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domingo, 14 de fevereiro de 2016

O quinto Orçamento do Estado ao qual vamos sobreviver...


IRS, IMT, IMI, IVA, ISP, IS: é a lócura!!! Mas ninguém taxa o amor multiplicado por seis cá de casa. Foto: Pau Storch

Dupliquei o tamanho da minha família — passando de dois para quatro filhos — durante a estadia da troika em Portugal.


No dia em que soube que estava grávida pela terceira vez, da minha filha Aurora (que ganhou este nome porque o futuro parecia sombrio, sem ponta de luz ao fundo do túnel no qual estava encurralada toda uma Nação), Pedro Passos Coelho anunciava, em conferência de imprensa, o aumento da TSU para os trabalhadores, para poder baixá-la para os patrões. Está inscrito no livro do bebé da minha filha: “Chorei a noite toda com medo do devir.”


A medida não vingou — milhares de portugueses foram para a rua protestar e, da nossa parte, até o cão vira-latas que resgatámos do abrigo desfilou —, mas o clima de inquietação manteve-se, vindo depois a confirmar-se o pior, com o “enorme aumento de impostos” de Vítor Gaspar, que nos pôs a todos a receber subsídio de férias e de Natal em duodécimos, mascarando assim o facto cristalino de que acabáramos de ter confiscados mais de dois salários, em impostos directos e indirectos.


Esta artimanha foi prática recorrente do anterior Governo: atirava-se para a praça pública ou para os media, em jeito de fuga de informação, uma medida estapafúrdia, para, depois, face ao clamor generalizado, se recuar ligeirissimamente, fazendo passar uma solução em tudo semelhante no seu impacto para os portugueses. A TSU e a sobretaxa de IRS abriram apenas quatro anos de hostilidades às quais os portugueses foram sujeitos..


Foi então ao nosso terceiro filho que tudo mudou — entrámos lá em casa em modo de sobrevivência. Primeiro chorei, aflita (permiti-me essa fraqueza momentânea) e, depois, enfrentei o touro pelos cornos. Não podia ser de outra forma.

Filha da Troika? Por aqui enfrentou-se a austeridade pelos cornos! FOTO: Pau Storch

Não cheguei a vender o ouro das avós, nas lojas de penhores que abriram nesse ano, a cada esquina (e que depois desapareceram como magia, quando já não havia mais anéis), mas recorri várias vezes ao OLX para vender uma série de parafernálias inúteis que tinha cá por casa, para compensar o défice estrutural que me foi imposto pelo Governo, com a sua dose cavalar de austeridade. Também comprei muita coisa que me fazia falta ao desbarato naquele site. E desmultipliquei-me em canais de Facebook de trocas, cupões e outras dicas de poupança.


Foi pelas minhas ausências prolongadas do café e da mercearia do bairro que vi pequenos negócios de família fecharem as suas portas, engrossando as estatísticas do desemprego. Por oposição, engrossei os lucros das grandes cadeias de distribuição, com as suas promoções imperdíveis de fraldas, de leite, do básico dos básicos. Essas cadeias, por sua vez, fizeram repercutir todos os 50 por cento em cartão de que usufruí nos produtores e fornecedores, na grande maioria das vezes esmagando-os. Também me passaram a cobrar os sacos e a impedir-me de pagar com cartão em compras inferiores a vinte euros.


Os meus filhos deixaram de ter pediatra privado — regressei ao serviço nacional de saúde, do qual me tinha afastado escudada por um seguro de saúde privado pago pela entidade empregadora, mas deixou de haver pão para as franquias altíssimas do mesmo. Encontrei uma equipa inexcedível — e também ela ceifada por cortes cegos — na Unidade de Saúde Familiar do Parque, em Lisboa, que devia ser notícia e exemplo da excelência nos cuidados de saúde primários em Portugal. Ali apercebi-me do verdadeiro significado do “médico de família”, pelo qual estou grata.


A minha mãe faz pelo menos três coisas impossíveis até ao pequeno-almoço. Esticar o orçamento e estas pinturas catitas incluídas. OTO: Pau Storch


A mais velha foi para a escola pública, intervencionada pelos milhões sem fim da Parque Escolar e, para além dos quadros interactivos e instalações luxuosas a lembrar um colégio privado, nunca teve professores por colocar, apesar de ter tido alguns das AECs dos tempos livres, pagos abaixo dos três euros à hora e a recibos verdes. Não obstante, numa interrupção lectiva da Páscoa, foi sugerida uma visita de estudo a Londres de uma semana, com o valor estimado de mil euros — dois salários mínimos nacionais. Outras realidades…

Fui também salva por uma notável IPSS, localizada há mais de cem anos num multicultural bairro de Lisboa, que garantiu resposta social para os meus filhos mais novos. A mensalidade de três creches equivale a uma renda de um T1 em Lisboa, sendo apenas suportável porque a avó desta família ofereceu uma casa sua, que ficou vaga pela Lei das Rendas, prescindindo desse rendimento para si. Se não fossem os avós deste país, não sei o que seria da minha geração…


Quando, ao terceiro filho, entrámos, modesta e timidamente, no lote das famílias numerosas, decidi, sem grande fé, submeter os papéis na segurança social para o abono de família. Tenho a cronologia de todas as maldades dos sucessivos Governos constitucionais bem guardada, para memória futura. Devemos a José Sócrates, e ao seu PEC III, o roubo do abono de família a milhares de crianças.

Para minha surpresa, ao terceiro filho, passei de imediato para o segundo escalão da segurança social. Queria isto dizer que estava oficialmente pobre, porque, em Portugal, só os pobres têm direito a abono de família, uma coisa verdadeiramente inexplicável e insólita num país com um Inverno demográfico de proporções glaciares, e sem oferta universal de cuidados na primeira infância (creches e berçários).

Cortes, impostos, taxas e taxinhas: Cortem-lhes a cabeça! Foto: Pau Storch
O quarto filho veio de surpresa um ano depois. Num acto de fé, agarrámo-nos ao provérbio que diz que “atrás de um filho vem o pão”. É certo que nunca mais houve contas de somar: apenas subtracções e divisões passaram a constar no meu léxico familiar. Nada nos faltou, porém: a economia do terceiro filho adensa-se ao quarto, e creio que seja assim a cada filho que a vida nos traz a mais dos nossos planos iniciais.


Passei a dominar com mestria todas as burocracias e caminhos labirínticos dos diversos serviços públicos — escolas, hospitais, segurança social, finanças e o que mais tiver de ser — e, tal e qual um douto catedrático da escola da vida, dou explicações à maioria dos meus amigos (e agora aqui nesta oportunidade que a Visão me deu), que têm uma iliteracia dos seus direitos e obrigações fiscais e laborais idêntica à minha antes de ter estes filhos todos.


SASE, IRS, IMI, IVA, IUC, IS, TSU: tantas siglas que passaram a fazer parte da minha vida!


A apresentação do Orçamento do Estado passou a ser, por força das circunstâncias, um momento-chave da nossa família: analisamo-lo pela lupa dos media, ao detalhe, e tentamos prever o seu impacto nas nossas vidas no ano que se seguirá.


O ano passado, a novidade era o quociente familiar. Ouvi: “Ah, agora é que vais receber dinheiro à grande do Fisco!” Os jornais não explicam as coisas como deve ser, e as pessoas acham que o Estado, o Fisco ou a segurança social dão o que quer que seja (roupa, livros, despensa cheia) a uma família com muitos filhos. E apesar de ter só quatro, a estatística revela-me que tenho mais do triplo dos filhos da média portuguesa, portanto: tenho muitos filhos.


O quociente familiar era-nos indiferente; para ter algum impacto, seria imprescindível que os salários da minha família não estivessem ao nível de há uma década. O meu agregado, tal como a esmagadora maioria dos agregados portugueses, com salários a rondar entre os 530 euros do salário mínimo (que não é alvo de qualquer desconto de IRS) e os 800 euros do salário médio, não faz grandes retenções em sede de IRS.

Eu fui a filha do tempo em que vivíamos acima das nossas possibilidades. Foto : Pau Storch
Ou seja, tudo o que descontamos/emprestamos ao Estado é devolvido no santificado reembolso de IRS, que é guardado para Setembro, para enfrentarmos sem angústias o famigerado início das aulas, e depois o que ainda resta aplica-se para o Natal (e para os aniversários dos três filhos que nasceram no mês do menino Jesus, fazendo cá em casa de Dezembro o mês da Natalidade), sobrando ainda qualquer coisita para pagar a revisão do (auto)carro de sete lugares e onze anos de vida.

Este ano caem os exames nacionais que a minha filha mais velha teve de fazer, e desaparece também o quociente familiar. Entra, em seu lugar, a dedução de 550 euros por filho. Passa a ideia de que o Estado me vai entregar 550 euros por cada filho. Dizem-me: “Este ano vais de férias!” Mais uma vez, propaganda enganosa, e totalmente indiferente ou marginal para quem tem salários baixos. De classe média-baixa.


Os filhos dos ricos valem sempre mais do que os filhos dos pobres. No quociente familiar valiam mais. Com esta medida valemos todos menos. Essa é a grande diferença entre as duas formas de cálculo. Maior justiça social?


Diz-me a imprensa — que por vezes é brutalmente contraditória nas análises efectuadas de título para título — que um português sem filhos e com rendimentos mensais de 1000 euros (essa fortuna!) pagará menos IRS do que um português com o mesmíssimo rendimento mas tendo um descendente a cargo. Por outro lado, pela voz da Associação das Famílias Numerosas, que, de acordo com esta nova medida do Governo que fez convergir todas as esquerdas, todos os rendimentos mensais superiores a 690 euros sofrerão um aumento real do imposto com a aplicação das deduções anunciadas de 550 euros por descendente.
Más notícias, não é?


Na imprensa nunca encontro simulações com mais de dois filhos a cargo; fico sem saber que impacto terá a medida… Sei que tenho de acrescentar ao histórico aumento de impostos de que se fala o aumento do ISP — mais uma sigla catita que vai encarecer tudo o que nos rodeia e não só o depósito do automóvel — e umas taxas e taxinhas na utilização dos cartões de pagamento electrónicos que se repercutirá sabemos nós bem em quem.


Não tenho ambições políticas, também não sou de esquerda, mas posso partilhar algumas dicas preciosas de multiplicação de um orçamento espartilhado e sujeito a cortes erráticos aos quais sou totalmente alheia. Já o faço para amigos, posso dar uma perninha ao primeiro-ministro, ao ministro das Finanças, ou ao secretário de Estado das Finanças.
A reposição do abono de família para TODAS as crianças portuguesas era um primeiro sinal de que tínhamos entrado num novo ciclo político, com políticas sérias de apoio às famílias e à natalidade. Com um valor máximo de 36,42 euros por mês (tabela de Fevereiro de 2016), um filho não chega a valer 437 euros anuais para o Estado — muito abaixo do falso valor anunciado.


O IRS negativo, do qual o PS andou a falar no final do ano passado e que não se viu plasmado no Orçamento, seria uma medida muito útil, bem mais útil que as 35 horas — acabavam-se os empréstimos sem juros ao Estado.


Mas isto digo eu, que sou uma das afortunadas desta crise. Sou da geração marmita, da geração dos sonhos adiados, de famílias reunidas ao serão pelo Skype, dos milhares de casas entregues ao banco, de penhoras selvagens aos salários por falta de pagamento de portagens de estradas concessionadas a lucrativas empresas privadas.

Mas fiz as minhas contas este ano e elas batem novamente certo: dupliquei o número de filhos durante a intervenção da troika em Portugal. Faço este caminho orçamental de 2016 com o meu marido e com os meus quatro filhos ao lado, e posso dizer, com confiança: este é o quinto orçamento de Estado inimigo das Famílias ao qual vou sobreviver.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ano novo...

Quero a vida sempre assim.

... e não quero vida nova.

Está tudo bem e se eu pudesse, se eu mandasse, queria a vida sempre assim: com tanto amor (como se ele tivesse encontrado finalmente a sua casa), com tanta tragédia (sempre a farejar), com uma paz que me faz dormir quase todos os dias sem sonhos, com ansiedades várias que escondo o melhor que posso a ranger os dentes, ou no tique nervoso de beliscar o anelar direito com o polegar, com tanta sorte, uma coisa de milagre de bênção divina, com tanto azar, tantos desencontros, tantas vidas estupidamente interrompidas.
A vida a acontecer no seu curso absolutamente implacável - um dia após o outro, de forma tão rápida que é quase ridículo escrever uma mensagem de ano novo ao dia 21 do primeiro mês. Mas eu não quero uma vida nova.

"Num instante tudo muda."
Para o bem e para o mal. Seja dia 1 de Janeiro ou de 31 de Dezembro.
"Num instante tudo muda" é a primeira entrada da minha agenda, em 2016 (e já ninguém oferece agendas a ninguém; antigamente tínhamos a secretária em Janeiro cheia delas e com dezenas de cartões de Boas Festas para responder), uma espécie de lembrete, de tatuagem na primeira página e na primeira das 52 semanas que vou enfrentar.

Os últimos minutos de 2015 passei-os ao telefone com um amigo que o tempo e a distância afastaram. Achámos nós os dois que o tempo e a distância tinham feito isso. Enganámo-nos: os verdadeiros amigos interrompem a continuidade espacio-temporal, paralisam momentos, fazem rewind ou fast forward conforme é preciso e todas as vezes que for preciso.


Os amigos interrompem a continuidado do espaço e do tempo
Estava um céu muito bonito, a Sul, naquela última noite do ano, cheio de estrelas. Eu disse ao meu amigo, pedindo-lhe para não se recriminar por não me ter procurado em momentos de maior aflição, e assegurando-lhe isto: "Eu sei quem tu és; eu conheço o teu direito; posso lidar com o teu avesso. Posso sempre lidar com o teu avesso."

Aquela conversa foi talvez das melhores coisas de 2015.
Fez-me fechar a porta a 2015 com e em paz.
Não fiz resoluções, não contei doze M&Ms ou doze pinhões (a minha versão para as terríveis sultanas), bastou-me o bom augúrio de dois velhos e bons amigos e uma ligação de telefone que só se extinguiu pelo frenesi anunciado das doze badaladas e pelos miúdos a ensaiarem a orquestra de tachos e testos.
Enquanto isso, nessas últimas horas do ano, a Isaura descobria os ares do Algarve e ensaiava os seus primeiros passos, a medo e com um entusiasmo que lhe fazia brilhar o rosto todo. Esta minha filha sorri com os olhos, com toda a cara, estremece-lhe a felicidade nas feições.
No dia seguinte, como se tivesse nascido com aquele dote, como se o tivesse feito desde sempre, a minha filha mais nova começou a andar.
Passos seguros.
Na semana seguinte, deixou de mamar. Sem aviso, mas sem angústias, sem qualquer tipo de inquietação de parte a parte. Um pouco mais tarde que os irmãos, que deixaram matematicamente de mamar ao ano certinho, a Isaura decidiu que a posição bípede lhe abria uma nova vida fora do colo e da protecção da mãe.

Em 1972, o meu avô Oliveira madnou pelo correio 'O Meu Menino", da Bertrand, à sua filha, minha mãe. A edição é de 1950 e faz arrepiar com tanto disparate junto sobre gravidez e maternidade. No capítulo 'O desmame' a coisa safa-se.


A profecia cumpre-se, logo em Janeiro, sem contemplações: num instante tudo muda.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

O(s) meu(s) segundo(s) filho(s)

Amanhecer de dia 20 de Dezembro de 2008. Voltei a sorrir. Larguei o luto.
No outro dia o António fez sete anos.

O meu segundo filho, o meu único rapaz, é um anjo: vê-se de longe a sua aura, mas de perto desmascaram-no os filamentos de ouro fino das longas pestanas encaracoladas, que fazem brilhar ainda mais uns olhos que sorriem sempre. A pele muito branca e pálida, quase transparente, e a maneira desconcertante como espalha alegria e paz por onde quer que passe, denunciam que um querubim se fez menino nesta vida. 

O meu menino é um anjo, que expõe toda a beleza que a vida tem. É o ser mais consensual e doce que conheço. Faz umas pilantragens, arma umas confusões, mas é um ser único, capaz das coisas mais improváveis.

O feito mais incrível do António é ele ser quem é, tão leve, tão feliz, tão mágico, apesar dos pesares. 

Porque eu passei toda a gravidez do António de luto, a morrer de tristeza. 


Hoje, há oito anos, comecei a perder o meu segundo filho, o primeiro fruto desta incrível história de amor que aqui relato, quase toda ela luz e gargalhadas.

Tinha sido o nosso presente de Natal - eu estava finalmente grávida.

Contámos a toda a gente, foi um dos momentos mais felizes da minha vida: aquela tão esperada e desejada gravidez. 
Passáramos jantares de família de Domingo, durante meses e meses a fio, a escolher nomes estapafúrdios para o nosso primogénito, e finalmente acontecera, imediatamente após o momento de desalento e preocupação no qual eu tivera a coragem de questionar o meu médico se haveria algum problema, e sobre que opções teríamos ao dispor para concretizar este sonho que começava a tardar, o de termos o nosso primeiro filho em comum.

Flutuámos com a notícia, com o teste de gravidez que guardo numa caixa de latão dourada. Decidimos comemorar, a três: eu o João e a Carolina.
A vida, a nossa nova vida começava ali, depois de tanta tormenta, tanto sofrimento, tanta solidão que tínhamos enfrentado e enterrado quando o destino nos juntou, começava agora um novo capítulo, e era o mais feliz de todos: a nossa família, a nossa história interminável, estava prestes a começar.

A viagem seria curta, e o cenário escolhido era Óbidos e o seu castelo, uma escolha quase óbvia, quase cliché, para o conto de fadas que se seguiria nos próximos meses até ao Verão.
Fomos ao jardim da Estrela antes de seguir viagem. 
O chão junto ao portão da Basílica estava coberto de ouro. As folhas amarelas, quase fluorescentes, em forma de coração, da centenária Ginkgo, compunham um tapete triunfal e cinematográfico. A Carolina atirava-as ao ar, e andou naquilo, aos rodopios, um tempo sem fim, que ficou congelado numa parte demasiado dolorosa da memória.

Sem qualquer aviso, sem qualquer ai, sem uma dor, sem o grasnar lá do alto de uma ave de mau agoiro, sem o repique estridente do carrilhão de sinos da imponente basílica, eu comecei a perder o meu segundo filho por debaixo da chuva de folhas amarelas em forma de coração da Gingko do Jardim da Estrela. 
No nosso jardim. 
Onde nos conhecemos. 
Onde casámos. 
Onde achei que nunca mais poderia ir depois do que aconteceu há oito anos.

O médico, na primeira urgência para onde corremos, no Hospital onde a Carolina nasceu, disse - não consigo esquecer-me disto nunca: 'Descambou'.
A confirmação que a gravidez era 'não evolutiva' surgiu na urgência da Maternidade Alfredo da Costa, ao cair da noite de dia 31 de Dezembro.

Os primeiros bebés do ano nasciam.
O meu não nasceria.

Não conheço palavras - creio que estão por inventar; são mais esgares - para conseguir descrever o vazio do gabinete, e da imagem silenciosa, escura, vazia que o ecógrafo revelava. 
O meu coração partiu-se.
Senti o estalo, e a dor física, sufocante, generalizada, pelo corpo todo, em convulsão, a serpentear-se.

Quando a porta da urgência se abriu estavam as pessoas a quem devo o mundo: a Hermínia e a Teresa. Apararam-me. Nos meses que se seguiram foram elas que me ampararam.

Em casa, o Stucky, que vivia connosco no sofá da nossa casa de Santa Marta, tinha feito lentilhas para o jantar. Passou-me para a mão o Santo António que era da sua amada mãe, e entregou-me um caçador de pesadelos que trazia sempre consigo e que está sempre à minha cabeceira.

Passaram-se dias e dias.
A primeira noite foi a pior delas todas: o desgosto vinha às golfadas, marés vivas de dor latejante.

O médico falou de estatísticas absurdas, que a culpa não era de ninguém, que a Natureza era sábia, que tudo ficaria bem, que eu ia esquecer. Advertiu também que não era expectável conseguir engravidar até ao Verão.

Senti-me sozinha como nunca me senti.
Por vezes senti-me ridícula com as proporções daquele luto.
Senti-me por um fio, a enlouquecer.
Nunca senti uma dor tão grande.

Trouxe a mim toda a tristeza do mundo.
Acredito que o João tenha querido um bocadinho dela para si também, mas eu açambarquei-a toda para mim sem pensar em mais nada – era eu, a minha dor, o meu desespero e a minha desesperança. Queria-os todos para mim. Como um castigo, uma penitência.

E três meses depois estava grávida do António.
Não consegui ficar feliz: vivi permanentemente aterrorizada e a culpar-me ainda mais por não estar feliz, como era devido e merecido. Levei os nove meses de gravidez do António de luto carregado, a chorar diariamente pelo meu filho que não nasceu.

Na primeira ecografia, a da confirmação da gravidez do António, surgi o primeiro sinal que ele era um anjo que vinha para me resgatar do pântano triste para onde eu me deixava arrastar. A data prevista do parto era o dia 31 de Dezembro, um ano depois do dia mais triste de toda a minha vida.
Mas eu não via isso como uma segunda possibilidade, um atalho para a felicidade imaginada e interrompida; interpretava-o como um presságio, como uma maldade do destino, a gozar sem vergonha com a minha cara e com o minha dor.

Todos os dias, de manhã, durante 39 semanas de gravidez, enfiava-me no carro e percorria a Almirante Reis pelo rio, até Belém, a ouvir a mesma música em repeat one, e todos os dias me concedia o direito de chorar, sem rédeas, até ao desligar do motor do carro junto aos jardins do Império.
Recompunha-me o suficiente, e fazia um esforço para esconder o desgosto que não diminuía com o crescente volume da minha barriga e da vida que gerava no meio de tantas lágrimas e tanto medo.

Inexplicavelmente pari a criança mais feliz do mundo.

A cinco dias do Natal, o António foi-me arrancado do ventre, no parto mais traumático e também mais libertador de todos. Houve complicações e durante horas acreditei que morreria. O tempo todo em que estive consciente, entre tremores violentos e maquinarias que berravam incessantemente, em alarme constante, lembro-me de me deter naquele pequenino sereno ao meu lado. Queria recordar tudo antes de partir. Não deixei que o João saísse da sala vigiada por um segundo – achei mesmo que morreria. Sei agora que me libertava de tudo pelo que tinha passado.

Mas o António - que se chama António nem sei bem porquê, porque nunca gostei deste nome - nasceu miraculosamente protegido de toda esta dor e terror que eu tinha de o perder também a ele.

E eu vivi, sobrevivi àquela madrugada de há oito anos, e à outra em que há sete anos o António nasceu.

Os dias passaram-se. 
A história continuou. Houve becos e houve reviravoltas. Houve dias muito felizes. Ficou tudo bem, como garantiu o médico da MAC naquela noite. Mas o tempo não perdoa nem acalma a perda: eu trago tudo isto tatuado, segue sempre comigo, está sempre comigo, geralmente só comigo, ainda me vergasta uma espécie de dor que é paralisante, que abre a velha e incurável ferida. 

Hoje soube que era a hora de falar sobre ele, sobre o meu filho que não nasceu. Ele faz parte da nossa história - e nunca, mas mesmo nunca será esquecido.


Eu sou a irmã mais velha, diz a Carolina.

No outro dia, o meu filho António fez sete anos.

Estava a levitar pelos disparates que inventa para me fazer rir, num bajulanço que é quase idolatria religiosa, e eu perguntei-lhe:

Meu amor, como é que tu és tão feliz?
Mostrou-me a língua, revirou os olhos, e bateu as pestanas. Desenhou-se uma cova na bochecha deliciosa.

Então, eu contei-lhe esta história:
Tu és o segundo filho, mas não és o segundo filho.
Quando tu vieste do céu para a minha barriga, a mãe tinha estado grávida, de um outro bebé, que não nasceu. A mãe estava muito feliz por tu vires, mas estava também estava muito triste pelo bebé que não tinha nascido. Eu acho que tu vieste para me fazer sorrir outra vez. Diz-me lá como é que tu nasceste tão feliz, quando a mãe estava tão tão triste?

É simples.
É que o(s) meu(s) segundo(s) filho(s) é (são) anjo(s).


E não há um dia dos últimos oito anos que eu agradeça por ter ambos na minha vida.

Meu amor, como é que tu és tão feliz?
Bom Ano para todos.

(David, Inês - Obrigada por me terem ajudado no dia 20 de Dezembro de 2008 e em todos os anos que já nos conhecemos)

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Pescada com Béchamel - um clássico na Família Cerelac

António, the Invizimalz Reindeer

O filão “Tenho quatro filhos: qual é o teu Super Poder?” é inesgotável e serve para tudo um pouco. Concedeu-me a benesse de poder ser uma pessoa mais feliz, mais segura, mais em paz. Este mergulho em apneia, sob o maravilhoso coral de recife que se apresenta diariamente no sorriso e nas birras das minhas crias, é tudo quanto quero levar deste ano terrível que quero enterrar durante o clarão do fogo de artifício e o barulho ensurdecedor dos tachos à janela.

O filão dos quatro filhos - e a blogosfera está cheia de pais e mães de quatro, com mais ou menos glamour, com mais ou menos humor, com mais ou menos da vida real, tal e qual como ela é - permite-me habitualmente feitos mais comezinhos, como a habilidade em pedir desconto de quantidade com um descaramento que já é quase naturalidade, ou dominar a arte do despacho-desespero, por entre os corredores dos hipermercados, farejando à distância as caixas prioritárias de pagamento.

Não são raras as vezes que tiro proveito do espanto generalizado e deslocamento da mandíbula inferior da população a contar alto e bom som, como uma aberração de circo, o número de crianças que arrasto agarradas às minhas saias. 

Já ouvi elogios e insultos. São maioritariamente elogios, palavras de incentivo, de apreço, que somos tão jovens, que eles são tão lindos, que o melhor do mundo se encerra no olhar de deslumbre das crianças. Provocamos sorrisos abertos e sinceros, é muito amor que nos atiram no desfile pela passadeira vermelha que se estende como se fôssemos heróis. Há admiração, no sentido de espanto da palavra, e depois há admiração, como se fôssemos heróis recebidos em todo o lado em apoteóse colectiva.

Também já ouvi que somos como os coelhos, ou como os ciganos, que temos muitos filhos mas depois deixamo-los entregues a si, isto porque ao quarto filho não se vai a correr para o hospital se a criança caiu, ou porque tem ranho no nariz, e porque os irmãos, os tios, os avós e os primos por vezes nos permitem ir, durante uns minutos, beber um café, fumar um cigarro, trocar um beijos como recém-namorados que acham todos os dias um incrível milagre.

A vida corre suave quando temos quatro filhos.
Não há outra hipótese: é pura sobrevivência.
Demoramos mais tempo a sair de casa. Há mais barulho e muita confusão. Os nossos carros, umas latas velhas, metem nojo. Não damos para tudo, valores mais altos se levantam do que carros brilhantes de de alta cilindrada e é bem sabido - há um anúncio de detergente Skip que amo que já o diz - que a felicidade anda de mãos dadas com as nódoas e o surro atrás das orelhas. 

Os putos, os meus pelo menos, oscilam entre o anjo e a possessão demoníaca: há sítios que nos estão vedados, sabemos bem que há toda a uma vida de revista que fica apenas na revista. Mas somos tão mais leves e tão mais chegados ao que realmente importa. Temos uma pré-adolescente implicativa em mãos, mas ninguém cutuca ninguém no nosso lar por ninharias - temos expectativas ajustadas à realidade, o que é dos filmes fica nos filmes, e a realidade vai batendo a ficção aos pontos, também já sabemos disso.

Santa's Little Helper em versão Anjo de Natal

Ter quatro filhos fez de mim uma especialista instantânea em quase tudo, apesar de eu, grande parte das vezes, andar em navegação desgovernada, com o mapa ao contrário a tentar procurar o Norte. 

Eu não a pedi e não é justa a beatificação: não sou santa, tenho as minhas falhas de acrácter, e erro, faço más opções, digo parvoíces; às vezes faço burrada atrás de burrada, tropeço e até fico com falta de ar.

Por exemplo, mea culpa, mea maxima culpa: nunca fiz uma sopa de bebé na minha vida.

Não fiz, não quero fazer,não vou fazer e sou um pouco leviana nas introduções de alimentos. O meu departamento é a mama (há 13 meses and counting), e depois os assados, guisados - os salva-vidas de uma cozinheira de uma família de maiores proporções.

Não sei nada sobre sopas de bebé.
Também me recuso a lavar os dentes ao cão. Não dá!
Sempre que me perguntam, na qualidade e pedestal bem alto de mãe de quatro, a que idade introduzi o rodovalho, o espinafre ou o ruibarbo (isto vai complicando a cada filho que me nasce) explico que houve uma altura que a minha dispensa tinha como único conteúdo pacotes de Cerelac e boiões de pescada com béchamel da Nestlé, os favoritos da minha primogénita até quase aos seus três anos de idade, e que é melhor passar ao outro e não ao mesmo, porque não posso ajudar nesse departamento.

A minha mãe encarregou-se do cardápio de mistelas batidas da Carolina, e o senhor meu marido virou Masterchef dos seus três filhos - dominando a arte da batata doce, da beterraba e do chuchu.

Quando o João me conheceu eu era accionista da multinacional Nestlé e as acções eram potinhos de vidro que faziam plop e para os quais nem era preciso a ajuda de um homem para abrir.

Com a Isaura, voltámos pontualmente à pescada com béchamel. Coincidiu com o meu regresso ao trabalho a tempo inteiro e com o frenesim do dia-a-dia.

Nas vésperas de Natal comprámos um carregamento de novos boiões para fazer face à esquizofrenia do Natal e da antecipada falta de tempo que sermos os anfitriões e cozinheiros da Consoada e Almoço de Natal. Quando chegámos a casa tínhamos um presente da Nestlé: mais boiões (que entretanto já marcharam todos).

Não sei fazer sopas de bebé, mas no Natal cozinhei com o meu lindo marido um capão do qual só sobraram ossos.


Há anos e anos que nos dou o nome de “Família Cerelac" (para quem tenha Instagram é procurar a hashtag #familiacerelac). 


Vejam lá, querida Nestlé, se este post não saiu melhor que a encomenda? E se a Aurora não é um perfeita princesa Nestlé?
Obrigada pelos boiões. Obrigada por facilitarem a vida a muitos pais cansados :)
Boas entradas!

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O fantástico e delicioso bolo do primeiro aniversário da Isaura

Hei! Eu também quero fazer anos! A bebé faz 1 ano mas eu faço 31 meses! E adoro a Minnie.

A Aurora sente-se baralhada, com esta catadupa de aniversários de Dezembro e ela, isolada, lá longe no morninho mês de Maio. Reclama que quer fazer anos também. E não se conforma de não ter sido concebida na Primavera (que tonta, é uma filha do Verão, e foi feita na ilha mágica de São Miguel)

Então, fizemos-lhe mais ou menos a vontade: foi ela que escolheu o tema do bolo de aniversário da irmã mais nova, que ainda tem pouco querer.

O repto de um bolo de Minnie foi transmitido à querida Isabel Choupina, dos 3 Docinhos (super-mãe de três filhos), que escravizamos (e adoptamos também) no longo mês de Dezembro que todos os anos atravessamos.

Os putos embirram com a pasta americana, e saiu esta Minnie absolutamente delciosa de Merengue de uma nacionalidade qualquer (creio que é italiano).

A Isaura fez um ano e a Aurora na verdade, nesse mesmo dia também fazia 31 meses.
E lá soprou as velas do bolo, toda contente.
Obrigada, Isabel!

Docuras da 3 Docinhos para a Família Numerosa.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Imaculada Carolina - a dúzia


8 de Dezembro de 2003 - 14h35 - Hospital Particular de Lisboa - nascia uma filha. E também uma mãe.

Uma dúzia de anos -- a medida, mais apropriada para os ovos, chegou-nos hoje cá a casa.
Sou mãe de uma rapariga (eu que me deixe de ilusões, que ela já não é uma menina) de doze anos.

Estou a envelhecer. E ela está a crescer esplendorosamente, a revelar-se em todo o seu impressionante potencial, do qual tenho uma ínfima quota-parte genética que às vezes se reflecte no azul translúcido dos seus olhos.

Dá-me abadas à hora do jantar, quando se põe armada em sabichona a falar de Física e da génese do Universo (tenho que comprar menos revistas 'Quero Saber'), canta tão bem quanto eu, e atrevo-me a alvitrar que escreverá muito acima das minhas linhas, que teimam a sair cada vez mais tortas, apesar da formatação perfeita do monitor deste computador.

Muitas coisas têm falhado nestas últimas dúzias de dias do calendário que se esfumam muito rapidamente, à medida que os dias ficam mais curtos e mais frios.

A metáfora que me ocorre, nos últimos dias, é o de uma mão cheia de areia a escapulir-se-me inevitável e descontroladamente por entre os dedos. Nada de essencial falha - tenho o punho cerrado com força, e continuo determinada impossível missão de uma vida, que é garantir que os minúsculos grãos que fazem desta desta gigantesca charada uma história interminável se mantêm protegidos da força dos elementos, dos soluços do Universo, das emboscadas da vida. Mas, por vezes, deixo cair uma série de coisas pequenas, e já nem penso muito nessas falhas: sou, afinal, apenas humana, por mais super-poderes emprestados que traga pelos filhos que decidiram nascer (quase) todos em Dezembro (deliciosas criaturas, estes Sagitários).

Chega Dezembro e entro em piloto-automático, em modo sobrevivência, em alerta total. Fico de piquete, estou de banco permanentemente -- são quatro aniversários possíveis, em seis cá em casa: começa com a Isaura, no primeiro dia do último mês do ano, e uma semana depois, naquele que nunca deixou de ser feriado, o da Imaculada Conceição, o antigo dia da mãe, chega o aniversário da primogénita Carolina. Há agora uma pausa forçada (o meu sogro faria 66 anos no Domingo) até dia 19, o aniversário do pai, que há pelo menos meia dúzia de anos que não é convenientemente comemorado (há sete anos passámo-lo numa sala de partos, e acabámos de madrugada, numa cesariana de urgência), e no dia seguinte, a quatro dias do Natal, é a vez do António (no dia 30 será o super-tio Romão, outro irmão ruivo que ganhei na taluda).

Pelo meio da quadra e dos festejos deste lar, há muitas outras festas: da escola, do Piano, do ATL; há lanches, há cantigas, teatrinhos e outras coisas que me aquecem o coração e me extenuam até ao tutano. Há tudo isto e muito mais e é multiplicado por quatro.

Há também uma lista interminável de tarefas, de compras e presentes, e há muitos trabalhos de casa para os pais - mas, ao contrário do post de um outro (e muito mais famoso) pai de quatro, eu não me queixo da sina de improvisar enfeites de Natal dos mais inusitados materiais de desperdício, como rolos de papel higiénico, cápsulas de Nespresso, garrafas de plástico ou latas de Coca-Cola: ponho quanto sou no mínimo que faço, e isso inclui os sete instrumentos que tenho que tocar ao mesmo tempo na corda bamba, porque sou mãe, porque quero ser a mãe que tudo pode e que tudo consegue, sem mácula, sem falhas relevantes, com o cadastro limpo de falhas graves, e com direto a louvor no final da jornada.

Hoje não houve, porém, super-produção -- haverá uma festa disco para pré-adolescentes no Domingo que vem. O tio-avô Zé emprestou uma casa vazia, à espera de obras de remodelação, para a invasão de rapazes e raparigas que se despedem da sua infância sem olhar para trás, com narizes e dentes enormes, totalmente desproporcionados para aqueles corpos híbridos, em transformação.

Almoçámos vagarosamente com a família mais chegada.
A rapariga da dúzia de anos definiu expressamente que queria ir ao chinês -- teve desejo de Pato à Pequim.
Ainda pensei pedir o famoso e encantatório prato da 'Família Feliz', que desde a minha infância me delicia e povoa a imaginação com imagens idílicas, mas a família feliz estava à minha frente, e o prato, que mistura todas as proteínas e hidratos de carbono possíveis, é uma grande salganhada e posso deixar de o pedir por teimosia e sublimação

A miúda cresceu e no final da tarde arriscou até confessar-me que já lhe começaram as dores de crescimento: 'Pela primeira vez na vida, não estou a achar muita piada fazer anos - é uma seca crescer!"

Tem uma bicicleta linda, e os tios e os avós começaram este ano a dar-lhe dinheiro, porque se sentem perdidos, sem saber quem ela é, em quem se vai transformar.

Esqueci-me do bolo, fui a correr ao supermercado comprar um, e o António conseguiu partir o único dente definitivo que tinha, numa brincadeira parva.

Nem tudo foi mau: já de dente partido, tirámos as rodinhas auxiliares da bicicleta do António -- eventualmente poderia partir também uma perna, mas as probabilidades já eram menores e nós gostamos de arriscar o destino.

E ele começou instantaneamente a andar pelo empredado, onde também eu aprendi a andar em duas rodas há uns trinta anos, sem qualquer ajuda, num equilíbrio automático. Detém o recorde do Guiness de aprender a andar de bicicleta: foram cinco segundos. Um empurrão e nunca mais o vamos apanhar.

Com tantas falhas, foi um dia bom.
Há poucas coisas no mundo melhores do que andar de bicicleta.

É incrível ver como eles crescem sem podermos fazer nada para o impedir.
Não é uma seca crescer, filha. É duro, mas olha o caminho que já fizeste.

Verão de 2014, na nossa primeira casa de bonecas, na Av. EUA

Natal 2014, na nossa casa de Santa Marta

Páscoa de 2005 - a destruir à socapa uma paleta de maquilhagem

Natal de 2006 - em Santa Marta e uma boina de artista

8 de Dezembro de 2007 - no café da D. Beatriz, em Santa Marta, com o nosso Idea já escavacado lá atrás

Natal de 2008 - à espera do António e com o mural das fadas que eu lhe estava a pintar no quarto da casa nova da Almirante Reis

Agosto de 2009, em Évora, o primeiro Verão do António (na camisola lia-se 'Eu sou a irmã mais velha')

Agosto de 2010, no Parque Terra Nostra, nas Furnas

Agosto de 2011 - em Óbidos, com o Avô Tójão

Outubro de 2012 - Na Mata de Alvalade



Dezembro de 2013 - A brincar com as folhas de Gingko no Jardim da Estrela

Verão de 2014

Inverno de 2014, com uma das criações feitas pela sua mãe

Primavera 2015 - com humores e fazendo bocas.
O cabelo encolheu e ela cresceu sem parar. Setembro de 2015 com o emplastro.