeito, pior: uma deficiência, uma maldição que perseguia sempre, e que lhe dificultava o já de si árduo caminho de ser levada a sério.
Por mérito braçal, de jornadas de trabalho intermináveis em África — reza a lenda que Hergé se cruzou com o meu avô Manga-Manga no Congo e assim nasceu o imortal ‘Oliveira da Figueira’ —, a minha mãe cresceu numa gigantesca casa em Viseu no seu Rossio, com cortinas de brocado, móveis de madeiras perfumadas, cheios de torcidos, rococós e embutidos, tapetes da Pérsia e de Arraiolos, pratas e mármores, e um reboliço de criadas que se viam aflitas para lidar com os pioneiros electrodomésticos que vieram revolucionar a vida como hoje a conhecemos: frigoríficos, rádios e televisões.


A minha mãe tocava piano e falava francês. Na parte mais infeliz da sua vida, foi sendo expulsa de vários colégios católicos. Era uma miúda de África: apanhava cobras e largava-as aos pés das freiras, levando-as à loucura, e suportando depois castigos medievais que se seguiam com a coragem de um soldado.
Enquanto fazia todos os possíveis para ser excomungada (ou pelo menos regada em água benta), a minha mãe privou com a ‘fina flor do entulho’ da sociedade portuguesa. Sem brasões, sem linhagens reais, ou apelidos difíceis de pronunciar, a minha mãe estava a ser educada para cumprir a santíssima trindade: esposa exemplar, exímia dona-de-casa, excelsa figura maternal.
Mas não era esse o seu destino.


Teve sorte em ter um pai velho, um homem do início do século, mas mais jovem do que muitos que para aí andam no século XXI, na sua compreensão e humanismo. O meu avô foi pai pela primeira vez aos 48 anos — esteve ocupado a construir um império nas décadas anteriores —, e julgara ter estado a fazer o melhor pelo futuro da adorada primogénita, entregando a sua educação aos melhores e mais caros colégios da altura.

Rapidamente concedeu que a fibra da filha era outra, e que o mundo era composto de mudança: se ela queria fazer diferente, tentar outro papel, restava-lhe a ele apoiar a sua marcha solitária, tratá-la exactamente da mesma forma que aos dois filhos homens.


Ser uma grande mulher não tem a ver com carreiras brilhantes, e feitos que mudam o curso do mundo.No decurso desta história, a feminista desiludida de que vos falo, e que é por acaso minha mãe, deixou dois cursos superiores de Medicina e Farmácia a meio, para cuidar dos filhos. Não foi a mulher-bibelô que podia ter sido: era tão linda, que podia ter ‘casado bem’ (expressão que hoje ainda se usa tanto por aí). Rebelde com causas, casou com um artista, o meu pai, uma alma livre e por demais desprendida destas coisas de que se faz o dia-a-dia, como pagar contas e ter comida no prato e roupa lavada. A minha mãe foi, por isso, obrigada a mutar-se em mulher-amazona, criando dois filhos totalmente sozinha.


Fez um brilhante trabalho: devemos-lhe tudo o que somos, e a nossa fibra é a dela, corre-nos no sangue. Esta é a grandeza dessa mulher a que chamo mãe, que nunca se arrependeu da escolha que foi obrigada a fazer. Por amor. Pôs o feminismo na gaveta. Haverá alguma coisa mais poderosa do que uma escolha de amor?


Eu, desde pequena, que digo que quero ser mãe e dona-de-casa.
Digo isto e todos acham que estou a gozar.
A minha mãe tem razão: o feminismo lixou as mulheres, incluindo aquelas que, como eu, queriam ser mães e donas-de-casa, e que renunciariam sem hesitações ao seu lugar no exigente e canibal mercado de trabalho. O feminismo também devia ser isso.
A minha mãe soube-me sempre capaz de feitos incríveis (todos nós somos: basta termos quem acredite e nos garanta que sim), confiou na (sua) genética e na força do cromossoma xis. Dobrou quase totalmente o meu âmago astrológico de caranguejo, de querer viver todos os segundos da minha vida para a família e para a construção e desconstrução de um ninho, desistiu a certa altura de tentar impedir-me de me embonecar toda, usar saltos altos e decotes grandes (e não nasci esculpida pelo mesmo mestre que ela),mas ainda trago algum ressentimento e muita incompreensão pela sua recusa em comprar-me uma máquina de costura quando era miúda e desejava a Singer mais do que a Barbie, e de ter esperado até aos meus 30 anos para me ensinar a fazer crochet (o meu e seu poderoso e altamente adictivo ansiolítico natural).


Fez tudo para matar a Fada do Lar que há em mim. Não conseguiu totalmente, mas o feminismo também já me lixou a mim também.


O destino trocou-me as voltas. Parece que corre na família este desaire.
É certo que ao menos vivo o sonho de ser mãe — e tenho o privilégio de ser mãe a multiplicar por quatro (muito perto daquele sonho de infância cor-de-rosa). Só que trabalho que me desunho (e por acaso desunho mesmo; parti há instantes uma unha a escrever este texto, que já vai longuíssimo), dentro e fora de casa, e às vezes não há como evitar: falto às reuniões da escola (nem sequer sou a encarregada de educação, já para reduzir as minhas falhas e ansiedade a níveis suportáveis), e já houve dias da Mãe e festas de Natal em que não apareci. Quase nunca fico com as crianças em casa quando têm febre e só querem a mãe, e por vezes chego tarde a casa, e cansada, depois de as rotinas de amor já terem sido executadas magistralmente sem eu lá estar para, pelo menos, assistir.
Mas já não me consumo com esta inevitabilidade de não conseguir estar em dois sítios ao mesmo tempo e de grande parte das vezes ter de fazer a escolha errada: a escolha do trabalho em vez da família. Sinto uma picada de dor fininha, mas já não me flagelo pelas minhas ausências, que tento que sejam as mínimas e as indispensáveis.


Tenho uma família muito grande para os parâmetros actuais, e não quero que nada lhes falte. Por isso não paro, estou sempre inquieta, ou não fosse, ao que dizem, neta do ‘Oliveira da Figueira’ do Tintim.


A minha mãe fez de mim uma líder.
Estou (por agora) incansável. Atrevo-me até a dizer invencível.
Mas tenho um trunfo que a minha mãe não teve: eu não faço esta viagem sozinha, não travo esta batalha de ser uma mulher e ter sucesso sozinha.
Ao meu lado (e não atrás, não é uma mera inversão do género do provérbio tristonho do ‘Atrás de um grande homem está uma grande mulher’) tenho um homem que não ‘ajuda lá em casa’ (outra frase feita do feminismo que entalou a grande maioria das mulheres).
Tenho ao meu lado um marido esculpido a cinzel (tem o nariz mais perfeito do mundo — quem dera que os nossos filhos tenham o teu nariz) que faz, que faz inclusive mais do que eu, que ando sempre de um lado para o outro a sirigaitar em tantos palcos, arenas e ringues.
Sou uma grande mulher por causa deste grande homem, que me facilita tudo, e nada me cobra. Construo com ele a família numerosa com que sempre sonhei (até tenho dois filhos loiros e uma tem olhos azuis; é tudo como nas revistas), e que me elevou ao ponto alto de onde escrevo estas linhas. Ele fica na sombra porque quer — não gosta mesmo de holofotes.
Para mim ele é uma sombra fresca, é a minha sombra, inseparável, é o meu refúgio de paz. Este homem que tive a sorte de encontrar é único no mundo; é a generosidade revestida de pele e ossos. Eu tenho um homem que me deixa ser uma mulher de sucesso, sem culpas, sem acertos de contas, sem se sentir emasculado ou diminuído.


Vivo com um feminista ferrenho. Este é o homem que casou comigo e que, para espanto de todos, adoptou o meu último apelido no seu nome, em último lugar, e depois fez aplicar a mesma regra no nome dos nossos filhos, na simples constatação de que as mulheres também podem passar o seu nome pelas gerações; não é território só dos homens.
Não minto também se vos disser que não sei há quanto tempo não ponho roupa a lavar, ou no estendal, que há anos que não tenho nada a ver com o caixote dos gatos, e que o cão também nem se lembra do que é ir comigo à rua, ou que mesmo as minhas adoradas orquídeas, aquelas que coleccionava mesmo antes de ser mãe, é ele quem cuida delas (deixo-o ser desarrumado à vontade, acho que já não refilo tanto com a bagunça: pelo menos faço um esforço para não me tirar do sério). Nunca me falou com maus modos (e todos temos dias maus — eu não posso dizer o mesmo, infelizmente já fui parva com quem só me fez bem ao longo de quase dez anos) e só muito de vez em quando os nossos quatro filhos o tiram do sério.


Sei que não inverteremos nunca os papéis. Ele é das pessoas mais brilhantes e inteligentes que conheço, mas não tem absolutamente nada a provar a ninguém e o feminismo não o pôs entre a espada e a parede. Eu visto as calças (na verdade esta também é uma imagem parva porque eu quase nunca visto calças) e ele, que também trabalha que se farta a partir de casa, na profissão mais solitária do mundo, a de tradutor e revisor, cuida da família, esse território outrora exclusivo das mulheres.


Sejamos justos: o feminismo afinal não me tramou assim tanto.Agora tenho duas gigantescas missões — garantir que as minhas três filhas se sentem, como eu, capazes de ser e fazer o que bem lhes passar pela moleirinha, mas, mais importante ainda, educar o meu filho a ser tão feminista quanto o pai.



Nota final muito importante: Na empresa onde trabalho no ofício cada vez mais difícil da comunicação e da assessoria de imprensa, há quatro colaboradores com quatro filhos. Há pelo menos um com três, e dezenas com o casalinho ‘piroso’. Neste momento estão três bebés para nascer até ao final do ano: um verdadeiro baby boom. Somos uma empresa líder de mercado, posição que conquistámos e garantimos, pela excelência dos serviços prestados pelos melhores profissionais. Eu e os meus colegas temos um dos trabalhos mais exigentes e stressantes à face da terra, e ainda assim esta empresa regista uma taxa de natalidade muitíssimo superior à da média nacional. Alguma coisa corre verdadeiramente bem por aqui. O que é essencial quando falamos de igualdade e oportunidades. Devo também ao meu patrão e à segurança social portuguesa a possibilidade de, por duas vezes, ter podido tirar oito meses de licença de maternidade, uma pausa longa e importante no ritmo frenético, e que me permitiu ter a certeza que nasci mesmo para ser mãe e dona-de-casa.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Dia das Bruxas

Bruxa Pré-adolescente fez sozinha esta grande e maléfica produção. Porque a mãe este ano não foi capaz.
FOTO: A Família Numerosa

Assim mesmo, em Português.
A língua inglesa cai sempre bem, mas eu sou pelo Dia das Bruxas e não pelo Halloween.

Outubro acaba amanhã e estes têm sido dias incrivelmente duros.

Faço de tudo um pouco para não admitir que a vida, por uns tempos, não vai ser igual ao que era.
A minha mãe recupera, mas as limitações são evidentes e as dificuldades gigantescas. É uma luta constante, há melhoras num dia, e recuos brutais no outro. Ela sofre e todos nós sofremos porque depois de sobreviver vem o trabalho mais difícil. E também mais demorado.

Nos primeiros dias, flutamos na bolha poderosa da adrenalina da sobrevivência . Queremos dar graças por tudo, a sensibilidade está à flor da pele - dizemos a toda a hora 'amo-te tanto', 'és tão importante', 'não posso viver sem ti', 'luta por mim', 'vais conseguir', 'vais melhorar', 'não tarda vais para casa'. Olhamos para o céu e ele está cinzento, mas preferimos deter-nos no bando de papagaios loucos, que são verdes, como a esperança, e que andam por ali a fazer razias aos carros, nos parques de estacionamento do Santa Maria.
E depois essa adrenalina esbate-se, fica em lume brando, e o cansaço, pela primeira vez em muitos meses, põe um pezinho fora de casa, e começa a fazer das suas, devagar, devagarinho, vai soltando as gânfeas.

As bebés, que lindas, têm um sexto sentido, anteninhas sensitivas. Que crescidas e responsáveis.
De um momento para o outro, a Isaurinha, que nunca dormira mais do que três horas seguidas, e todas elas ao meu lado, na minha cama, passou a repousar entre oito a onze horas por noite, no seu quarto, dentro do seu berço novo, quase a estrear. Já a Aurorinha decidiu que não quer usar fraldas e, também de um momento para o outro, sem qualquer intervenção parental, decidiu que o controlo dos esfíncteres era prioritário e banal.

Filhinhas queridas, também elas souberam que tinham que dar um pequenino contributo para que estes dias estranhos e difíceis, em que vimos a vida toda revirada, passem depressa para que tudo volte em breve a uma nova normalidade.

A Família está ainda em modo de emergência: dividimos tarefas, revezamo-nos nas responsabilidades acrescidas que agora temos.
Há quase um mês que não vamos todos nadar, uma das nossas rotinas quase diárias de prazer.
Este ano não fiz uma mega-produção de Dia das Bruxas (apenas a Carolina, que já tem idade para se desenvencilhar fez esta produção maléfica).
Isto não é um queixume. É um pedido às bruxas e a todos os Santos que se seguem, e também ao São Martinho, para que nos traga rápido o seu Verão.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Mais Serviço Público - A melhor babysitter do mundo é minha irmã


Passei toda a minha infância rodeada e acompanhada de homens: irmãos homens, primos homens, e nos logradouros de Alvalade também era tudo bons rapazes... Só rapazes, bem mais velhos, e eu, uma espécie de mascote preciosa, talismã da sorte, a protegida.
Os homens da minha infância deixaram-me entrar no seu mundo desde tenra idade. E eu nunca mais de lá saí. Faço parte de uma irmandade subjacente a ter um penduricalho entre as pernas. Não tenho um, mas deixaram-me lá ficar; era pequenina, inofensiva. Com isso ganhei um vocabulário de carroceiro, fui usada como isco e distracção para roubarem Ginas, chocolates e pastilhas e outras pilantragens. Mas protegeram-me sempre. A verdade é que a rapaziada me passou regras de amizade e camardagem bem simples, que poucas mulheres entendem. 
Jamais, e em tempo algum, fui Maria-Rapaz, mas os rapazes incutiram-me o código da rua proibe todas as calúnias menos chamar nomes às mães (tão simples quanto isso). 
São os meus melhores amigos. Ainda hoje lido muito melhor com o universo masculino, e sinto-me muito homem (apesar das mamocas generosas que quatro gravidezes me deram como recompensa). 
Devo muito aos homens da minha infância (incluindo o meu irmão mais velho) e depois aos homens da minha idade adulta, mas acalentei sempre o sonho de ter uma irmã, alguém com quem dividir o quarto, paixões assolapadas, dramas existenciais, e a gilette das pernas.

Ganhei três irmãs quando casei com o João. Duas ruivas uma morena. A Joana é a mais nova - mana linda-amuleto da sorte, que me deu o sobrinho mais delicioso do mundo que, aos cinco anos, passa horas ao telefone, contando-me todas as suas tagarelices da semana (vai ser jornalista ou assessor de imprensa como a tia). 
A Joana é a mana que eu sempre pedi.
Ela acabou agora o curso de Educadora de Infância e luta por uma oportunidade de trabalho. 
Tem já um currículo e experiência invejáveis: criou duas gémeas desde a nascença (até ingressarem no jardim de infância), enquanto tirava o curso superior, tem experiência em ATL e campos de férias. 
Enquanto (ainda por pouco tempo) continua a engrossar as estatísticas do IEFP e do INE, decidiu oferecer os seus serviços de babysitter.

E é uma honra para mim poder ser a primeira a falar dos serviços da Joana e a recomendá-los: foi a esta menina que entreguei e confiei os meus filhos, pela primeira vez na vida, durante a semana inteira que estive, este Verão, na Noruega. Os miúdos até ficaram tristes quando regressámos.
Aqui fica o serviço público. Usem e abusem, pais. É à garantia.



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre Viver (um post com serviço público lá para o último parágrafo)

Os anjos não têm costas.
Esta semana o bebé aprendeu a levantar-se. Não tarda nada caem-lhe as asinhas e começa a andar.
Foto: A Família Numerosa.

Ao longo da vida vamos engolindo muitas verdades que tínhamos como absolutas.
Esqueçam sapos que viram príncipes - engolimos sapos, não os andamos para aí a beijar.

A digestão dessas verdades que o deixaram de ser vai-se tornando cada vez mais fácil e menos peçonhenta, porque aprendemos muito com o desconforto da azia que sobe até às bochechas por termos feito figura de parvos, e a vergonha do descaramento e arrogância que tivemos ao achar que tudo sabíamos, do alto do pedestal do nosso ego.

Crescemos, envelhecemos e, à partida, se tudo estiver a correr pelo melhor, vamos ficando mais sensatos e com menos sangue na guelra. Ficamos mais abertos a ouvir o outro, os seus argumentos e, quem sabe, a mudar a nossa opinião sem vir mal ao mundo, sem trairmos os seres únicos e imperfeitos que somos, ou a desviarmo-nos da essência e do projecto em construção que vamos levando por esta existência fora.

Claro está, e daí a ressalva, esta é ordem natural das coisas, quando tudo está bem e encaminhado.

Vivemos e aprendemos. Mas nem sempre assim é. Não há nada mais tóxico do que apanhar com a amargura requintada e requentada da velhice, e ainda ontem tive que levar com a má onda pestilenta de uma velha bruxa, na minha aula semanal de hidroginástica, permanentemente zangada com a alegria contagiante da professora. 'A menina é jovem e não percebe como é que esta gritaria toda me perturba'. Tudo perturbava o raio da velha e dei por mim a desejar que ela tivesse uma caibra para não contaminar a água toda com aquele amargor.

Tentarei ser magnânima para a próxima. 

Durante muito tempo não estive tão aberta à mudança e à certeza de que posso sempre aprender alguma coisa com o próximo. Sempre me senti um extraterrestre em grande parte dos meios onde tive que me adaptar para sobreviver, e usei amiúde a soberba de uma pretensa superioridade intelectual para camuflar algumas das minhas fragilidades e fraquezas.

Não sou perfeita, estou muito longe disso, tenho é um caso severo e galopante de perfeccionismo, que não é bem a mesma coisa.

Não me esqueço nunca o desdém de dondoca afectada com que recebi, certo dia, a sugestão e ajuda que uma simpática cabeleireira me ofereceu para arranjar uma vaga numa creche para a Carolina. Mas a creche era no Intendente. E eu, feita parva, nariz empinado e emproado: «Ó Mila, mas eu tenho cara de quem põe os filhos numa escola no Intendente?»

Que grande idiota.

Pouco mais de ano separa esta cena que aqui conto em jeito de acto de contricção e o soluço monumental que a vida deu. Eu e o João encontrámos a casa mais bela de todas onde já deixámos um rasto da nossa história.
E era onde? No Intendente. 

A Carolina e o António entravam também na melhor escola do mundo: a Associação Pro-Infância Santo António de Lisboa (APISAL), a quem agora confio também a Aurora e a Isaura.
A tal escola que a Mila me falava depois de me cortar uma franja ridícula que me fazia parecer uma menina doce.

(Arroto, que tonta, que verdade absurda tão bem engolida)

No primeiro dia de escola, a Carolina tornou-se a rainha do primeiro ciclo - e eu recebi logo propostas indecentes dos catraios: 'Ela é tão linda!', disse-me um ao fim da tarde, pedindo-me permissão para namorar. Do lado oposto, na creche, entreguei o bebé gordo, anafado e mimado que era o António a uma mulher negra, de sorriso gigante e coração resplandecente, que se chama Abi.
Ela abraçou-me e secou-me as lágrimas da separação, garantiu-me que não o deixaria chorar. E não deixou mesmo. Algum tempo depois soube que adormecia o seu 'Antoine' ao colo, às escondidas, no seu colo fofo.
É um privilégio ter uma ajuda destas, uma verdadeira escola dos afectos, ali no mal-amado Intendente.

A Isaura com a boneca Abi. Foto: APISAL.

Muitas, tantas outras vezes estive errada nas minhas bujardas e sentenças, e preciso ainda de confessar esta. 

Quando estava grávida do António lembro-me da perplexidade inflamada que exprimia pela opção da minha vizinha Helena, tão jovem, tão trabalhadora, e a caminho do seu sexto filho. Agora sou eu que tenho quatro e atinjo que não é nenhum bicho de sete cabeças. Frases-feitas como 'eu não tenho capacidade para ter mais do que dois filhos', ou 'os miúdos pequenos dão cabo do casamento e do romance', entre outras pérolas, são redutoras, vazias de significado. Para mim, que me vi confrontada com este fabuloso destino, deixaram de fazer qualquer sentido: não me revejo e não me venham dizer que tenho super-poderes, porque não tenho. E as certezas inabaláveis sobre aquilo que vai ser o meu futuro e a minha vida não as tenho.
De repente, tudo muda. 

Haja o que houver tento ter mais tento na língua. Ainda não cheguei ao ponto em que escuto mais do que falo, mas para lá caminho.

É fácil cagar sentenças, alimentar o monstro do preconceito. 

«Devem ser do Opus Dei», «Então mas não sabem o que é a pílula?», «Onde é que arranjam o dinheiro para alimentar aquela gente toda?»

Quando a família atinge as (modestas) proporções da nossa, temos constantemente um elefante na sala. E esse elefante grita-nos que temos que ir comprar leite, pão, fraldas, arroz, massas, carne, peixe... Iogurtes (meu Deus, tantos iogurtes!).

Também temos que vestir as criancinhas, que não aguentam a roupa de uma estação para a outra e, bolas, procriámos cedo de mais e ninguém raramente tem nada para nos passar; nós é que passamos tudo para os primos e amigos! Como já ninguém tem sótãos ou arrecadações - pelo menos quem decidiu ficar por Lisboa sem as comodidades da construção nova do subúrbio -, o exercício de guardar de uns para os outros é cada vez mais difícil (lá está, sobretudo quando já se teve que improvisar um quarto onde existia uma sala, porque houve uma filha linda que decidiu aparecer sem avisar os pais). 

É um constante malabarismo.
E o elefante sempre a chicotar-nos com a tromba para nos mantermos na linha e tocarmos a sineta para recebermos a recompensa pelo trabalho bem feito!

Ter uma família numerosa exige alguma organização e planeamento.
Não somos neuróticos com essa necessidade de planificar tudo ao detalhe - ninguém faz grandes listas, nem menus semanais (tenho um sonho de planificar refeições, confesso), não temos as roupas alinhadas por cores ou tamanhos (apesar de eu já ter tentado quando era solteira e boa rapariga), e também não organizámos a cozinha de uma forma muito lógica, e vemos isso pela inabilidade de a empregada que está connosco há uns cinco anos em dominar o mapa das canecas, pratos, copos ou os tupperwares.
Fazemos deliberadamente uns apontamentos de loucura e arbitrariedade à nossa vida e à organização do lar, porque, caramba, de outra forma, tudo certinho, seria uma monotonia em tons de cinza.

No nosso âmago, eu e o João somos uns despassarados com a cabeça no ar. Somos da matéria que se fazem os sonhadores. Mas vimo-nos obrigados a atinar para levarmos este empreendimento avante. Dominamos todas as burocracias com as Finanças e Segurança Social como ninguém. Vencemos esse labirinto e somos uma espécie de guru para os nossos amigos, que nos vêem como especialistas a vencer a turtuosa máquina do Estado. 

As compras para a casa são uma dor de cabeça, mas temos um ritual, com o qual me tento divertir, como num jogo de telemóvel de encaixar as pecinhas todas umas nas outras, ordenando o caos e ganhando pontos extra. Tiro mesmo grande prazer numa pechincha. Mais do que aquele que retiro ao comer um chocolate.

Nunca há monotonia no momento de encher a despensa e, com dois bebés a gastar fraldas, a escolha do supermercado passa simplesmente por apurar onde existem Dodot Activity com 50% de desconto. Não compro por menos de 50%, ou seja 9,99 euros. São as melhores fraldas do mercado, absorvem como nenhumas outras, e acumulo-as sempre que as encontro em promoção, até porque a pilha enorme de pacotes desaparece quase por artes mágicas (o provérbio 'Parece manteiga em nariz de cão' aqui seria 'parece fraldas em rabo de filhas'). 

Este fim-de-semana fomos ao Jumbo. Há duas semanas tinha sido no Lidl. (Abençoados sejam os grupos de Mães do Facebook e a solidariedade entre mulheres - Love you, For Moms!!!)

Foi uma decisão difícil e penosa, mas desistimos das compras online. Recorrentemente os artigos em promoção entram em ruptura de stock e não são entregues. Quando uma família baseia o seu carrinho de compras em promoções, deixaram de estar reunidas as condições para esta ajuda enorme que era fazer as compras pelo computador, pela madrugada fora se necessário fosse e sem crianças descontroladas a exigirem açúcar e snacks cheios de gordura e sal.

Outro dia o Continente deu-se conta que deixámos de gastar milhares de euros por ano no seu serviço online e, viajando perfeitamente na maionese, contactou-me telefonicamente pedindo-me para que perdesse uma tarde da minha vida para um focus group onde pudesse expor e avaliar o que tinha corrido mal!!!!
«Mas não podemos fazer isso por telefone? E por Skype? Não? Opá, vocês são engraçados: então acham que alguém vos vai aí dizer seja o que for??? Está a ver: as pessoas que fazem compras online não têm tempo para ir aos supermercados! Muito menos para estar enfiados em estudos de mercado!».
Enfim, CRM para loucos! Incompreensível.

O meu desencanto com a grande distribuição portuguesa e a Internet na era das promoções bombásticas sai-me do pelo. Obriga-me a perder parte da manhã de um Sábado ou de um Domingo nas grandes compras da semana (e são sempre grandes, mesmo que depois avie os frescos, a carne e o peixe na Praça ou nas mercearias / frutarias de bairro). Vou para arena do hipermercado com quatro crianças atreladas, duas em carrinho de bebé. É pior pesadelo para um jovem casal de pais já muito cansados da semana infindável de trabalho.

Mas tudo se faz. 
E no final do dia há uma sensação de superação e vitória que penso ser idêntica à de um atleta de alta competição.

Ao fim-de-semana os pais também têm trabalhos de casa: vassouras de Halloween pirosas!
O António sobrevive à bebedeira do cor-de-rosa... FOTO: A Família Numerosa.

Nas roupas, quem me conhece, sabe o meu histórico de pirosa em estado terminal. Não sou uma mãe que vive para os lacinhos do cabelo das filhas, ou para as carneiras dos filhos, mas gosto de brincar às princesas - e, minha gente, tenho três miúdas cá em casa: é a mesma coisa que pôr um drogado na Colômbia!

Quando tive a Carolina e a redacção do Público foi muitas das vezes o seu jardim-de-infância, a editora de Política dizia-me sempre, em jeito de gozo e provocação: «Mas porque é que tens que vestir a miúda de reposteiro?»
O tempo passa mas continuo a vestir as minhas filhas de reposteiro.
Não há cá leggings, nem gangas (só em último recurso), nem fatos de treino.

E sabem como é possível?
Porque me deixei de pudores e pruridos ao dado e ao comprado em segunda mão.
Para além dos grupos de Facebook específicos (com grupetas divinas, onde já fiz belos negócios e boas amigas), há uma coisa extraordinária que bate tudo, chamada Humana For People (tem quatro lojas no eixo da Avenida Almirante Reis - desde o Areeiro, passando pelo Chile, em frente à Portugália, e acabando no Intendente).

Passo agora para a parte deste texto de serviço público: esta semana a Humana está a despachar duas peças de criança (quaisquer que sejam as peças - casacões de Inverno incluídos) a 2 euros. Ou seja, cada peça custa uma moeda de eurito - nem um queque se compra por um euro hoje em dia.

Minha gente, a renovação de Outono da Isaura e da Aurora custou seis euros.

Olha eu a fingir que sou um blog de moda, a preços da uva mijona!

Quatro vestidos de boas marcas e duas malhas: meia dúzia de euros. Imbatível. A Farrusca não está à venda. Foto: A Família Numerosa


Isto é não é sobreviver; é sobre viver. É saber viver.


sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ocaso - A Odisseia

Ulisses virava muitas vezes a cabeça para o sol que tudo ilumina, desejoso de ver o ocaso: pois só pensava no regresso
Homero, Odisseia, trad. Frederico Lourenço, XII, vv.28-30.

Dia 3 da Odisseia. 53 anos separam avó e neta. Só mesmo meio século e três anos as separam: são em tudo idênticas. 

Regressar a casa.
Ulisses só queria voltar a casa. Esse desejo norteou-o, guiou-lhe os passos na sua incrível Odisseia. Guerras sangrentas, ciclopes, sereias, feiticeiras, a ira e a compaixão dos Deuses, profecias e prenúncios, esperança e coragem, desespero e agonia. Mas Ulisses, o herói da grande Odisseia, empreendeu toda as suas forças e engenho para voltar a casa.

O ocaso. 
Ulisses desejava o ocaso, o dia a quedar-se no horizonte.
O dia que nasce e ilumina tudo nada encerra: traz consigo a angústia do leque aberto com todas as possibilidades. Depois há dias para todos os gostos - há dias mornos, em que nada de extraordinário acontece, há dias de tempestades no mar e na terra, em que a força dos Deuses se faz sentir como um rugido das profundezas mais longínquas do coração da terra. Há dias em que sol corta como uma faca afiada, e outros há em que se limita a aquecer a alma e a guiá-la por atalhos piedosos que encurtam a viagem. 
Os dias deixam tudo em aberto. Mas o ocaso encerra sempre um dia da jornada, um dia a menos para o chegarmos ao sítio onde somos esperados. E somos sempre esperados algures.

Dez dias passaram desta Odisseia. 
Ulisses esperou dez anos e outros dez para voltar a Ítaca.
Connosco os Deuses foram mais brandos.

Teria talvez a idade da minha filha mais velha quando eles, os Deuses, me acordaram com um ruído ensurdecedor que me fez expandir os pulmões em toda a sua capacidade, e abrir muitos os olhos com uma explosão de negro da pupilas, num acto de automática sobrevivência. 

Uma tarde destas, uma mulher sofrida descrevia-me em detalhe o momento em que sobreviveu e, acto contínuo, renasceu, numa cama de hospital. Ouviu, segredou-me ela, o barulho das suas pestanas a baterem umas nas outras, como as asas de borboleta. Nessa manhã em que eu era menina e, que agora recordo, numa odisseia pelas minhas recordações mais profundas, cicatrizes que não podemos - espero - esquecer ou camuflar, levantei-me da cama em sobressalto e alarme, e fui atingida, à porta do meu quarto, pela primeira imagem de caos em que a vida se pode transformar, de um breve instante para o outro: os gatos da minha mãe haviam tombado um frasco de vidro muito alto e estreito, recheado de berlindes e abafadores de vidro de todas as cores (os meus favoritos eram os nacarados, como as pérolas), que, libertos, rolavam, esgazeados e barulhentos, numa maré-viva descontrolada por toda as assoalhadas da nossa casa.

Os guelas andam por aí soltos há dez dias.

Era um dia de chuva, o mar estava revolto, zangado, e eu revoltada e zangada com ele, porque não era dia para maus fígados de Neptuno. 

Acabara de casar a minha madrinha de casamento -- feiticeira que me ajudou a passar ilesa por mares povoados de sereias mortíferas, para poder chegar à porta de um prédio de seis andares com vista para o Jardim da Estrela --, quando o telefone tocou, e o frasco de berlindes se estilhaçou de novo aos meus pés, com um estrondo tão forte como o de um relâmpago de uma trovoada seca de Verão.

Só que agora eu não era menina, mas tinha comigo quatro meninos, que não podia assustar com o pânico que me invadia e rebentava, uma a uma, as mais automáticas funções do meu ser: falar, respirar, mexer os braços e as pernas, piscar os olhos (ouvi, porém, as minhas pestanas a bater umas nas outras, numa agitação de asas de colibri).

Fiquei congelada, o sangue fugiu-me das bochechas, e uma tontura quis levar-me a dançar uma valsa louca. Fiquei a olhar fixamente para os olhos do João, e contei-lhe detalhadamente por telepatia o que acabara de acontecer. Fiquei à espera de uma ordem dele para começar a reagir. Rápido e coordenadamente, sem atropelos, ou pânicos.
A bebé chorou e eu dei-lhe de enfiada duas papas da Bledina. Talvez tenha batido o recorde de dar papas Bledina do mundo. 

O tempo parou, ou eu parei-o para conseguir processar tudo.
O espaço também se bifurcou, na sua linha contínua: noutro local, precisamente ao mesmo segundo, a minha mãe estava a ter um AVC, ia a caminho do hospital, já perdera a capacidade de falar. E nós acabáramos de casar a nossa amiga Teresa, madrinha do nosso casamento, havia pétalas de rosa e arroz no chão, frente ao mar revolto da Linha, e ela seguia tão bela e feliz para o copo de água onde eu não a poderia beijar e abraçar.

Nesse instante, o dia ainda ia a meio, o sol debaixo das nuvens carregadas, acabar de chegar ao seu ponto mais alto, mas eu passei apenas a importar-me com o ocaso, no dia que se encerra e encurta o caminho escarpado que falta trilhar.

No primeiro pôr-do-sol pedi a cada um dos gatos da minha mãe uma vida emprestada. 
Não lhes custava nada: têm tantas, e eles, obviamente, nem hesitaram, tão aterrorizados pela possibilidade da perda como eu. Acederam. Estou-lhes grata.

E depois veio o ocaso. 
Tudo passou a centrar-se no ocaso seguinte.

A noite, claro, foi dura: foi a mais dura e escura de todas as noites. 
Fumei de enfiada, à janela, todos os Português Suave amarelos da minha mãe. Do alto do vertiginoso sétimo andar sobre Alvalade, piscou, pela noite fora, um clarão intermitente vindo de um candeeiro de jardim, que encadeou todos os meus sentidos, que já de si funcionavam descompensados, em modo de sobrevivência.




Guio toda a minha vida por sinais, escolho o certo e o errado pela lente de uma intuição bacoca, quase infamtil. Mas a realidade é nesse dia eu que tinha os sentidos, incluindo o sexto, em curto circuito, como o candeeiro do jardim. A desesperança tomou conta da noite, quando, entre o fumo do cigarro, me deixei hipnotizar pela luz morrente do candeeiro do jardim. Assim interpretei o clarão.

Por instantes, por longos instantes, acreditei que o pior ia acontecer, e revivi o momento em que a minha mãe passou por mim e pelo meu irmão, mudos, à porta do corredor dos cuidados intensivos, com o olhar desesperado de quem está preso em si, sem se conseguir libertar, e sem ter sequer a capacidade de gritar um ai. Acreditei que o prenúncio do dia de tempestade, do ano terrível que já me levou tantas pessoas, continuaria no seu propósito devastador, imparável.

Mas não eram as intermitências da morte: li tudo mal; era um farol que a guiava pela noite mais longa de toda a sua vida.

A luz do dia seguinte, a tal que tudo ilumina, trouxe angústias, receios, dificuldades.
Chamam-lhes sequelas. 
É esse o termo médico apropriado.
A cada ocaso uma conquista, um dia a menos para o regresso.

Sou, neste momento, uma menina-soldado, assustada e em permanente modo de luta armada.
Nunca estive tão frágil e vulnerável, nunca precisei de tanto da minha mãe, nem mesmo quando nasci. Enfrentei a sua mortalidade e, portanto, enfrentei também a minha própria mortalidade. Trago as lágrimas guardadas num poço sem fundo, para o dia em que, finalmente, possa libertar as represas, num alívio violento. Travo uma guerra, a minha pequena odisseia, desde a primeira hora de luz até ao próximo ocaso: o dia em que me tornei mãe da minha mãe chegou. 

A minha mãe sobreviveu. Renasceu há dez dias e já regressou a casa.

A cada ocaso continua a sua odisseia.