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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Ocaso - A Odisseia

Ulisses virava muitas vezes a cabeça para o sol que tudo ilumina, desejoso de ver o ocaso: pois só pensava no regresso
Homero, Odisseia, trad. Frederico Lourenço, XII, vv.28-30.

Dia 3 da Odisseia. 53 anos separam avó e neta. Só mesmo meio século e três anos as separam: são em tudo idênticas. 

Regressar a casa.
Ulisses só queria voltar a casa. Esse desejo norteou-o, guiou-lhe os passos na sua incrível Odisseia. Guerras sangrentas, ciclopes, sereias, feiticeiras, a ira e a compaixão dos Deuses, profecias e prenúncios, esperança e coragem, desespero e agonia. Mas Ulisses, o herói da grande Odisseia, empreendeu toda as suas forças e engenho para voltar a casa.

O ocaso. 
Ulisses desejava o ocaso, o dia a quedar-se no horizonte.
O dia que nasce e ilumina tudo nada encerra: traz consigo a angústia do leque aberto com todas as possibilidades. Depois há dias para todos os gostos - há dias mornos, em que nada de extraordinário acontece, há dias de tempestades no mar e na terra, em que a força dos Deuses se faz sentir como um rugido das profundezas mais longínquas do coração da terra. Há dias em que sol corta como uma faca afiada, e outros há em que se limita a aquecer a alma e a guiá-la por atalhos piedosos que encurtam a viagem. 
Os dias deixam tudo em aberto. Mas o ocaso encerra sempre um dia da jornada, um dia a menos para o chegarmos ao sítio onde somos esperados. E somos sempre esperados algures.

Dez dias passaram desta Odisseia. 
Ulisses esperou dez anos e outros dez para voltar a Ítaca.
Connosco os Deuses foram mais brandos.

Teria talvez a idade da minha filha mais velha quando eles, os Deuses, me acordaram com um ruído ensurdecedor que me fez expandir os pulmões em toda a sua capacidade, e abrir muitos os olhos com uma explosão de negro da pupilas, num acto de automática sobrevivência. 

Uma tarde destas, uma mulher sofrida descrevia-me em detalhe o momento em que sobreviveu e, acto contínuo, renasceu, numa cama de hospital. Ouviu, segredou-me ela, o barulho das suas pestanas a baterem umas nas outras, como as asas de borboleta. Nessa manhã em que eu era menina e, que agora recordo, numa odisseia pelas minhas recordações mais profundas, cicatrizes que não podemos - espero - esquecer ou camuflar, levantei-me da cama em sobressalto e alarme, e fui atingida, à porta do meu quarto, pela primeira imagem de caos em que a vida se pode transformar, de um breve instante para o outro: os gatos da minha mãe haviam tombado um frasco de vidro muito alto e estreito, recheado de berlindes e abafadores de vidro de todas as cores (os meus favoritos eram os nacarados, como as pérolas), que, libertos, rolavam, esgazeados e barulhentos, numa maré-viva descontrolada por toda as assoalhadas da nossa casa.

Os guelas andam por aí soltos há dez dias.

Era um dia de chuva, o mar estava revolto, zangado, e eu revoltada e zangada com ele, porque não era dia para maus fígados de Neptuno. 

Acabara de casar a minha madrinha de casamento -- feiticeira que me ajudou a passar ilesa por mares povoados de sereias mortíferas, para poder chegar à porta de um prédio de seis andares com vista para o Jardim da Estrela --, quando o telefone tocou, e o frasco de berlindes se estilhaçou de novo aos meus pés, com um estrondo tão forte como o de um relâmpago de uma trovoada seca de Verão.

Só que agora eu não era menina, mas tinha comigo quatro meninos, que não podia assustar com o pânico que me invadia e rebentava, uma a uma, as mais automáticas funções do meu ser: falar, respirar, mexer os braços e as pernas, piscar os olhos (ouvi, porém, as minhas pestanas a bater umas nas outras, numa agitação de asas de colibri).

Fiquei congelada, o sangue fugiu-me das bochechas, e uma tontura quis levar-me a dançar uma valsa louca. Fiquei a olhar fixamente para os olhos do João, e contei-lhe detalhadamente por telepatia o que acabara de acontecer. Fiquei à espera de uma ordem dele para começar a reagir. Rápido e coordenadamente, sem atropelos, ou pânicos.
A bebé chorou e eu dei-lhe de enfiada duas papas da Bledina. Talvez tenha batido o recorde de dar papas Bledina do mundo. 

O tempo parou, ou eu parei-o para conseguir processar tudo.
O espaço também se bifurcou, na sua linha contínua: noutro local, precisamente ao mesmo segundo, a minha mãe estava a ter um AVC, ia a caminho do hospital, já perdera a capacidade de falar. E nós acabáramos de casar a nossa amiga Teresa, madrinha do nosso casamento, havia pétalas de rosa e arroz no chão, frente ao mar revolto da Linha, e ela seguia tão bela e feliz para o copo de água onde eu não a poderia beijar e abraçar.

Nesse instante, o dia ainda ia a meio, o sol debaixo das nuvens carregadas, acabar de chegar ao seu ponto mais alto, mas eu passei apenas a importar-me com o ocaso, no dia que se encerra e encurta o caminho escarpado que falta trilhar.

No primeiro pôr-do-sol pedi a cada um dos gatos da minha mãe uma vida emprestada. 
Não lhes custava nada: têm tantas, e eles, obviamente, nem hesitaram, tão aterrorizados pela possibilidade da perda como eu. Acederam. Estou-lhes grata.

E depois veio o ocaso. 
Tudo passou a centrar-se no ocaso seguinte.

A noite, claro, foi dura: foi a mais dura e escura de todas as noites. 
Fumei de enfiada, à janela, todos os Português Suave amarelos da minha mãe. Do alto do vertiginoso sétimo andar sobre Alvalade, piscou, pela noite fora, um clarão intermitente vindo de um candeeiro de jardim, que encadeou todos os meus sentidos, que já de si funcionavam descompensados, em modo de sobrevivência.




Guio toda a minha vida por sinais, escolho o certo e o errado pela lente de uma intuição bacoca, quase infamtil. Mas a realidade é nesse dia eu que tinha os sentidos, incluindo o sexto, em curto circuito, como o candeeiro do jardim. A desesperança tomou conta da noite, quando, entre o fumo do cigarro, me deixei hipnotizar pela luz morrente do candeeiro do jardim. Assim interpretei o clarão.

Por instantes, por longos instantes, acreditei que o pior ia acontecer, e revivi o momento em que a minha mãe passou por mim e pelo meu irmão, mudos, à porta do corredor dos cuidados intensivos, com o olhar desesperado de quem está preso em si, sem se conseguir libertar, e sem ter sequer a capacidade de gritar um ai. Acreditei que o prenúncio do dia de tempestade, do ano terrível que já me levou tantas pessoas, continuaria no seu propósito devastador, imparável.

Mas não eram as intermitências da morte: li tudo mal; era um farol que a guiava pela noite mais longa de toda a sua vida.

A luz do dia seguinte, a tal que tudo ilumina, trouxe angústias, receios, dificuldades.
Chamam-lhes sequelas. 
É esse o termo médico apropriado.
A cada ocaso uma conquista, um dia a menos para o regresso.

Sou, neste momento, uma menina-soldado, assustada e em permanente modo de luta armada.
Nunca estive tão frágil e vulnerável, nunca precisei de tanto da minha mãe, nem mesmo quando nasci. Enfrentei a sua mortalidade e, portanto, enfrentei também a minha própria mortalidade. Trago as lágrimas guardadas num poço sem fundo, para o dia em que, finalmente, possa libertar as represas, num alívio violento. Travo uma guerra, a minha pequena odisseia, desde a primeira hora de luz até ao próximo ocaso: o dia em que me tornei mãe da minha mãe chegou. 

A minha mãe sobreviveu. Renasceu há dez dias e já regressou a casa.

A cada ocaso continua a sua odisseia.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

A Esquerda. A Direita. A Família Numerosa foi votar.


'Bom dia, República!", diz a Princesa Aurora. FOTO: A Família Numerosa.

Os meus filhos são crianças com consciência política. Como todas as crianças, aliás. Não conheço nenhuma que não tenha uma consciência política inata, a revelar-se nos pequenos detalhes e desde os primeiros dias de vida. Não é precisa lupa ou faro apurado: basta estarmos atentos às pequenas nuances destes pequenos e adoráveis seres. Somos animais políticos e eles são aprendizes de feiticeiros. E eu nunca li Platão para sabê-lo.

Há um déspota iluminado e um ditador sul-americano em cada um dos meus filhos.
Coexistem, na verdade, vários sistemas políticos nesta família.

Eu por vezes também suspendo a Democracia de manhã e instauro uma Ditadura Militar à hora de deitar.
Há regimes para todas as ocasiões; é à escolha do freguês: elas são princesas e ele é o príncipe perfeito.
Sem títulos, sem brasões, sem sangue real ou apelidos catitas, nós, os pais, por vezes somos do povo, aquele que trabalha o dia inteiro em troca de um salário que não cresce como com os bolos que faço na cozinha aos fins-de-semana, carregando no fermento, e que não estica, como as calças pingonas do chinês, que dão com tudo e resistem às minhas flutuações de peso entre gravidezes, amamentações, dietas loucas e outros disparates diversos.

Esta vida não é uma incrível bolha mágica do País das Maravilhas o tempo todo, 24 horas por dia, e por vezes roça a escravidão.
Somos escravos de muitas coisas, elementares, básicas, corriqueiras, comezinhas - somos subjugados pela roupa e loiça suja (anda para aí um anúncio de televisão a um detergente de máquina de lavar a loiça genial que fala deste ciclo interminável de sujidão), e no gigantesco mês de Setembro, o mês de todas e das mais sufocantes despesas, com quatro crianças na escola, rendemo-nos à evidência que precisávamos de uma máquina de lavar a roupa de 11 kg para deixar de fazer duas máquinas por dia. Vivemos agrilhoados aos banhos e às rotinas básicas de uma família qualquer, e que incluem o planeamento e a elaboração de refeições, e também as inesgotáveis actividades e experiências diversas - lúdicas, culturais e de toda a ordem - que os nossos amos pequeninos nos exigem. Sem chicote.

Vivemos em permanente luta de classes nestas quatro paredes.
E às vezes ascendemos na longa escada social e sentamos o nosso rabo burguês num sofá magenta um bocado desconfortável, e respiramos fundo, todos satisfeitos por tudo o que temos, por tudo o que alcançámos em 37 anos de vida e nove de vida em comum.
Partimos com um avanço considerável e a nossa felicidade não é a mera listagem e contabilidade de tudo o que temos; a equação é mais complexa e concede maior ponderação ao que somos. E somos mais, muito mais do que a soma das partes. Essa é a magia de uma família grande.
Mas é fácil, foi mais fácil para nós porque nós já nascemos burguesinhos. E os meus filhos - deixemo-nos de rodeios e de tretas; temos que ter noção da situação de privilégio e as águas calmas pelas quais navegamos sem tormentas de maior  - também.

Temos uma casa grande, com quatro quartos - um improvisado, mas são quatro quartos, não deixa de ser um luxo -, num bairro chique, um apartamento que não pagamos, porque nos foi oferecida, assim de mão beijada, pela minha mãe. E essa casa, cheia de coisas bonitas, algumas velhas, outras de família, e ainda uns tarecos iguais a todas as outras casas, que comprámos na loja sueca, é a base de tudo. A nossa sorte começa aqui.

Depois, conduzimos dois carros muito velhos, mas que não deixam de ser dois carros, oito rodas, dois motores, com seguros, gasolinas, revisões e inspecções feitas (infelizmente ou felizmente, não temos um Volkswagen). Há quatro computadores cá em casa (dois muito velhos e dois em segunda-mão), um smartphone de 99 euros com o monitor todo estilhaçado e uma bateria viciada e um tablet Android oferecido a uma criança com seis anos.
Há orçamento suficiente para uma despesa inesperada - como uma junta da cabeça do motor queimada, ou um aparelho fixo nos dentes da mais velha -, e ainda sobra qualquer coisita para um indecente rodízio de carnes sul-americanas (onde as duas mais novas não pagam e o do meio só paga metade).Depois de tantos anos juntos, até conseguimos, finalmente, fazer umas férias na Europa, e lá fomos ao sol da meia-noite da Noruega (bela pontaria para um destino tão caro quanto civilizado).

Não é só o regime político e a classe social que estão em constante mudança nesta casa.
O sistema económico também passa do capitalismo selvagem, do consumismo desenfreado, para a troca directa, e para o consumo responsável e sustentável, sem fundamentalismos quanto ao óleo de palma, sacos de plástico e outras maradices biológicas (tudo o que é demais é moléstia).

Os Manos Ralha - serão eles os próximos irmãos da Política Portuguesa? Por enquanto ficam-se pelo consenso das bolas-de-Berlim. Foto: A Família Numerosa.

E tudo isto a propósito de eleições.
As voltas de sempre.

Eu não estava preparada para comprar um soutien para a minha filha mais velha há um ano, e também não estava à espera que aos onze anos de idade ela me perguntasse:

'Qual é a diferença entre a esquerda e a direita?'

Os meus filhos têm muita consciência política.
A culpa é nossa. Não a praticamos em São Bento, nem nos Paços do Concelho da mui nobre e sempre leal cidade de Lisboa - o que é uma pena até; não tenho a menor dúvida que seríamos inacreditáveis políticos, em bancadas opostas -, mas ambos vivemos a Política com um fervor religioso, um entusiasmo contagiante. E isso não tem nada a ver com partidos. É um estado de espírito, uma predisposição. E as crianças, adoráveis esponjinhas aparentemente desligadas da realidade dos 'adultos' percebem tudo, apanham tudo.
Duplicámos o tamanho da nossa família durante a estadia da Troika neste rectângulo: a Aurora e a Isaura têm como madrinhas a tia Austeridade. Escusado será dizer que a madrinha não manda folar pela Páscoa e no Natal nem umas míseras peúgas.

Filha da Troika. Afilhada da Austeridade. Vestida para votar num dia de Outono de Outubro. Foto: A Família Numerosa.

O António e a Carolina (sem esquecer o cão Cenoura) participaram, que me lembre, em pelo menos duas gigantescas manifestações de indignados, e sempre que passam pela Assembleia da República gritam: "Olha o Povo Unido!" (o pai faz sempre questão de os avisar que o povo já foi vencido, no picanço).
Nas últimas autárquicas, fizemos, durante a licença de maternidade da Aurora e a partir da nossa casa sem água potável de São Félix, em São Pedro do Sul, o projecto Sexy Autárquicas, que saiu em todos os jornais e televisões, e concluiu, sem margem para qualquer discussão, que há uma maioria absoluta à esquerda se os programas eleitorais se resumissem à beleza, e que o PCP é uma incubadora de borrachos.
Foi também nessas autárquicas que, pela primeira vez na vida, estivemos todos, sem excepção, ao lado do Partido Socialista, na candidatura do nosso gigantesco amigo-para-a-vida Pedro Coelho dos Santos à Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço (sim, aquela terra dos parques infantis e das cartas de condução duvidosas). Com comícios, arruadas e jantares-convívio incluídos. A amizade tem destas coisas, que transcendem ideais e convicções políticas.

As minhas crianças percebem mesmo muito de Política.
Sabem reconhecer o Passos, o Portas, o Costa, a Marilu, como carinhosamente chamamos a mulher-de-ferro das Finanças portuguesas, e têm um gigantesco núnero de professores candidatos e cabeças-de-lista pelo PAN. Ainda se lembram do Gaspar e das maldades colossais que nos fez, e nestas Legislativas passaram a reconhecer a Catarina e a saber qual a diferença entre uma sigla e um acrónimo. Aprenderam também o verbo 'concatenar' (a televisão e a campanha tem destas coisas também).


Os meus filhos, os vossos filhos são o futuro deste país.
Aos meus, ensino-lhes Política desde o berço, segue pela mama: rejeito a ideia de que os políticos são todos iguais e que a abstenção e o cuzinho sentado farão mais por Portugal do que os políticos possíveis neste momento. Talvez não sejam os melhores, mas são os que temos. E se a crise me ensinou algo foi que tenho que saber fazer o melhor possível com o pouco que me é apresentado. Isso abarca tudo, Política incluída.

Os meus filhos serão de Direita, de Esquerda ou de Centro, Monárquicos, Anarquistas, Revolucionários. Tanto faz. Os meus, os vossos filhos serão os Políticos do futuro.
Há cem anos anos as minhas três filhas não teriam direito a votar; eu e elas seríamos pessoas de segunda categoria.
Há 40 não havia eleições livres no meu país.


Núcleo do PAN na nossa casa. FOTO: A Família Numerosa
Mamã. qual é a diferença entre a Direita e a Esquerda?

Filha, não é simples a pergunta, e por favor a seguir não me peças para te responder se Deus existe e se há vida depois da morte.
Olha, não há ninguém de Direita, como a mãe, que não acredite na esmagadora maioria dos princípios que a Esquerda defende: a liberdade, a igualdade, a justiça social, o emprego digno, os direitos básicos, o progresso colectivo. As pessoas de Direita acreditam noutras coisas, no lucro, na propriedade e iniciativa privada, e depois em algumas em que eu não acredito nada. Lembras-te do cartaz dos idiotas do PNR? Lembras-te o que a mãe te explicou, que os refugiados não são terroristas, que não nos vêm roubar nada, como tinhas ouvido? Que tudo lhes foi roubado e que nós temos que ajudar? Pois, olha, nisso a mãe não é de Direita. A mãe gosta muito de imigrantes. A nossa querida D. Nargeeza é muçulmana e achas que ela é terrorista? Quanto muita acha-vos a vocês uns talibans!
O importante, filha, não é ser de Direita ou de Esquerda, de um partido ou de outro, como num clube de futebol. O importante é conhecer as propostas, ler os programas, ouvir o que esta gente tem para Portugal. O importante é votar. Sempre votar. Se calhar, umas vezes à Direita, outras à Esquerda. Saltar de um lado para o outro. Mudar de ideias. Acreditar. Desiludir. Voltar a tentar. Fazer a melhor escolha possível. Em consciência. Nunca desistir. Da Democracia. Promete-me que vais votar sempre. Que vais tentar sempre votar.

E Domingo de chuva, véspera da República, lá seguimos os seis para a escola primária colada à igreja, um cavaquistão em Lisboa, e nós, à boca da urna cheios de filhos, quem nos visse não teria dúvida: 'Olha que linda família PAF!"
E no entanto...
Não cabemos na maioria dos carros em circulação e em nenhum esterótipo...

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

As minhas férias. Árvores e Silvas.

Árvores e Silvas. 

Tão simples. Árvores e Silvas.
E o pai a regá-las com o regador e a água que não tínhamos.
Filho doce. Como as amoras das silvas.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

A morte. Explicada às criancinhas. Ou pelas criancinhas.

O meu filho Bonsai e Imortal. António Peter Pan Ralha. Foto: A Família Numerosa

Já vos contei, já não sei há quantos milhares de caracteres atrás: tenho uma preferência genética, inata, mística, perfeitamente chalupa por números ímpares.

É essa tara, aprimorada por gerações e gerações de homens e mulheres resilientes, excêntricos, brilhantes, trabalhadores incansáveis, sonhadores, lunáticos, génios, altos, magros, gordos, morenos, loiros, com caracóis e cabelos escorridos, num itinerário que vai de Freixo de Espada à Cinta a Vila Nova de Mil Fontes, que passa por Arganil, Viseu e São Pedro do Sul e que chega depois a Lisboa e por aqui fica à beira do Tejo, que me faz ter uns certos fornicoques por ter um número certinho de filhos, divisível por dois (cinco parece-me tão melhor que quatro; uma mão cheia de filhos parece-me cada vez mais o meu destino).

Todo este ritual dos ímpares não passa de um sintoma leve de um transtorno do espectro obsessivo compulsivo. Corre na família em doses suaves e que não exigem (para já) medicação. 

Para já.
Mantenhamo-nos atentos.

Mas é graças a esta superstição, a esta crença tola sem fundamentos que me assegura que os números ímpares são melhores que os pares, que anseio sempre a chegada dos anos ímpares na minha vida, com fé que trarão sorte, conquistas, milagres à minha vida e à vida daqueles que me são próximos. 

Em 2015, o mito dos anos ímpares perfeitos, imaculados, repletos de felicidade e alegria cai por terra. Não sei o que fazer com esta reviravolta de eventos na minha vida.

Em 2015 tive que explicar aos meus filhos o que é a morte.

Porque ela nos entrou pela casa a dentro, negra, triste, devastadora. Uma e outra e outra vez. Três vezes no total. O número perfeito. Ímpar. 
E agora o que faço eu com os ímpares? Faço figas? Com dois dedos? Dois?

Eternidade. Foto: A Família Numerosa 

Quando, aos primeiros dias de Janeiro, o diagnóstico do cancro de pulmão em estágio IV do meu sogro, me chegou ao telefone, pelas cunhas e amigos que trago para a vida, estava de cuecas na casa-de-banho.

A Isaura, num coma próprio de recém-nascido, dormia serena no berço, muito pequenina, recusando-se a crescer nas doses que os percentis do boletim do bebé exigiam. E eu, com a bênção de uma prorrogação do prazo delicioso em que os filhos são apenas das mães, preparava-me, em pezinhos de lã, para entrar no duche, nessa missão quase impossível, nos primeiros dias de vida do bebé fora do ventre da mãe.

A casa estava em silêncio absoluto: o João tinha saído muito pouco tempo antes, para a ronda de entregas dos nossos filhos pelas escolas e creche, e a D. Nargeeza estava num sofrimento silencioso e branco, diligente e incansável na missão de estender roupa de um agregado de seis (outra vez um número par – sete seria tão melhor) no estendal da varanda, sob um frio polar do Inverno rigoroso que o ano ímpar de 2015 trouxe.

Desliguei o telefone. 
Fiquei imóvel a olhar para os arabescos monocromáticos do chão dos lavabos. Depois, baixei o tampo da sanita e fiquei ali sentada, com as mãos a tapar os olhos muito tempo.

Não chorei. Talvez fosse do frio, talvez fosse da pior notícia possível, do prognóstico demolidor e desesperançado, talvez fosse porque senti a morte muito perto de mim, apesar de me sentir imortal por ter acabado de parir o meu quarto filho.

Assim que tomei consciência que estava a tapar os olhos com medo da morte, de a enfrentar, ergui-me, e empunhei-lhe, frente a frente, a sua maior inimiga: a vida, a vida que eu tinha gerado e que dormia na divisão contígua, com a protecção de todos os anjos, de todos os santos, de todos os deuses, de todas as religiões.

Acto contínuo, numa agitação que me revolvia as entranhas todas, a mandíbula a tremer, as mãos em gelatina, dei um beijo ao anjo-da-guarda de prata por cima da cabeceira da minha filha, pedi-lhe protecção e descernimento para o que teríamos todos que enfrentar, e voltei à casa-de-banho sem fazer qualquer barulho – nem sequer a dobradiça da porta se atreveu a chiar. 
Nem um pio, tudo mudo e em câmera lenta.

Abri a torneira do duche e pus-me debaixo do chuveiro muito quente que, rapidamente, encheu a pequena divisão de um nevoeiro denso e morno, onde, submersa, tentava desenhar um plano para dizer o indizível: 
‘João, o teu pai está a morrer. Vai ser muito rápido; temos muito pouco tempo.”

Não sei bem quanto tempo estive naquilo. Debaixo da água quente chorei. Gostei sempre de chorar dentro do duche, ou sob a chuva torrencial.

Saí da banheira com a pele muito vermelha e engelhada, como uma velhinha, e tive que voltar a sentar-me. Desta vez na borda da banheira. Senti todas as forças do meu corpo a serem-me retiradas e tive que me sentar de novo.

Quando consegui regressar à realidade, que estava, de um momento para o outro, em pantanas, levantei-me, desembaciei o espelho, que por pouco tempo me devolveu o meu reflexo, para voltar a ficar completamente baço, e decidi, num impulso que mais pareceu um choque eléctrico, que nada diria, que fingiria que o telefone não tinha tocado, que guardaria para mim que o nosso pai estava a morrer e que ia ser muito rápido.

Nesse dia, horas mais tarde, visitei o meu sogro no Hospital de Santa Marta. 
A nossa primeira casa foi na Rua de Santa Marta - foi lá que vivi as dores de crescimento, sozinha, com a minha filha Carolina, e foi lá que o João me apareceu, primeiro empoleirado pela janela de um computador da maçã, e depois, largando-me um maço de cigarros à porta, de madrugada, e fugindo sem eu ter tempo para lhe agradecer, ou lhe ver o rosto. Foi lá que juntámos os trapos, sem hesitações, no próprio dia em que nos conhecemos finalmente em carne e osso, e foi por lá que começámos esta viagem juntos, até ao infinito. 
Choramos também pelas casas onde deixámos pedaços de nós.

Fiquei amiga de Santa Marta, a padroeira das donas de casa, e atribuo-lhe muitas das bênçãos que a vida me concedeu naquela rua enterrada sobre o Marquês de Pombal.
Da minha primeira casa guardo tudo entalhado na escultura da memória: uma casa muito velha, pequenina, que tinha uma sala laranja, uma cozinha vermelho sangue, um quarto cor-de-rosa com gatinhos, e o chão de todas as assoalhadas inclinado,  como que tombando de cansaço, para gáudio dos gatos, que tinham sempre diversão garantida, pois era raro uma bola manter-se imóvel no mesmo sítio. 

Voltei a Santa Marta pelas piores razões.
E supliquei-lhe tempo, apenas mais tempo.

Demorei-me na visita.
Peguei-lhe na mão e ouvi tudo com paciência. Comecei a memorizar todas as sardas do seu rosto e dos braços muito magros, os sulcos fundos de todas as rugas, todos os trejeitos e expressões catitas que usava. Disse mil disparates, quando estou nervosa falo pelos cotovelos e por todas as outras arestas corporais. Fi-lo rir o tempo todo, com tanta fanfarronice nervosa. 
Saí destroçada, e à saída, tive um número exacto de passos, a percorrer pelos corredores, até à saída, para me recompor. O segredo era meu. Só meu. Um dia que fosse que eu o pudesse guardá-lo só para mim, seria um dia um pouco melhor para todos nós.


"As pessoas crescidas têm sempre necessidades de explicações... Nunca compreendem nada sozinha". O Principezinho pelo António.


Envelheci.
Ou talvez tenha crescido.

Fui egoísta também.
Todas as mães são egoístas de vez em quando: pensei no meu clã e quis proteger acima de tudo e todos o meu clã, as minhas pessoas. E por isso mantive o segredo. Engoli-o por amor e cobardia.

Sofri por saber, por ser a primeira a saber que a minha bebé, tão pequenina, acabada de nascer, não iria conhecer o seu avô, que a Aurora não teria qualquer recordação e que a Carolina e o António perderiam cedo demais os mimos que só um avô pode e sabe dar. 

Precisávamos todos de mais tempo. E o meu sogro lutou com todas as suas forças por mais tempo.


Aguentei-me firme no meu voto de silêncio durante algumas semanas, mesmo quando era por demais visível que o relógio não parava, que não cedia às nossas preces, e que o sofrimento era já demasiado para suportar e ignorar.

Voltei ao egoísmo: quis estar no maior número de momentos possível ao seu lado. Fomos juntos comprar caril, paparis e água de coco ao Martim Moniz, e também fizemos uma viagem insana, em caravana familiar, para comer um bitoque às Caldas da Rainha.

Em casa, já muito próximo do fim, tentei estar sempre lá, segura, forte, doce, quis mostrar-lhe o quanto estava grata por ter sido responsável por ter trazido ao mundo o meu melhor amigo, o meu companheiro de vida. Devo-lhe isso. Devo toda a minha família ao patriarca Leiria.

Pouco tempo depois, do topo do Miradouro do Centro Comercial Martim Moniz, com a Praça decorada para receber o Ano Novo Chinês, dragões e lanternas, olhei para um céu azul de Fevereiro, e aceitei esta verdade: aquele podia ser um bom dia para morrer. A morte vinha em ambiente de festa e trazia um raro dia quente de um Inverno rigoroso.

Pudemos despedir-nos nesse dia do Dragão; ele deu-nos mais umas horas poucas.Tivemos mais esse dia e apenas esse. No último momento, na última madrugada, respondi às duas mensagens que me enviou, e disse-lhe apenas que o amávamos, que a Isaura estava a dormir ao meu colo, e que o amava também, que estaríamos todos consigo à primeira hora da visita. 
Não faltei à promessa. Mas ele já partira e estava em paz.

As crianças têm um faro específico, um radar que capta que algo está errado, e foi em Janeiro deste ano que eu emancipei a minha filha Carolina, porque não fazia qualquer sentido esconder o que até uma criança de onze anos conseguia ver, sem margem para dúvidas ou milagres.

Uma tarde muito fria, em que a deixei especada à minha espera, à porta da escola, porque um tratamento de radioterapia do avô se tinha atrasado, respondi directamente à pergunta ‘O avô vai morrer?” Saía fumo da boca no momento em que eu lhe disse, pigarreando, para aclarar a voz, que me tremia pela brutalidade que iria dali a instantes proferir: ‘Filha, sim, não te vou mentir. O avô está a morrer." 
E continuei, sem dó: "Tens que ser muito forte, pelo avô, e tens que me ajudar. Temos muito pouco tempo. Tens que dizer-lhe que gostas muito dele todas a vezes que estivermos juntos, e vamos proteger o António, porque ele não percebe que o avô está a morrer; ele não sabe ainda o que é a morte.”
No habitáculo do nosso velhinho Fiat chorámos. Senti-me quase a desabar pelo que acabara de fazer à minha filha mais velha, mas não nos demos ao luxo de perder muito tempo em lamúrias: o avô sofria e tínhamos o dever de nos manter fortes por ele. O tempo corria contra nós e ainda não baixáramos os braços e continuávamos a dar luta. Teríamos muito tempo para fazer luto e pouco tempo para celebrar a vida junto do avô. Fizemos as opções. Engolimos juntas a dor.

Liguei a ignição e seguimos viagem para visitá-lo.
O António agarrou-se à Playstation, a Aurora brincou com a prima Alice e a Carolina ficou comigo, junto ao avô Tójão, a segurar-lhe a mão. Sem lhe tremer a voz, sem os olhos brilhantes, esteve ali, frente a frente com a certeza absoluta da morte. O amor pode tudo e foi nesse momento que a minha frágil e doce filha Carolina revelou ser já a mulher que eu sempre soube que seria.

Foi bem cedo pela manhã que soube que o Tójão partira. 
Mais uma vez o telefone, a dar-me murros no peito. Mais uma vez, o João a distribuir filhos pelas respectivas escolas, no eixo Avenida EUA, Avenida de Roma e Avenida Almirante Reis e, mais uma vez, eu ali, sozinha em casa, em silêncio, com a bebé embalada por uma chucha encharcada em Aero Om.

Chovia. Choveu o tempo todo nesse dia.
O João chegou e nem sei como lhe dei a notícia. Também não sei como dei a notícia ao António e à Carolina.

Com a Isaura colada a mim, arranjei forças e presença de espírito para vasculhar os arquivos de um disco rígido a rebentar de ficheiros JPEG, escolher e revelar fotografias de dias felizes do meu sogro ao lado dos seus cinco filhos, ao lado dos seus queridos netos. Comprei molduras e cestos de flores com cores alegres. 
Espalhei fotos, flores e velas, no altar.
Gostava que alguém tivesse feito isto por mim quando o meu pai morreu. 
Foi o meu tributo.

Contra todas as minhas ideias pré-concebidas e convicções inabaláveis sobre parentalidade e o tipo de mãe que quero ser, os meus filhos estiveram presentes no velório do seu avô. Estiveram no velório a celebrar a sua vida. 

Nunca digas nunca na tua vida. 
Acontecerão coisas extremas que nos obrigarão a reagir no momento. Não há certos nem errados; as coisas são o que são: todos tentamos fazer o melhor: às vezes acerta-se e outras vezes acerta-se ao lado. Mas acerta-se sempre em algum lado.

Levei os meus filhos para o velório do avô. 
Todos juntos, os meus filhos e os meus sobrinhos, quiseram estar uma última vez com o avô. Todos lhe levaram um desenho. Todos lhe quiseram beijar o rosto.
Não aceitaram um não como resposta – quiseram, exigiram estar presentes naquela despedida.

Lá chegados choraram, riram, jogaram às apanhadas aos pés das santas, dos anjos e do morto. Guardarei para sempre a imagem do António a jogar Playstation às voltas do caixão e, subitamente a parar, por breves instantes, para afagar os cabelos ruivos grisalhos do seu avô, voltando de seguida às teias do Spiderman e a outra dimensão.

Sem pesadelos. Sem traumas. Com tristeza natural encararam a morte, despediram-se do avô e arrumaram o assunto muito bem arrumadinho.

Deram-nos uma lição de vida. 
As criancinhas explicaram aos adultos o que é isto da morte.



Há duas semanas o telefone tocou pela hora do jantar, e o meu irmão Leonardo deu-me a triste e incompreensível notícia que um bom amigo e um homem bom acabara de morrer.

O que se faz quando um amigo que nunca vimos a fazer nada mais do que sorrir morre? (de que se ri tanto o gajo, porra, lembro-me de pensar quando o conheci há 18 anos) 

Rimos? 
Fazemos das tripas coração para sorrir?

Fui esconder-me para a cozinha, sem saber o que fazer, sem descortinar como poderia reagir.

A Carolina ouviu-me a chorar, sentada de costas para a porta, em cima de um banco de madeira, o pensamento perdido nos labirínticos favos da arquitectura modernista da varanda, e a pensar que 2015 nunca mais acaba - que o quero enterrar também.

A minha filha mais velha foi à casa de banho, tirou a escova da gaveta, regressou à cozinha sem dizer palavra, e pôs-se a pentear-me o cabelo. Eu continuei de costas voltadas com as lágrimas a correrem sem tino. Depois de muito escovar, agarrou num elástico e entrançou todo o meu enorme cabelo com paciência e mestria.
Eu mantive-me em silêncio. Ela também. Ocasionalmente dizia: 'Já passou, não fiques assim".
Assim que me atou o desgosto em forma de trança, preparou-me uma chávena de leite com groselha e preparou pratinho com um pão barrado com Nutella e polvilhado de confettis de muitas cores.

'É para te sentires melhor, mamã.'

Quando eu recebi o telefonema a anunciar-me que 2015 me roubava mais uma pessoa, a terceira, estava a arrumar papéis com purpurinas: piroseiras das meninas lá de casa. Tinha as mãos cheias de brilhos e quando comecei a chorar esfreguei a cara e todo o meu rosto se iluminou.
Quando me levantei do banco da cozinha, tinha um copo de leite cor-de-rosa na mão, um pão barrado com nutella e confettis, e o meu rosto cintilava. Eu estava viva. Tudo pulsava dentro da mim e dentro da minha casa.
Quando me consegui levantar do banco de madeira da cozinha estava mais pobre. 

Mas também estava mais rica: uma vez mais, os meus filhos deram-me uma lição de vida. Sobre a morte.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Mr. Murphy, I presume... Breve relato de uma mãe sugada por um vórtice


'Nove meses e ainda mama?' 40 graus de febre e o melhor remédio sempre pronto. FOTO: A Família Numerosa

O senhor Murphy, todos nós o conhecemos de ginjeira: ele anda sempre à espreita, ao virar da esquina, sorrateiro, coladinho ao nosso ombro, praticamente invisível e, no entanto, sempre preparado para fazer uma entrada triunfal e espalhafatosa, coisa digna de registo para a posteridade.

Verdade verdadinha é que o talentoso senhor Murphy vive para nos tirar o tapete por debaixo dos pezitos, sem aviso ou contemplações. E mesmo que tenhamos esbarrado com ele vezes sem conta, em encontros indesejados e forçados por uma estranha atracção cósmica, continuamos a ter a mesma reacção de surpresa e espanto: ‘Senhor Murphy, por aqui?”

Diz a lei do dito senhor que: “Qualquer coisa que possa correr mal correrá mal, no pior momento possível.”

Pois é.
A grande pergunta é: Como é que – mais uma vez – eu não o vi, ou ouvi a chegar?

Estava a escassas horas de regressar ao trabalho, depois de mais uma deliciosa pausa de maternidade – esta sim, a mais velha profissão do mundo, e unanimemente considerado o melhor posto de trabalhos forçados da Humanidade –, e o Senhor Murphy escancara-me a porta, e deita-se no berço, ao lado da querida bebé Isaura. Três dias de febre sem explicação, um coração de mãe estilhaçado, por largar a cria doente em casa, aos cuidados de seu pai (coitado, que já tinha os outros três a cargo enquanto as aulas nunca mais começam), e adiando o fatídico primeiro dia na creche em uma semana. Foi o resultado da visitinha de ‘médico’ do meu grande amigo Murphy.

As manas, um pai sem cabeça, e uma patinha da gata Farrusca. Foto: Mónica Leitão

Depois, o regresso ao trabalho. Ao mundo corporate. Aos novos desafios e aos clientes de sempre (que já fazem parte de quem eu sou). Os braços abertos dos meus colegas, dos meus chefes, as gargalhadas, o colo e o mimo com que me receberam neste regressam à loucura dos dias que voam, entre telefonemas, jornalistas, press releases, reuniões, propostas, press kits e conferências de imprensa.

Tocar muitos instrumentos ao mesmo tempo, fazer piscinas sem parar e sem perder o fôlego, dentro de um vórtice, de uma espiral hipnótica de afazeres e deveres. Assistir ao milagre da multiplicação das horas e dos minutos. Mudar de máscara depressa e bem, sem perder a compostura, como num desfile de alta-costura. Encarar problemas e preocupações com um sorriso – é meio caminho andado para encontrar o caminho para fora do labirinto. Não ter medo de pedir ajuda, não ter vergonha de admitir o cansaço.

E ter a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, voltarei a dizer: ‘Mr. Murphy, I presume…”



terça-feira, 1 de setembro de 2015

Nove meses . A prova dos nove.

Um, dois, três, vou nascer outra vez. Esta manhã, ao sair de casa para o trabalho. Os meus amores. Foto: A Família Numerosa
Nove meses. Nove luas. Uma gestação deliciosa, os dias tão felizes a seis, contigo já cá fora, a crescer ainda agarrada a mim, por um cordão invisível, uma teia, ou um casulo tecido de ternura e amor. Foi um privilégio, é um privilégio ter-te como filha, Isaura, minha doce e pequenina Isaura. Enfrentámos um Inverno rigoroso sempre juntas e as orquídeas não floriram esta Primavera, mas, para dizer a verdade, eu nem reparei: foi tempo pousio. O Verão foi perfeito e eu não trocava estes nove meses, 273 dias, por nenhum outro enredo ou aventura,

A prova dos nove é hoje também. Hoje regresso à 'escola', ao trabalho, aos dias ainda mais frenéticos, e de cada vez maior malabarismo. Sempre em equilibrismo, mas mantendo o equilíbrio. A minha base é muito sólida, tenho quatro pilares pequeninos, mas indestrutíveis - dois loiros, dois morenos - e uma trave-mestra, com quem divido e multiplico esta vida.

(Por agora vamos esquecer a parte em que na sexta-feira vais para a creche. Vamos também saltar o febrão que decidiste ter no meu regresso à lufa-lufa do trabalho)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Raízes - A História de um Verão no Manga-Manga

6,7 km de caminho pedonal ao lado do Vouga. Lodo, silvas, rãs e libelinhas em quase três horas de caminho. O trilho começava a escassos cinco metros do posto do Turismo de São Pedro do Sul. A senhora que lá ao serviço está nunca o fez e disse-nos que podíamos levar as bebés nos carrinhos. Valeu a pena todas as bolhas nos calcanharese resmungos dos mais velhos.


A nossa família tem nome de árvore, uma das mais importantes de todas, que alimenta e alumia e que, também por isso, é das mais banais de todas. Escrevo estas linhas numa casa que também ela tem nome de fruto, de uma árvore mais exótica, sobretudo nos anos 40, quando, numa aldeia junto às Caldas de São Pedro do Sul, nasceu uma quinta com vista para as serras da Arada e do São Macário, com o nome de ‘Manga-Manga’.

Aqui na aldeia sou a neta do ‘tio’ Oliveira, o ‘Manga-Manga’. Batem-me à porta, metem conversa sem pudores no café, como se me conhecessem desde sempre, baralham-se no meu nome, confundem-me com a minha mãe e também com a minha avó, fazem contas de cabeça aos anos que se passaram, às décadas em que a casa ficou em suspenso, adormecida e à deriva à nossa espera, do pesar que todos sentiram por esse luto prolongado, ficam de queixo escancarado pelas semelhanças da minha filha mais velha com a sua avó, a minha mãe, relembra-se a beleza do jardim de dálias, hortênsias e noveleiros, desfiam-se novelos de histórias à desgarrada, por vezes emaranhados pela neblina da memória, ou remendados ao sabor da inevitabilidade de quem conta um conto poder acrescentar sempre um ponto sobre a personagem quase lendária que foi o meu avô.

Aquele foi o tempo dos grandes homens. O virar do século, as suas revoluções, a queda dos reis e a ascensão de homens que se fizeram apenas às suas custas. Foram incríveis odisseias, com todos os ingredientes da receita dos imortais: a dureza dos campos, a solidão das cidades, as peregrinações para novos mundos, um rol apaixonante de incríveis feitos e insólitas peripécias que tantos romances e filmes de Hollywood inspiraram. Mas aqui a aldeia é pequena e há uma muralha de serras e uma teia de rios a guardar esta história. Tudo ficou encerrado numa casa abandonada, cujos portões estamos a abrir, de mansinho, com um gangue de filhos atrás.

O meu avô nasceu um desgraçado. Algures nos registos da igreja estará o seu assento de nascimento, com a sentença mais triste que alguém pode ter: filho de pai incógnito. O pai não era incógnito, na verdade era um patife endinheirado que, do alto do seu cavalo e do seu poder quase feudal, se forçava junto das raparigas nas lides do campo. A minha bisavó, contam-me os antigos, nunca mais foi a mesma desde que o bandido Marcelino a apanhou a caminho do moinho e lhe fez um filho. Morreu cinco anos mais tarde, com a pneumónica, mas todos me contam que morreu antes, no dia em que o meu avô foi concebido.

A nossa família tem nome de árvore por obra e caridade de um padre da aldeia que lhe juntou o apelido ao nome de Manuel. Nasceu simplesmente Manuel. O padre vaticinou que seria Oliveira. A escolha revelou-se acertada. Se há árvore mais próxima da imortalidade é ela, a Oliveira.

Seguiram-se as terríveis provações e a fome. E os volte-faces do destino. A história de um miúdo franzino destemido de uma aldeia perdida em Lafões, que estudou e trabalhou sem descanso, que se fez ao caminho, por um itinerário sinuoso e por vezes labiríntico dos seus grandiosos e quase desmedidos sonhos. Há breve passagem por Viseu, seguida por uma viagem de barco, o sonho americano nunca cumprido acomodado na bagagem do porão. Chega-se a um porto gigantesco em África numa cidade que conhecemos apenas de fotografias a preto-e-branco. E é lá que a vida e a fortuna do destino se cumpre, décadas de trabalho e a construção de um pequeno império de estabelecimentos comerciais, nos quais o meu avô com nome de árvore plantava sempre duas mangueiras como um totem ou amuleto de sorte. Assim nasceu o ‘Manga-Manga’. Assim foi exportado para a aldeia de São Félix em São Pedro do Sul, muitas décadas mais tarde, para uma pequena quintinha de pedra.

Eu sou a que já nasceu num berço de metal precioso. Mas sou aquela que veio com um bando de catraios agarrados às minhas saias resgatar do esquecimento a casa do ‘Manga-Manga’. Sou a neta pródiga da cidade que voltou à procura das suas raízes, a que revolve a terra, a que a semeia e aguarda sem pressas para colher os frutos. Ao sabor das férias do Verão. Na casa velha da aldeia onde tudo começou.

Socorro! A terra é conhecida por águas milagrosas mas vai ser preciso um milagre para deixarmos de usar água do velho poço!

Para o casal de trintões que nós já somos, este é o paraíso. Meio hectare de terra. Um pomar de laranjeiras histéricas de felicidade, que brotam frutos suculentos desde a Primavera sem quaisquer sinais de cansaço, e uma pereira centenária muito curvada e paciente que todas as manhãs solta peras farinhentas para o chão.

Quatro filhos soltos por aí, uma família numerosa que duplicou o seu tamanho sem aviso há um par de anos, crianças soltas com as pernas esfoladas, os braços arranhados pelas silvas, as mãos tingidas de roxo das amoras silvestres, os pés negros do pó. Uma casinha pequenina que se desdobra miraculosamente e recebe amigos e família. “A casa não se quere grande para ser igual a um ninho. O amor, na casa pequena, anda mais conchegadinho.” Está escrito num azulejo velho, embutido na parede da entrada. Era o mantra do meu avô. Passou também a ser o meu.

As voltas que a vida dá. Do campo para a cidade e da cidade para o campo. Quase consigo sentir o orgulho dos meus avós nesta fotografia.

A nossa aventura rural, de regresso ao passado e construção de pontes do futuro junto às milenares Termas de São Pedro do Sul, começou há um par de anos. Ainda éramos só quatro, um jovem casal e o seu casalinho de filhos loiros. Tudo se tem feito com amor – não há outra forma de fazer bem as coisas – e bem devagar. Electrificou-se a casa. Fez-se luz, mas, inexplicavelmente, mudámos de século, e estamos na terra das águas com poderes curativos que os Romanos descobriram, mas não há água canalizada nem saneamento básico.

Racionamos recursos: há banhos rápidos e viagens à fonte mais próxima para matar a sede com água potável. Ensinamos aos nossos quatro filhos que a água não vem miraculosamente da torneira, tal como os ovos não nascem do supermercado. Não trazemos televisão, nem acesso à Internet – e os miúdos ressentem-se de saudades dessas coisas modernas que dão como adquiridas desde que nasceram.

Escutamos a natureza: avançamos teorias e hipóteses sobre a forma de reprodução dos caracóis, que têm um ninho junto ao poço, tememos, mas ficamos deslumbrados pelos voos rasantes sobre as nossas cabeças das vespas gigantes da terra, às quais chamam abigoiros. Analisamos girinos e ninfas de libelinhas coloridas. Cavamos buracos e plantamos árvores e arbustos, à espera que cresçam e envelheçam connosco.

Olha quem veio ajudar a estender a roupa na corda.

Esta foi a última ceia desta libelinha. Poisou em todos nós, muito cansada, com as asas quase desfeitas. Depois poisou e pousou na cabeça de uma sardinha assada.

Os dias passam devagar com as montanhas mágicas imóveis à nossa frente, num quadro com uma moldura dourada imaginada de lembranças que vamos construindo sob um sol escaldante de Verão. Cada folha do calendário é uma aventura, uma descoberta. Esqueçam os postos do turismo, que nada sabem das riquezas que a terra tem, e que encaminham os turistas e os emigrantes que regressam à terra em Agosto para as modernas e indiferenciadas infra-estruturas, para onde os fundos estruturais comunitários foram canalizados.

A terra tem rotundas e circulares absurdas, tem quatro cadeias de supermercados, mas não tem água canalizada e saneamento. No Verão há festas todos os dias e todas as noites, é um desfile de estrelas dos tops de venda da indústria musical nacional, está marcada uma sunset party com a presença badalada da rádio mais ouvida do país, e ainda há festas com estrelas da música pimba que se atropelam umas às outras numa rivalidade de aldeias vizinhas e de santos padroeiros. Mas quase ninguém sabe o que é e onde fica Nodar. Ou que beleza esconde o Poço Negro ou Cabaços. O Vouga, o Sul, o Paiva, o Paivô, o Zela – corremos atrás destes rios.

O itinerário das nossas férias faz-se dessa riqueza natural única de Lafões. Faz-se de boca-a-boca, é esquadrinhado meticulosamente pelas recordações das gentes da terra e por guias turísticos amarelecidos e não reeditados. Vamos com calma e cuidado, mas sem medo: desbravamos locais onde a natureza está praticamente intacta, chegamos a aldeias-fantasma de pedra, que ali estão à espera para nos dar as boas-vindas. Assim se abrem paisagens e territórios incríveis, para onde levamos atrelados quatro filhos, dois dos quais bebés de colo.

De saída. Somos muitos e é uma logística lixada. Mas nunca paramos quietos.

Os putos mais velhos resmungam, têm saudades da Playstation, do Cartoon Network e do Panda. A mais velha, a entrar precocemente naquela que adivinho que vá ser uma longa adolescência, telefona para os amigos para saber quem foi expulso do concurso de talentos, e saca as novidades dos últimos episódios da trama da novela.

Mas quero acreditar que estas serão as melhores férias de Verão das suas vidas, aquelas que recordarão para sempre com saudade e nostalgia, de coração cheio. Acredito que, no futuro, contarão a história do trisavô ‘Manga-Manga’ aos seus filhos, enquanto os empurram no baloiço que pendurámos no ramo da laranjeira. Imagino-os a contar a história do gigantesco caramanchão de glicínias que trouxeram ao colo num Verão e que plantaram com as suas mãos. Vejo-os a regressar a Nodar, ao Poço Negro e ao Poço Azul, a Meitriz, a Pouves e a Cabaços.


A minha família tem nome de árvore. E estas são as nossas raízes. E estas são as nossas flores e os nossos frutos.

Obrigada ao Sapo, que me deu a possibilidade de escrever este conto de Verão. Aqui.

quinta-feira, 16 de julho de 2015

As manas*

Aurora dá um 'quixixão' à Isaura nas Termas de São Pedro do Sul Foto: A Família Numerosa

Uma das maiores estupidezes que me passou pela cabeça quando, há pouco mais de um ano, soube que estava grávida foi que a Aurora odiaria este bebé, porque a sua vinda lhe viria roubar a mãe, o colo e o mimo que era todo seu por direito, durante muitos e bons anos.
No auge do meu pânico e delírio imaginei a nossa vida toda em pantanas, do avesso e também de pernas para o ar, por causa deste anjo, cujo único pecado foi chegar-nos de surpresa e sem aviso (como chegam a maioria das coisas boas, aliás...)
Mas, na altura, senti o chão a fugir-me debaixo dos pés. E dramatizei. Muito. 
Na bola de cristal do futuro a seis, vi filhos traumatizados pela confusão e a refugiarem-se, mais tarde, na adolescência, nas drogas e más companhias. Vaticinei misérias várias, como desemprego, filhos escanzelados e cheios de fome (e ranhosos também), e montanhas de contas em atraso por pagar. Suei as estopinhas a visualizar o meu corpo (de top model aahahah) todo disforme e rebentado com esta quarta gravidez e ainda previ meu casamento destruído por causa deste bebé-milagre.
Depois houve um momento de epifania, a estalada que alguém precisava de me dar para eu sair daquele transe maléfico (que, só quem teve a vida baralhada de um momento para o outro, pode entender o quão paralisante pode ser este turbilhão). Há neste livro aberto, nesta história interminável, uma pessoa anónima, que teve uma intervenção central e quase divina na minha, melhor: na nossa vida.
Vi-a uma única vez, e ela obrigou-me a gravar o seu número de telefone, acaso eu vacilasse de novo para dentro do vórtice de loucura.
Não mais a contactei. Temo até que, se a vir na rua, não a reconhecerei. 
No dia em que a Isaura nasceu, e apenas nesse dia e nunca mais, enviei-lhe uma mensagem a agradecer-lhe tudo o que fez por nós. Ela respondeu a dizer que se lembra muito da conversa que tivemos, combinada pelo destino. 
Pois bem, eu todos os dias me lembro dela.

Ela não fez nada de especial. Simplesmente apareceu no momento certo e no sítio certo. Ouviu-me, calada, a mil lamúrios, a um quinhão sem fim de preocupações.
Eu sempre guiei a minha vida por sinais, como quem vê o Norte num céu estrelado, em pistas espalhadas por Deus (ou pelo destino). Tenho esta pessoa, a sua aparição do nada, numa improvável sequência de acontecimentos, como a da queda de um anjo na minha vida.
(e foi a segunda vez que isto me aconteceu, mas eu casei com o anjo, que posso garantir que tem sexo, porque já fez três filhos!!!)
Ela também falou, para além de ouvir com uma paciência infinita: disse-me duas ou três coisas certeiras que eu precisava de escutar para me (re)organizar.
E, se calhar, tinha que as ouvir de um estranho para acreditar que era possível criar quatro filhos, dois dos quais seguidos, sem comprometer a felicidade da nossa família, bem pelo contrário: amplificando-a ainda mais, levando-a aos quatro cantos, como o estou para aqui a fazer com a ajuda das minhas amigas palavras.
(eu, que sempre dependi da bondade dos estranhos, como a Scarlett).
Uma das coisas que eu precisava de ouvir era esta: 'Elas vão ser as melhores amigas, você nem imagina como elas vão ser amigas.'
Tenho o meu coração cheio de gratidão pelas dádivas que já me foram dadas de bandeja na vida. Pelos meus Anjos da Guarda.


*Post repescado no Facebook d'A Família Numerosa